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COLUNA | GEOPOLÍTICA & PODER

A Ilha que a China Não Pode Perder — e que Xi Quer Como Legado

Setenta e seis anos depois que Chiang Kai-shek fugiu para Formosa, uma ilha menor que Pernambuco produz 90% dos chips avançados do mundo. Xi Jinping decidiu que ela não vai chegar viva ao centenário do Partido. E o relógio não está mais marcado em décadas.

Iris de Oliveira · 16 de mai. de 2026
A Ilha que a China Não Pode Perder — e que Xi Quer Como Legado

Em 10 de dezembro de 1949, um general chinês embarcou num avião em Chengdu com a roupa do corpo, dois milhões de soldados em retirada e a convicção de que voltaria. Chiang Kai-shek nunca voltou. Morreu em Taipei em 1975 sem rever o continente que jurou reconquistar.

Setenta e seis anos depois, o continente é que quer voltar para a ilha.

Na virada de 2025 para 2026, antes de fazer seu discurso de Ano Novo, Xi Jinping ordenou o maior exercício militar já feito em torno de Taiwan. Foi chamado de "Missão Justiça". Envolveu, segundo dados que vazaram para a imprensa internacional, dezenas de navios, mais de uma centena de aeronaves e mísseis que caíram a 27 milhas náuticas da costa de Taipei. No dia seguinte, diante das câmeras, Xi disse a frase que vinha ensaiando há mais de uma década: "A reunificação da nossa pátria, como tendência da história, é imparável."

Não é retórica. É calendário.

Uma ilha menor que Pernambuco. Um problema do tamanho do século.

Taiwan tem 36 mil quilômetros quadrados — cabe inteira dentro de Pernambuco e ainda sobra espaço para Sergipe. Tem 24 milhões de habitantes, menos do que o estado de São Paulo. Sua capital, Taipei, é uma das economias mais ricas da Ásia. E essa ilha pequena, distante, separada do continente chinês por um estreito de 130 quilômetros de água, controla algo que nenhum país do mundo conseguiu replicar: a fabricação dos chips que fazem o século XXI funcionar.

Uma única empresa taiwanesa — a TSMC, fundada em 1987 por um engenheiro que cresceu no continente — produz cerca de 90% dos semicondutores mais avançados do planeta. Os chips que rodam o iPhone na sua mão, o ChatGPT que você usa no computador, o sistema de mira do caça F-35 americano e os servidores que treinam inteligência artificial no mundo inteiro saem, em sua imensa maioria, de fábricas no parque industrial de Hsinchu e no sul de Taiwan.

Noventa por cento.

Quando uma única ilha concentra essa fatia de uma indústria, ela deixa de ser um problema regional. Vira o ponto de estrangulamento de toda a economia global. Se a TSMC parar de operar por seis meses, o PIB mundial perde algo entre US$ 1 trilhão e US$ 2 trilhões, segundo estimativas conservadoras. Não há plano B. Os Estados Unidos estão tentando construir um — investindo bilhões para que a TSMC fabrique em Arizona. As fábricas americanas, quando entrarem em operação total, custarão 50% mais caro do que as taiwanesas. E ainda dependerão de engenheiros vindos de Taiwan.

Esse é o cenário em que Xi Jinping decidiu que a reunificação não pode esperar outra geração.

Como uma ilha de refugiados virou a nação dos chips

A história de Taiwan no século XX começa amarga. Os portugueses passaram por ali em 1544, chamaram a ilha de Formosa — "a bela" — e seguiram viagem. Os holandeses governaram brevemente no século XVII. A dinastia Qing incorporou Taiwan à província de Fujian em 1684 e só a transformou em província própria em 1885. Dez anos depois, perdeu a ilha numa guerra contra o Japão. Taiwan virou colônia japonesa por meio século — e foi industrializada, eletrificada e modernizada por Tóquio. Em 1945, com a derrota japonesa na Segunda Guerra, voltou ao controle chinês. Por quatro anos.

Em 1949, Mao Tsé-tung venceu a guerra civil contra os nacionalistas de Chiang Kai-shek e proclamou a República Popular da China. Chiang fugiu para Taiwan com cerca de 2 milhões de pessoas — soldados, funcionários, empresários, intelectuais — e levou junto o ouro do Banco Central, a Força Aérea inteira e a convicção de que estava montando uma base provisória para reconquistar o continente. Mao tinha tudo pronto para invadir e terminar a guerra civil em 1950. Não invadiu por um motivo específico: a Coreia entrou em guerra. Os Estados Unidos passaram a ver Taiwan como ativo estratégico no Pacífico e mandaram a Sétima Frota para o estreito.

