Porto Velho É a Pior Capital do Brasil. Por Que Aqui Nunca Conserta?
Nota 58,59 no IPS 2026 — último entre 27 capitais. 12,18% do esgoto tratado, há dez anos. 41,8 homicídios por 100 mil. Outras capitais erraram tanto quanto e melhoraram. Esta não. O problema não é o que falhou nesta gestão. É o que nunca foi pensado em nenhuma.
Iris de Oliveira · 22 de mai. de 2026
A dona de casa do bairro Aponiã, em Porto Velho, sabe sem termômetro quando vai chover forte. Quando a água começa a subir, ela tira o tapete da sala, levanta o sofá com tijolos e desliga a tomada da geladeira. Mora há catorze anos a duzentos metros de um igarapé que recebe esgoto sem tratamento desde antes dela chegar. Em dezembro passado, a casa alagou pela sétima vez.
Na quarta-feira, 20 de maio, o Instituto Imazon e parceiros divulgaram o Índice de Progresso Social 2026. Porto Velho ficou em último lugar entre as 26 capitais e o Distrito Federal, com nota 58,59 — abaixo da média nacional de 63,40. Atrás de Macapá, Maceió, Salvador e Recife.
A manchete viralizou. A dona de casa de Aponiã não precisou ler.
A pergunta que o ranking não responde — mas é a única que importa
Porto Velho está em último lugar em rankings de qualidade de vida há mais de uma década. Há dez anos no fundo do ranking de saneamento do Instituto Trata Brasil. Há sete edições consecutivas no pelotão final do IPS. Não é notícia que a cidade está mal — é notícia velha. A pergunta interessante não é por que Porto Velho aparece em último lugar.
É por que aqui não melhora.
Salvador estava no fundo do ranking de saneamento e subiu. Curitiba era cidade desorganizada nos anos 1970 e virou padrão. Maceió estava entre as piores em homicídios e reduziu pela metade em uma década. Cidades que erravam tanto quanto Porto Velho — algumas erravam mais — escolheram melhorar. E melhoraram. Por que aqui não?
Porto Velho não é a pior capital do Brasil por má gestão recente, por azar geográfico ou por castigo do clima. É a pior porque foi construída para extrair — não para morar.
Nasceu em 1907 como acampamento da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, para escoar borracha boliviana. Depois foi garimpo. Depois hidrelétrica — Santo Antônio e Jirau, mais de R$ 40 bilhões de obra, com pico de 30 mil trabalhadores vindos de fora. Depois foi soja, gado, madeira passando para o porto. A cidade sempre foi corredor, nunca destino. E uma cidade que é corredor não constrói esgoto para quem fica — constrói estrada para quem passa.
Esse é o diagnóstico que nenhum ranking captura, porque nenhum ranking mede a vocação histórica de um lugar. Mas é o que explica por que a infraestrutura básica chega depois de tudo. Por que o esgoto tratado é exceção em pleno coração da maior bacia hídrica do mundo. Por que a violência da rota logística pousou na capital e ninguém pediu para ela ir embora. Quando uma cidade é entreposto há um século, ela aprende a tratar o morador como detalhe.
A cidade que cresceu por cima — e nunca por baixo
Pense numa casa em que o telhado foi construído antes da fundação. Sobe a parede, sobe a laje, sobe o forro — e a tubulação por baixo nunca foi feita. Pelo lado de fora, a casa parece pronta. Por dentro, o esgoto corre a céu aberto.
Porto Velho é essa casa. A cidade subiu — prédios na Sete de Setembro, comércio na Calama, universidades, shopping, condomínio fechado, restaurante de R$ 200 o couvert. Mas a rede coletora nunca acompanhou. Apenas 9,27% da população tem coleta adequada de esgoto, segundo o Ranking do Saneamento 2025 do Trata Brasil. E do pouco que se coleta, só 12,18% recebe tratamento. Os outros 87,82% voltam para o ambiente sem passar por estação alguma — escorrem para igarapés, infiltram no solo, chegam ao Madeira.
