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COLUNA | TRABALHO & POLÍTICA

A Escala 6×1 Não Vai Acabar. Vai Piorar

Uma emenda do Centrão e da direita transformou a proposta de redução para 36 horas em texto que autoriza 52 horas semanais, adia tudo por uma década e amplia o poder do acordo individual sobre a Constituição. A inversão aconteceu — e a maioria do país que trabalha sob essa escala não foi avisada.

Iris de Oliveira · 21 de mai. de 2026
A Escala 6×1 Não Vai Acabar. Vai Piorar

São quatro e quarenta e cinco da manhã quando Joana — operadora de caixa num supermercado — sai de casa. Trabalha seis dias por semana, folga numa terça-feira aleatória. Ganha R$ 1.620, o piso da categoria. Tem dois filhos, um cachorro e um marido que trabalha em outra escala 6×1, noutra empresa, na qual a folga cai num sábado a cada três semanas.

Nos últimos dois anos, Joana acompanhou de longe, pelas redes sociais, o movimento que pedia o fim da escala 6×1. Não ia a manifestação. Não tinha tempo. Mas torcia. Ouviu falar da PEC 221/2019, da PEC 8/2025, do acordo do governo com a Câmara para reduzir a jornada para 40 horas semanais sem corte de salário. Era a primeira vez em décadas que alguém em Brasília estava discutindo a vida dela.

Na semana passada, enquanto ela passava o código de barras de um saco de arroz pela milésima vez, parlamentares do Centrão e da direita apresentaram uma emenda à PEC do fim da escala 6×1 — e fizeram com o texto exatamente o oposto do que ele dizia que queria fazer.

A emenda foi protocolada em 14 de maio pelo deputado Sérgio Turra (PP-RS), com 176 assinaturas de parlamentares como Nikolas Ferreira, Ricardo Salles, Marcel van Hattem, Bia Kicis e Caroline de Toni. O nome do texto continua sendo "PEC do fim da escala 6×1". O conteúdo, agora, é o contrário disso.

O que o texto original dizia — e o que a emenda fez com ele

A PEC 221/2019, de autoria do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), previa redução gradual da jornada semanal de 44 para 36 horas ao longo de dez anos. A PEC 8/2025, de Erika Hilton (PSOL-SP), apensada à primeira, propunha semana de quatro dias com limite de 36 horas. Em abril deste ano, a Comissão de Constituição e Justiça aprovou a tramitação das duas. Hugo Motta, presidente da Câmara, anunciou acordo com o governo para reduzir a jornada para 40 horas semanais sem corte de salário.

A emenda do Centrão pegou esse texto e o reescreveu em quatro movimentos:

Primeiro, trocou a meta de 36 para 40 horas semanais. Quatro horas a mais de trabalho por semana em relação à proposta original. Parece detalhe — não é. São 208 horas a mais por ano.

Segundo, criou uma brecha que permite acordos individuais entre patrão e empregado de até 30% acima do limite constitucional. Trinta por cento de 40 horas é 52. Cinco dias de nove horas com um turno adicional de seis — ou turnos diários de mais de dez. Tudo, em princípio, voluntário.

Terceiro, estabeleceu que a regra nova só entra em vigor dez anos depois da publicação da emenda — e, mesmo passados os dez anos, ainda dependerá de uma lei complementar para regulamentar metas de produtividade, fiscalização e regras de transição. Na prática, é uma reforma constitucional que pode nunca chegar a valer.

Quarto, ampliou o chamado "negociado sobre o legislado": acordos individuais e instrumentos coletivos passarão a prevalecer sobre normas legais em temas como jornada, intervalos e pausas. O trabalhador, sozinho, ou com sindicato fragilizado, negociando com a empresa que paga seu salário.

Uma PEC que se chamava "fim da escala 6×1" foi transformada, sem mudar de nome, no veículo que pode prolongá-la por dez anos — e legalizar jornadas de até 52 horas semanais no caminho. A inversão é semântica antes de ser política: o título do texto não corresponde mais ao que o texto faz.