Daquele momento até hoje, a ilha vive num estatuto que nenhum país conseguiu resolver: governa a si própria como um Estado, tem moeda, exército, passaporte, presidente eleito, mas é reconhecida como nação soberana por apenas 12 países, a maioria nações pequenas como Belize e Tuvalu. Os Estados Unidos romperam relações formais com Taipé em 1979 — mas mantêm, por lei, a obrigação de fornecer armas para que a ilha possa se defender.

Nas décadas seguintes ao êxodo de Chiang, Taiwan fez algo que a maioria das colônias e ex-colônias do mundo nunca conseguiu: pegou uma economia agrícola e a transformou, em duas gerações, no centro nervoso da indústria global de alta tecnologia. Em 1987 — mesmo ano em que a ilha encerrou quase quatro décadas de lei marcial e iniciou sua transição democrática — Morris Chang fundou a TSMC. A aposta de Chang era contraintuitiva: criar uma fábrica que não desenharia chips próprios, só produziria para os outros. Era o oposto do modelo da Intel.

Funcionou. Hoje a TSMC vale mais de US$ 1 trilhão em bolsa, fornece semicondutores para Apple, Nvidia, AMD, Qualcomm e Broadcom, e está construindo em Taichung uma fábrica de chips de 1,4 nanômetro — uma escala em que o transistor já é menor do que alguns vírus. Em 2025, fechou o ano com lucro líquido recorde e receita 31,6% maior do que no ano anterior.

Uma ilha de refugiados que ninguém reconhece como país produz os chips que sustentam a inteligência artificial dos países que se reconhecem entre si. Essa é a contradição central do século XXI — e a razão pela qual Pequim não pode mais ignorá-la.

O que a China quer — e por que não é só território

Para o Partido Comunista Chinês, Taiwan nunca foi um problema territorial isolado. É a peça que falta para fechar o capítulo aberto em 1949. Hong Kong voltou em 1997. Macau, em 1999. Taiwan é o último território que Pequim considera "província rebelde" e que está fora do controle do continente desde a fundação da República Popular. Resolver a questão é, no vocabulário oficial chinês, completar o "rejuvenescimento nacional" — o projeto de devolver à China o lugar de potência central que ela ocupou por dois mil anos antes do que os chineses chamam de "o século da humilhação", entre a Guerra do Ópio (1839) e a vitória comunista (1949).

Mas a dimensão simbólica é só uma das camadas. As outras são duras.

A camada geoestratégica: Taiwan fica no meio do que os estrategistas americanos chamam de Primeira Cadeia de Ilhas — a linha que vai do Japão, passa por Taiwan, pelas Filipinas e termina na Indonésia. Essa linha é o que impede a Marinha chinesa de operar com liberdade no Pacífico aberto. Com Taiwan sob controle de Pequim, a China sai de uma posição de potência regional cercada por aliados americanos e passa a operar como potência marítima global. Não é detalhe técnico — é a diferença entre ser China e ser Estados Unidos.

A camada econômica: controlar Taiwan é controlar a TSMC. É ter, da noite para o dia, a chave da indústria global de semicondutores na mão. Isso muda a relação de poder com os Estados Unidos de forma mais profunda do que qualquer tarifa, embargo ou guerra comercial conseguiria.

E a camada doméstica: Xi Jinping construiu sua autoridade sobre a promessa de "rejuvenescimento". Aboliu o limite de mandatos em 2018, consolidou poder como nenhum líder chinês desde Mao, e prepara para 2027 o congresso do Partido que pode lhe dar um quarto mandato. Líderes assim precisam entregar legado. Mao entregou a fundação da República. Deng Xiaoping entregou a abertura econômica. Hu Jintao entregou os Jogos Olímpicos de 2008. Xi precisa entregar Taiwan — ou explicar, para uma elite partidária que ele mesmo purgou, por que não conseguiu.

O que Pequim já construiu — e por que isso importa antes da crítica

Antes de seguir, é honesto reconhecer o que a República Popular da China fez nas últimas quatro décadas. Tirou cerca de 800 milhões de pessoas da pobreza extrema. Construiu mais quilômetros de trem-bala do que o resto do mundo somado. Tornou-se a maior potência industrial do planeta. Lidera hoje a fabricação global de painéis solares, baterias de lítio e carros elétricos. Investe em educação, infraestrutura e ciência em escala que humilha qualquer democracia. O modelo chinês tem custos políticos sérios — autoritarismo, censura, repressão de minorias — mas tem resultados materiais que dificilmente seriam possíveis sob outro regime, e fingir o contrário é desonestidade analítica.