Para comparar: Curitiba, Brasília, Boa Vista, Rio de Janeiro e Salvador tratam pelo menos 80% do esgoto coletado. São cinco capitais. Do país inteiro. No Brasil, tratar esgoto é exceção. Em Porto Velho, é quase ficção.
Os 20 piores municípios do ranking investiram, entre 2019 e 2023, em média R$ 78,40 por habitante ao ano em saneamento. O patamar mínimo para universalização é R$ 223,82. Em outras palavras: a cidade que mais precisa investir é a que menos investe. E vem investindo menos há tanto tempo que ninguém lembra mais quando começou.
Cada real em saneamento devolve, segundo o BNDES, R$ 4 em internação evitada no SUS. Porto Velho é a capital brasileira que mais teima em não fazer essa conta.
O que esta gestão faz — e o que ela não pode fazer sozinha
É preciso reconhecer o avanço. A nova gestão municipal, que assumiu em janeiro de 2025, lançou um programa de pavimentação em bairros como Planalto, Três Marias, Cidade do Lobo e Novo Horizonte — mais de R$ 22 milhões contratados. Houve avanços pontuais em drenagem e iluminação. O prefeito Léo Moraes herdou um déficit que três décadas de prefeitos antes dele acumularam. Cobrá-lo sozinho é fácil — e injusto.
Mas reconhecer o que a gestão faz não muda o que ela não pode fazer sozinha. Em janeiro de 2025, treze pessoas morreram em Porto Velho numa única semana de confronto entre polícia e facção. O governo federal autorizou o envio da Força Nacional. A imprensa nacional chamou a cidade de "Porto Velho em chamas" por três dias — e depois esqueceu.
Os dados do Anuário Cidades Mais Seguras 2025 confirmam o que a semana de janeiro só escancarou: 41,8 homicídios por 100 mil habitantes. Vigésima primeira posição entre as 27 capitais. Segunda pior do Norte, atrás apenas de Macapá. Florianópolis registra 10,7. Brasília, 12,3. Porto Velho mata quatro vezes mais.
O Atlas da Violência 2025, do Ipea, dá o contexto: o Norte teve aumento de 260% nos homicídios entre 1980 e 2019 — mais do que o triplo da média nacional. Os fatores são três: expansão de facções, garimpo ilegal, enfraquecimento de políticas socioambientais. Porto Velho está exatamente no cruzamento desses três vetores. Não é coincidência. É geografia da rota — e a capital ficou no caminho.
A capital que ficou para trás dentro do próprio estado
Rondônia, no IPS 2026, é o 23º estado do Brasil, com média de 58,60 pontos. Mas há um dado dentro do dado: Porto Velho, a capital, não está entre os 15 municípios mais bem avaliados do próprio estado. Quem lidera é Rolim de Moura, no centro-sul, com 62,85 pontos.
Cacoal, Vilhena, Ji-Paraná, Pimenta Bueno, Ariquemes — cidades de 60, 80, 120 mil habitantes — entregam mais qualidade de vida que a capital de 517 mil. A explicação habitual aponta para o tamanho: capitais são complexas. Mas Curitiba tem quatro vezes mais habitantes e é a primeira do país.
Tamanho não explica. O que explica é vocação. Cacoal foi colonizada nos anos 1970 por famílias que vieram para ficar — agricultura, comércio, escola, igreja, médico. Cidade pensada para morar. Porto Velho foi povoada por ondas que vinham para extrair e voltar — ferrovia, garimpo, hidrelétrica. Cidade pensada para passar. Cem anos depois, essa diferença de origem ainda decide quem tem rede de esgoto e quem não tem.
O que o índice não mede — e o morador sabe
Nenhum ranking captura inteiramente uma cidade. Porto Velho tem rio, tem floresta a meia hora, tem entardecer sobre o Madeira que é uma das paisagens urbanas mais bonitas do Brasil. Tem culinária ribeirinha, presença indígena, herança boliviana, peruana e nordestina. Quem mora ama — e o amor não é ingenuidade, é resistência.
