O Fantasma do Master na Urna de 2026
Iris de Oliveira · 13 de mar. de 2026Há uma boa notícia e uma má notícia para o Palácio do Planalto no escândalo do Banco Master. A boa: por enquanto, os eleitores não estão cobrando a conta diretamente de Lula. A má: "por enquanto" é uma janela pequena, e ela está se fechando.
A pesquisa Meio/Ideia divulgada nesta quarta-feira (11) — realizada entre 6 e 10 de março com 1.500 entrevistados — entrega um retrato que o governo leria com alívio superficial e deveria ler com atenção profunda. Lula mantém 40% das intenções de voto em todos os cenários de primeiro turno testados. Mas no segundo turno, enfrenta empate técnico com Flávio Bolsonaro (47,4% a 45,3%) e com Tarcísio de Freitas. Para um presidente que, em dezembro de 2025, vencia Flávio por 51% a 36%, a queda é expressiva — e o caso Master está no centro desse movimento.
O dado mais revelador da pesquisa não é a intenção de voto. É o que vem antes dela. Perguntados sobre quem associam ao escândalo, 35% dos que conhecem o caso apontam o STF como principal responsável. O governo federal aparece para 21%. O Congresso, para 18%. À primeira vista, o Planalto pode respirar: o escândalo grudou mais na toga do que na faixa presidencial.
Mas essa leitura é incompleta. O mesmo levantamento mostra que 50,6% dos entrevistados não querem Lula no cargo após o fim do mandato atual, contra 46,7% que desejam sua permanência. E 70% dos que conhecem o caso Master afirmam que o STF perdeu credibilidade — a mesma Corte que é parceira política do Executivo e âncora judicial do governo em disputas contra a oposição. Quando o aliado afunda, o afogamento é compartilhado.
Os vetores de risco para Lula são três, e todos apontam na mesma direção.
O primeiro é a contaminação por proximidade. A reunião de dezembro de 2024 entre Lula, Vorcaro e o então futuro presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, foi descrita pelo próprio banqueiro como "ótima" e "muito forte". Guido Mantega, ministro da Fazenda nos governos anteriores do PT, teria recebido cerca de R$ 11 milhões como consultor do banco e articulado a venda do Master ao BRB. O escritório do ex-ministro Lewandowski foi contratado pelo banco antes de ele assumir o Ministério da Justiça. São fios que, individualmente, podem não ter peso decisivo — mas que, tecidos juntos na narrativa da oposição, formam um padrão que o eleitorado de centro reconhece como sinal de alerta.
O segundo vetor é o efeito institucional. O STF é impopular — e Lula governa com o Supremo. A percepção de que a Corte perdeu credibilidade no caso Master corrói a imagem de um governo que, nas disputas mais relevantes dos últimos anos, precisou do Judiciário como escudo. Quando o escudo racha, o presidente fica mais exposto.
O terceiro vetor é o tempo. A eleição de outubro de 2026 ainda está distante no calendário, mas próxima na memória do eleitor. Escândalos que não são encerrados — com responsabilização visível, punição e narrativa clara — tendem a fermentar. O Mensalão demorou anos para se converter em derrota eleitoral. O Master é mais complexo, mais ramificado e, pelo que as investigações já mostraram, muito mais difícil de localizar em um único campo político.
O governo, é verdade, tem um trunfo que não pode ser ignorado: o caso Master não é monopólio da esquerda. O senador Ciro Nogueira, do PP, apresentou a chamada "emenda Master". O cunhado de Vorcaro doou R$ 3 milhões à campanha de Bolsonaro e R$ 2 milhões à de Tarcísio de Freitas em 2022. O deputado Nikolas Ferreira usou aeronave de empresa ligada ao banqueiro. A oposição tem dificuldade em transformar o escândalo em munição unilateral porque a rede de Vorcaro atravessou partidos, campos e ideologias com a mesma desenvoltura com que atravessou poderes.
A ministra Gleisi Hoffmann, articuladora política do PT, já avisou que não é a primeira vez que decretam a morte eleitoral de Lula — e a história lhe dá razão. Mas há uma diferença relevante entre os episódios anteriores e o atual: desta vez, o escândalo não é apenas sobre dinheiro desviado. É sobre a captura sistemática de instituições que o eleitor médio esperava que funcionassem. E essa é uma narrativa mais difícil de rebater.
Os números de hoje dizem que o caso Master ainda não derrubou Lula nas pesquisas. Mas os mesmos números dizem que a eleição de 2026 será decidida no fio da navalha — e que cada novo capítulo da Operação Compliance Zero chegará ao eleitorado com nome, cargo e partido.
Pesquisas medem o presente. Eleições julgam o passado. E o passado do Banco Master está longe de ser encerrado.
Fontes: Pesquisa Meio/Ideia (TSE nº BR-00386/2026, 6–10/mar/2026, 1.500 entrevistas, margem de erro 2,5 p.p.); Pesquisa Datafolha (TSE nº BR-03715/2026, 3–5/mar/2026, 2.004 entrevistas); Pesquisa Quaest/Genial (fev/2026); Revista Nordeste; Infomoney; Gazeta do Povo; Agência Pública; Poder360.