O argumento do outro lado existe — e merece ser ouvido com calma

Antes de apontar o problema, é preciso reconhecer o que tem fundamento na preocupação patronal. A redução da jornada não é gratuita. Estudos do FGV IBRE simularam o impacto de uma queda de 44 para 36 horas e encontraram custo econômico significativo em cenários de produtividade baixa. Setores de funcionamento contínuo — saúde, segurança, transporte, alimentação — operam em escalas que precisam de regras específicas. A Confederação Nacional da Indústria e a CNC argumentam, com legitimidade, que mudanças bruscas em país de desemprego estrutural elevado podem produzir efeitos não previstos sobre formalização e preços.

Ninguém razoável defende decreto de quarta-feira proibindo a escala 6×1 na quinta. Transição existe. Setores excepcionais existem. Discussão técnica sobre prazo e regulamentação é debate legítimo de democracia. A PEC original, aliás, já previa transição de dez anos — não é como se o texto que o Centrão emendou fosse imediatista.

O problema da emenda não é defender transição. É vender como transição o que, em rigor, é inversão. Adiar dez anos uma reforma que já tinha dez anos de transição é transformar a transição em destino. Permitir que o acordo individual autorize jornadas 30% acima do teto constitucional não é flexibilizar — é construir uma porta dos fundos que torna o teto figurativo.

Quem é a maioria invisível dessa conta

Para entender o que está em jogo, é preciso olhar quem trabalha sob a escala 6×1. Levantamento inédito do Ministério do Trabalho apresentado na Câmara em março, com base em 50,3 milhões de vínculos do eSocial, mostrou que 33,2% dos empregos formais brasileiros ainda cumprem essa escala — cerca de 14,8 milhões de pessoas. Os outros 66,8% já trabalham 40 horas em cinco dias e seguem produzindo.

14,8 milhões.

Quase a população inteira do Chile. Vivendo, em 2026, uma rotina que a maioria do mercado formal brasileiro já abandonou.

O Atlas da Escala 6×1, organizado pelo movimento Vida Além do Trabalho, mostrou que 46% desses trabalhadores recebem entre R$ 1.412 e R$ 2.120 e outros 22% ganham até um salário mínimo. Quase 70% não enxergam possibilidade real de melhoria salarial na ocupação que exercem. Entre as mulheres negras nessa escala, 80,7% recebem até R$ 2.120.

Não é o engenheiro de software que trabalha de casa em horário flexível. Não é o advogado de escritório que folga no sábado. É a operadora de caixa, o repositor de mercadoria, a atendente de farmácia, o segurança do shopping, a vendedora da loja de roupa, o motoboy do restaurante. É a base do varejo, dos serviços e do contato direto com o público. É a metade do Brasil que sustenta a outra metade — e que recebe, por isso, menos da metade da renda.

Estudo do IPEA com base na RAIS mostra que, entre 44 milhões de trabalhadores formais, 31,8 milhões — 74% — cumprem 44 horas semanais. A remuneração média desses vínculos é de R$ 2.627. Para quem tem jornada de 40 horas, a média sobe para R$ 6.211 — 2,4 vezes mais. Quem trabalha mais ganha menos. E é justamente quem trabalha mais que a emenda do Centrão propõe que continue trabalhando assim por mais dez anos.

O custo que ninguém soma na planilha — mas o INSS já paga

Os números do adoecimento sobem na mesma velocidade em que sobem os argumentos contra a redução de jornada. Auxílios-doença por burnout cresceram 493% entre 2021 e 2024, segundo o Ministério da Previdência. Em 2024, 455 mil afastamentos do INSS foram por doenças mentais — uma alta de 68% em relação ao ano anterior. Em 2025, transtornos mentais responderam por um em cada sete afastamentos concedidos pelo INSS.

Levantamento do DIEESE com base na RAIS, no INSS e no Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho mostra que supermercados e hipermercados concentram 46% dos afastamentos por problemas de saúde mental. Comércio de eletrodomésticos e setor farmacêutico vêm a seguir. São exatamente os setores onde a escala 6×1 predomina. Não é coincidência. É o desenho do problema.