O que o índice mede é o que falta para que esse amor não seja exigido. Não devia ser preciso ser apaixonado pela cidade para suportar viver nela. Devia ser possível morar em Porto Velho com a expectativa razoável de que o esgoto não voltaria pelo ralo da cozinha. De que o filho saísse e voltasse. Que, quando a aposentadoria chegasse, a calçada estivesse lá para caminhar até a padaria.
A pior capital do Brasil não é a que tem o pior dado isolado. É a que, há um século, decide construir tudo o que passa — e quase nada do que fica.
O que viria depois — se houvesse continuidade
Curitiba não chegou ao primeiro lugar fingindo que era. Chegou priorizando infraestrutura básica, com continuidade entre gestões, durante trinta anos. Salvador não saiu do fundo do saneamento por sorte — saiu por um plano de investimento sustentado ao longo de três governos estaduais consecutivos.
Em Porto Velho, o problema não é a inteligência dos prefeitos — é o ciclo curto. Cada gestão entrega uma pavimentação, uma drenagem, uma frente de trabalho. A próxima desfaz, ajusta o foco, começa outra. O esgoto não espera política mudar. A violência não espera secretário trocar. A criança que nasceu em Aponiã no dia em que Hildon Chaves tomou posse pela primeira vez, em 2017, hoje tem oito anos — e ainda toma banho com balde quando a chuva forte vem.
A saída honesta exige três coisas que nenhum mandato isolado consegue: continuidade entre gestões, financiamento federal proporcional ao déficit acumulado e, principalmente, uma decisão coletiva de que esta cidade vai ser tratada como destino, não como entreposto. Saneamento universalizado em 15 anos. Tratamento de esgoto em todas as bacias. Polícia comunitária financiada por dez anos seguidos, não por um ano de operação espetáculo. Nada disso é caro. É só longo. E a política brasileira tem alergia ao longo.
Em dezembro, quando a próxima chuva forte chegar em Aponiã, a dona de casa vai levantar o sofá com os mesmos tijolos. Vai tirar o tapete. Vai desligar a tomada da geladeira. No rádio, alguém vai estar dizendo que o município investe em saneamento. Ela não vai desligar. Vai continuar tirando o tapete.
Porto Velho não é a pior capital do Brasil por castigo do destino. É a pior porque, em 119 anos, ainda não decidiu se quer ser cidade.
Fontes: Imazon / IPS Brasil — Índice de Progresso Social 2026, divulgado em 20/05/2026 (Porto Velho: 58,59 pontos, 27ª posição entre capitais); Exame, CNN Brasil e G1 — cobertura do ranking IPS 2026 (mai/2026); Instituto Trata Brasil — Ranking do Saneamento 2025, 17ª edição, em parceria com a GO Associados (Porto Velho: 12,18% de esgoto tratado, 9,27% de coleta, 99ª posição entre os 100 maiores municípios; média de R$ 78,40 por habitante ao ano nos 20 piores vs. R$ 223,82 mínimo para universalização); IBGE — Censo 2022 e estimativa 2025 (517.709 habitantes); IBGE / IPS — 21,95% de esgotamento sanitário adequado; MySide — Anuário Cidades Mais Seguras do Brasil 2025, baseado em IBGE e Ministério da Saúde (Porto Velho: 41,8 homicídios por 100 mil; 21ª entre capitais); Ipea — Atlas da Violência 2025 e estudo Dinâmicas da violência e da criminalidade na região Norte do Brasil (aumento de 260% nos homicídios no Norte entre 1980 e 2019); Fórum Brasileiro de Segurança Pública — 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2025); Observador / agências internacionais — janeiro de 2025: 13 mortes em uma semana e envio da Força Nacional a Porto Velho; Prefeitura de Porto Velho — programa de pavimentação 2025/2026; CNN Brasil — Curitiba como melhor capital no IPS 2026 (71,29 pontos); BNDES — retorno de R$ 4 em saúde para cada R$ 1 investido em saneamento.