É exatamente por causa desses resultados que a questão de Taiwan ficou mais perigosa, não menos. Um regime confiante na sua trajetória econômica e tecnológica calcula que tem hoje uma janela de oportunidade que talvez não tenha amanhã. O Departamento de Defesa dos Estados Unidos trabalha internamente, desde o governo Biden e agora no segundo mandato Trump, com a hipótese de que a China possa estar militarmente pronta para tentar tomar Taiwan até 2027. Não é previsão — é cenário-base. E é por isso que existe.

O que os taiwaneses pensam — e por que isso é o problema de Xi

A parte da equação que Pequim mais subestima é a mais simples: o que os 24 milhões de taiwaneses querem. As pesquisas de opinião na ilha são consistentes há décadas. A maioria absoluta da população não quer se unir à China continental. Não quer também declarar independência formal — porque isso seria casus belli imediato. Quer manter o status quo: viver como vive hoje, sob um governo democrático, sem mudança abrupta.

O modelo "um país, dois sistemas" que Pequim ofereceu a Taipé, inspirado em Hong Kong, foi rejeitado por todos os principais partidos políticos da ilha. E o que aconteceu com Hong Kong entre 2019 e 2024 — lei de segurança nacional, prisão de jornalistas, dissolução de partidos de oposição — pôs uma lápide sobre essa proposta. Nenhum taiwanês sério acredita mais que Pequim manteria a democracia da ilha depois de uma anexação.

Em janeiro de 2024, Taiwan elegeu Lai Ching-te, do Partido Democrático Progressista, para a presidência. É o terceiro mandato consecutivo do DPP — partido que Pequim considera "separatista". Lai já disse diversas vezes que a República da China em Taiwan e a República Popular da China "não são subordinadas uma à outra". Para Pequim, isso é uma declaração de independência velada. Para Taipé, é uma descrição factual da realidade desde 1949.

Cento e trinta quilômetros de água. Setenta e seis anos sem governo comum.

Em qualquer outro contexto histórico, esses dois fatos já teriam consolidado uma nação separada. No caso de Taiwan, eles convivem com uma reivindicação contínua de Pequim — apoiada pela maior parte da comunidade internacional, que reconhece a política de "Uma Só China" — de que a ilha é, formalmente, parte da China. É a contradição que manteve a paz por sete décadas. E é a contradição que pode quebrar nas próximas duas.

O legado que Xi quer — e a janela que ele acha que tem

Xi Jinping fez 72 anos em junho de 2025. Está no poder desde 2012. Eliminou rivais internos, reescreveu a Constituição para se manter indefinidamente, purgou militares e burocratas em ondas sucessivas de campanha anticorrupção, e construiu em torno de si um culto à personalidade que não se via na China desde Mao. Em 2027, o Partido Comunista realiza seu 21º Congresso — o que provavelmente lhe dará um quarto mandato. Em 2049, a República Popular completa 100 anos. Esses dois marcos são o calendário em que Xi pensa Taiwan.

Analistas que acompanham o tema há décadas, como o português Luís Cunha, autor de "Taiwan — Paz e Guerra na Ásia", são diretos: se Xi Jinping resolver a questão de Taiwan, entra para o panteão dos grandes líderes chineses ao lado de Mao e Deng. Se não resolver — e tendo criado a expectativa que criou — pode comprometer a própria legitimidade do Partido Comunista. Não é exagero retórico. É o cálculo que está sendo feito em Pequim.

Existem três caminhos possíveis. O primeiro é a anexação voluntária — via referendo na ilha que valide a união, sob pressão econômica e diplomática contínua. É o caminho preferido por Pequim e, segundo o secretário de Estado americano Marco Rubio declarou em maio de 2026, é o caminho que a diplomacia chinesa hoje persegue de forma prioritária. É também o caminho menos provável: os taiwaneses não votariam por isso. O segundo é o bloqueio econômico e a guerra de desgaste — cercar a ilha, sufocar suas rotas comerciais, forçar uma negociação sob pressão. O terceiro é a invasão militar direta — operação anfíbia sobre 130 quilômetros de mar, contra um exército taiwanês treinado e armado pelos Estados Unidos, com o risco de uma guerra com Washington.

Nenhuma dessas opções é simples. Mas todas elas estão sobre a mesa de trabalho do Politburo. E Xi tem feito, sistematicamente, o que se faz quando se prepara o terreno: instituiu em 2025 o "Dia da Recuperação de Taiwan" como data oficial. Aumentou em ritmo recorde o orçamento militar. Reorganizou o Exército de Libertação Popular para operações no estreito. Pressionou países como o Brasil e o conjunto dos BRICS a reafirmarem o princípio de "Uma Só China" em comunicados conjuntos.

Líderes que prometem legado precisam entregar legado. E líderes que consolidaram poder absoluto não têm a quem responsabilizar quando o legado falha. Essa é a parte mais perigosa do cálculo: Xi Jinping não tem segundo plano, porque construiu uma máquina política que não admite que ele tenha.