Quem paga essa conta? A pergunta tem resposta clara. Não é a empresa que extrai a jornada — ela contabiliza só o custo da hora produtiva. É o SUS, que recebe o trabalhador esgotado para tratar ansiedade, depressão, doenças musculoesqueléticas. É o INSS, que paga o auxílio-doença e a aposentadoria por incapacidade. É a família do trabalhador, que absorve o que sobra de uma vida com seis dias dedicados ao trabalho e um dia dedicado a recuperar-se para a próxima semana.

O modelo que adia o fim da escala 6×1 e amplia para 52 horas não elimina o custo — terceiriza. O custo da jornada longa não desaparece porque o patrão não o paga; ele migra para o orçamento do SUS, para a conta do INSS e para a renda da família. A planilha da empresa fica limpa. A planilha do país, não.

A produtividade é um argumento — e ele corta dos dois lados

O argumento mais forte dos opositores da redução é o da produtividade: o Brasil produz pouco por hora trabalhada, e cortar horas sem aumentar eficiência pioraria o quadro. O argumento existe e é honesto. Reduzir jornada sem ganho de produtividade é trocar volume por nada.

Mas o argumento corta dos dois lados. Países da OCDE com jornadas semelhantes a 36 ou 40 horas produzem, por hora trabalhada, três a quatro vezes mais do que o Brasil. Não é trabalhando mais horas que se chega a isso. É trabalhando melhor, com mais investimento em tecnologia, qualificação e descanso suficiente para que o cérebro funcione no expediente seguinte. Estudo do Ministério do Trabalho calculou que a redução para 40 horas com manutenção de salários teria impacto de 4,7% sobre a massa de rendimentos — um patamar absorvível pela economia, segundo o próprio cálculo do governo.

A Organização Mundial da Saúde estima em 12 bilhões os dias de trabalho perdidos por ano no mundo em razão de depressão e ansiedade, com custo aproximado de US$ 1 trilhão em perda de produtividade. A jornada longa não é o oposto da improdutividade. Pode ser, tecnicamente, sua causa.

O detalhe mais grave: o acordo individual prevalece sobre a lei

Há um ponto da emenda que mereceu pouco destaque na cobertura jornalística e que talvez seja o mais decisivo. O texto estabelece que acordos individuais e instrumentos coletivos prevalecerão sobre normas legais e infralegais em temas de jornada, intervalos e organização do trabalho. Acordo individual é o que o trabalhador assina sozinho na mesa do RH no primeiro dia de emprego.

Num país com 60% de informalidade na média, taxa de sindicalização em queda há duas décadas e desemprego elevado em setores de baixa qualificação, "negociar individualmente com o patrão" é uma forma cordial de dizer aceitar as condições da empresa ou procurar emprego em outro lugar. A liberdade contratual é real para quem tem alternativa. Para quem não tem, é só nome.

O movimento sindical brasileiro tem fragilidades reais — burocracia interna, distanciamento da base, dependência de imposto sindical em algumas categorias. Reconhecer isso é honesto. Mas substituí-lo por negociação individual entre trabalhador isolado e empresa estruturada não é fortalecimento da liberdade — é deslocamento de poder. E todo deslocamento de poder tem direção. Nesse caso, ela é conhecida.

O Brasil que decide e o Brasil que executa

A emenda foi apresentada por 176 parlamentares. O salário-base de um deputado federal em 2026 é R$ 46.366,19, somado a auxílio-moradia, verba de gabinete para até 25 assessores, diárias, passagens e reembolso integral de saúde. Pesquisadores da UnB, USC e IMPA já apontaram que o Brasil é o país que mais gasta por parlamentar em relação à renda média da população — entre 33 democracias comparadas.

Nenhum desses parlamentares trabalha em escala 6×1. Nenhum opera caixa de supermercado num sábado à tarde. Nenhum precisa pedir folga numa terça-feira aleatória para levar filho ao pediatra do SUS. É que legislam sobre uma vida que não conhecem — e, como a bolha é estrutural antes de ser moral, o resultado é naturalmente o que aparece no papel da emenda: a transição que vira destino, o teto que vira piso, o limite que vira sugestão.

Joana, a terça-feira aleatória e os próximos dez anos

Joana não acompanha o nome do deputado Sérgio Turra. Não sabe quem é Léo Prates, o relator que decidirá nos próximos dias o que fazer com a emenda no parecer. Não sabe que o texto pode ser votado na comissão especial em 26 de maio. Sabe apenas que sai de casa às 4h45, abre o caixa às 6h, almoça em pé na copa atrás do estoque e volta para casa às 16h numa cidade onde o transporte público termina às 22h.

Se a emenda passar como está, Joana terá, no melhor cenário, mais dez anos dessa mesma rotina. No pior, terá a empresa propondo "acordo individual" para esticar a jornada até 52 horas — porque o teto novo não é mais 44, é o que o patrão e o trabalhador combinarem entre si. E ela vai assinar, porque o filho mais novo está com sinusite e o remédio custou R$ 87 esta semana.

A PEC 221 foi escrita para gente como Joana. A emenda foi escrita contra gente como Joana — sem que ninguém precisasse dizer isso em público. A linguagem da emenda fala em "livre iniciativa", "segurança jurídica", "adaptação setorial". A vida que ela regula fala em saco de arroz, código de barras e terça-feira aleatória.

Não é coincidência que a maior reforma trabalhista em discussão no Brasil tenha sido capturada exatamente no momento em que a discussão começava a importar para 14,8 milhões de pessoas. Toda vez que a base da pirâmide se aproxima de um direito, surge no Congresso uma emenda explicando, com linguagem técnica e prazo de dez anos, por que esse direito ainda não cabe no orçamento do país.

A emenda do Centrão não defende a escala 6×1 em público — defende em letra miúda. O título do projeto continua sendo o que o país queria ouvir. O corpo do texto é o que o país tem aceitado calado há décadas. Entre o que o título promete e o que o artigo entrega, há um abismo de dez anos, doze horas diárias e 14,8 milhões de pessoas que continuarão saindo de casa antes das cinco da manhã para que o resto do Brasil possa fazer compras no sábado à tarde.


 Fontes: Brasil de Fato — Emenda do Centrão e da direita adia fim da escala 6×1 e prevê até 52h semanais (20/05/2026); ICL Notícias — Centrão apresenta proposta que amplia jornada para 52 horas e adia fim da 6×1 (19/05/2026); Congresso em Foco — Emendas à PEC 6×1 travam redução e beneficiam empregadores (maio/2026); Câmara dos Deputados — Empregadores propõem negociação coletiva para reduzir jornada (maio/2026); Ministério do Trabalho e Emprego — Estudo eSocial: escala 6×1 atinge 33,2% dos empregos no Brasil; impacto de 4,7% sobre massa de rendimentos (março/2026); IPEA — Levantamento RAIS 2023: 31,8 milhões de vínculos com jornada de 44h; remuneração média R$ 2.627 (44h) vs R$ 6.211 (40h); DIEESE — Atlas da Escala 6×1 / pesquisa rendimento (2025); Ministério da Previdência Social — Auxílios-doença por burnout cresceram 493% entre 2021 e 2024; 455 mil afastamentos por doenças mentais em 2024 (+68%); DIEESE / INSS / OBSST — 46% dos afastamentos por saúde mental em supermercados e hipermercados; Organização Mundial da Saúde — 12 bilhões de dias de trabalho perdidos por ano por depressão e ansiedade; US$ 1 trilhão em perda de produtividade; FGV IBRE — Impactos setoriais da redução de jornada (2025); Decreto Legislativo nº 172/2022 — subsídio parlamentar; Pesquisa UnB/USC/IMPA — gasto por parlamentar em relação à renda média (2021).