Por que isso afeta o brasileiro que nunca ouviu falar de Taiwan

Esta é a parte que parece distante. Não é. Se algo acontecer no estreito de Taiwan — invasão, bloqueio, guerra entre China e Estados Unidos — o impacto no Brasil será imediato e brutal.

Primeiro, os preços. Sem chips taiwaneses, todo aparelho eletrônico no mundo fica mais caro ou indisponível. Celular, carro, eletrodoméstico, máquina agrícola — tudo sobe ou desaparece da prateleira. Em 2021, durante a pandemia, uma escassez muito menor de semicondutores fez o preço de carros usados no Brasil subir 30% em um ano. Uma crise em Taiwan multiplicaria isso por dez.

Segundo, o agronegócio. A China é o maior comprador da soja, da carne e do minério de ferro brasileiros. Se Pequim entrar em conflito com Washington, o comércio global se reorganiza. Pode ser bom para o Brasil — se a China comprar mais do agro brasileiro para substituir o que perde dos EUA. Pode ser péssimo — se sanções secundárias americanas atingirem quem comerciar com Pequim. Não há cenário neutro.

Terceiro, a geopolítica que o Brasil já está vivendo. As 200 empresas chinesas instaladas no país, o data center do TikTok no Ceará, a BYD como marca mais vendida no varejo em abril de 2026, as estatais chinesas operando energia e infraestrutura — tudo isso vira parte de uma equação muito mais tensa se a guerra fria entre China e EUA esquentar. O Brasil terá de escolher um lado em situações em que preferiria não escolher.

Quarto, o exemplo. Se Pequim conseguir absorver Taiwan — pacificamente ou não — sem que o Ocidente responda à altura, a lição para qualquer potência autoritária do mundo é clara: anexar território vizinho é possível, basta ter capacidade militar e econômica para sustentar a operação. A Rússia já testou esse modelo na Ucrânia. A resposta global à crise de Taiwan vai definir se ele se torna padrão.

Em 1949, um general derrotado pousou em Taipei achando que ficaria ali por alguns meses. Setenta e seis anos depois, o herdeiro do vencedor daquela guerra olha para a mesma ilha e calcula em quanto tempo ela cabe no seu legado. Entre esses dois pontos — o avião do Chiang em 1949 e os exercícios militares do Xi em 2026 — está toda a história do século curto que o século XXI ainda não decidiu como vai terminar. A pergunta não é se a China quer Taiwan. É se o mundo, quando precisar decidir o que fazer, vai estar pronto para a conta que essa decisão custa.

Fontes: Al Jazeera — Xi diz que reunificação com Taiwan é 'imparável' em discurso de Ano Novo (1º jan/2026); Xinhua — discurso de Xi Jinping para 2026 (31 dez/2025); The Diplomat — Xi's Strategy to Win Taiwan Without Fighting, exercício "Justice Mission 2025" com 89 aeronaves e simulação de bloqueio (jan/2026); Modern Diplomacy — Xi Jinping's New Year 2026 Address: Taiwan – Now or Never; instituição do "Taiwan Recovery Day" (jan/2026); CNBC — Xi Jinping recebe Cheng Li-wun (KMT) em Pequim; primeira reunião entre Xi e líder taiwanês de oposição em quase uma década (abr/2026); CNN Brasil — Taiwan: história, política "Uma Só China", Resolução 2758 de 1971 (mai/2026); Pravda — Declarações de Marco Rubio sobre anexação via referendo (mai/2026); Wikipédia/TSMC — 70% do mercado global de foundry, fornecedor principal de Apple, Nvidia, AMD, Qualcomm (mai/2026); Ensaios e Notas — TSMC produz 90% dos chips avançados (<7nm) do mundo (mar/2026); Portal Mie/TSMC Annual Report — receita 2025 de NT$ 3,809 trilhões (+31,6%); lucro líquido NT$ 1,7178 trilhão (+46,4%) (jan/2026); Observador (Portugal) — fábrica de 1,4nm autorizada em Taichung; investimento de US$ 100 bi nos EUA (out/2025); Diário de Notícias (Portugal) — entrevista com Luís Cunha, autor de "Taiwan – Paz e Guerra na Ásia", sobre Taiwan como legado de Xi (nov/2024); Wikipédia — Guerra Civil Chinesa, Retirada para Taiwan, História de Taiwan; CNN Brasil — Xi promete impedir separação no aniversário de 130 anos de Mao (jan/2024); Future Warfare Magazine — discurso de Xi de Ano Novo de 2026 e exercício Justice Mission (jan/2026); Factually.co — orçamento militar chinês recorde em 2026 e calendário do Congresso do Partido de 2027.