O Mestrado que o Brasil Reserva para Quem Pode Estudar de Dia
Um mapa da CAPES mostra onde o conhecimento se concentra no Brasil. O Norte tem os menores índices de mestres por habitante. Não é surpresa para quem cresceu lá.
Iris de Oliveira · 15 de mai. de 2026
Comecei a trabalhar aos 15 anos no interior de Rondônia. Não foi escolha — foi necessidade. E por muitos anos, o cansaço acumulado depois de um dia de trabalho competiu com a vontade de estudar. Às vezes o cansaço quase venceu.
Não venceu. Fiz a graduação. Fiz a pós-graduação. Hoje curso o mestrado. Mas sei, com clareza, que minha história é exceção. A maioria das pessoas com quem estudei não terminou o ensino médio. Não porque fossem menos capazes. Porque o sistema não foi construído para quem precisa trabalhar enquanto estuda.
Esse é o Brasil que um mapa da CAPES revelou com precisão.
Os dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, divulgados em 2024, mostram a distribuição de mestres por 100 mil habitantes em cada estado brasileiro. A região Norte — Rondônia, Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Roraima, Tocantins — concentra os menores índices do país. Entre 7,8 e 10 mestres por 100 mil habitantes, enquanto estados do Sul e Sudeste chegam a 30, 40 ou mais. A desigualdade no mapa não é acadêmica. É estrutural.
O mapa que revela onde o conhecimento mora
O Brasil tinha, em 2021, apenas 27 mestres para cada 100 mil habitantes — dado do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE). É um número baixo quando comparado a países desenvolvidos, mas também baixo em relação a vizinhos latino-americanos. O país duplicou o número de mestres nas últimas duas décadas, mas o crescimento foi geograficamente desigual.
A região Norte, que concentra 45% do território nacional e abriga mais de 18 milhões de pessoas, tem a menor densidade de programas de pós-graduação do país. Poucos programas significam menos vagas, menos bolsas, menos pesquisa e menos profissionais qualificados para trabalhar e ensinar na própria região. É um ciclo que se alimenta: sem mestres formados localmente, os programas não crescem; sem programas que crescem, novos mestres não se formam.
A desigualdade racial atravessa esses números. Pretos representam apenas 4,1% dos mestres brasileiros e 3,4% dos doutores. Pardos somam 16,7% e 14,9%, respectivamente — números muito abaixo da proporção desses grupos na população geral. No Norte, onde a população é majoritariamente parda e indígena, essa sub-representação é ainda mais pronunciada. O mapa da CAPES não é apenas um retrato de desigualdade educacional. É também um retrato de desigualdade racial e regional ao mesmo tempo.
Em 2021, havia 38,9 mestres brancos por 100 mil habitantes no Brasil. Entre pardos, eram 16,1. Entre indígenas, 16. O mesmo título, o mesmo esforço — e quase metade do reconhecimento estatístico. O mestrado no Brasil ainda é, em sua maior parte, um projeto de uma cor e de uma região específica.
A empresa que ainda não entendeu o que um mestre vale
Existe uma crença disseminada no mercado de trabalho brasileiro de que o mestrado é coisa de quem quer dar aula — não de quem quer trabalhar. Essa crença tem consequências práticas: empresas raramente valorizam o título na remuneração, raramente financiam a formação dos seus profissionais e raramente criam condições para que funcionários cursem programas de pós-graduação sem precisar abandonar o emprego.
O CGEE documentou esse problema com precisão. A participação de mestres e doutores na indústria de transformação brasileira ficou estagnada em torno de 1,6% por anos. Enquanto países que lideram em inovação — Alemanha, Coreia do Sul, Estados Unidos — têm estratégias nacionais para absorver pesquisadores no setor produtivo, o Brasil formou mais mestres e não criou o mercado capaz de recebê-los.
O resultado é perverso: quem investe anos numa pós-graduação muitas vezes não encontra empresa disposta a pagar mais por isso. E quem está no mercado de trabalho não encontra empresa disposta a flexibilizar o horário para que ele estude. Os dois lados do mesmo problema — o trabalhador que quer avançar e a empresa que não vê valor nisso — se encontram num impasse que penaliza os dois.
Quando a empresa não reconhece o mestrado, ela está dizendo algo sobre como enxerga o futuro. Países que inovam são países onde o conhecimento aplicado tem valor mensurável dentro das organizações. O Brasil ainda trata a pós-graduação como custo pessoal de quem sonha demais.
A universidade que fecha às 18h — e exclui quem trabalha
Universidades públicas brasileiras oferecem programas de mestrado, em sua esmagadora maioria, em período integral. Aulas de manhã, pesquisa de tarde, defesa de tese quando o orientador tiver disponibilidade. Esse modelo foi desenhado para o pesquisador em dedicação exclusiva — bolsista, sem outro vínculo empregatício, com tempo para a produção acadêmica em regime de jornada acadêmica completa.
Esse pesquisador existe. Mas é uma fração pequena de quem poderia e deveria acessar a pós-graduação. A maior parte dos candidatos potenciais ao mestrado no Brasil são profissionais em atividade — adultos com emprego, família e conta para pagar no final do mês. Para esses, o modelo de dedicação exclusiva não é uma opção. É uma exclusão disfarçada de exigência acadêmica.
O mestrado profissional — que prevê maior flexibilidade e foco em aplicação prática — existe e vem crescendo. Mas ainda é visto por parte da comunidade acadêmica como segunda categoria, e muitas instituições resistem em ampliar essa modalidade com a mesma seriedade com que tratam o mestrado acadêmico. A consequência é que o título que poderia ser acessível a um técnico de Rondônia ou a uma enfermeira de Belém continua restrito a quem pode parar de trabalhar por dois anos.
Turma noturna de mestrado não é concessão. É inclusão. Enquanto as universidades públicas tratarem o período integral como único modelo legítimo de pós-graduação, elas estarão, deliberadamente ou não, reservando o conhecimento para quem já tem condições de não trabalhar.
A escolha que não deveria ser uma escolha
No Brasil de hoje, um jovem de 28 anos que trabalha oito horas por dia, mora no interior do Norte e quer fazer mestrado enfrenta uma equação sem solução simples: o programa mais próximo fica numa capital a centenas de quilômetros, as aulas são de dia, a bolsa de pesquisa — quando existe — não cobre o aluguel, e o emprego que sustenta a família não pode ser abandonado.
Essa não é uma situação hipotética. É a realidade de milhares de brasileiros que teriam capacidade e vontade de avançar na formação acadêmica — mas que são forçados a escolher entre sobreviver agora e crescer no futuro. E quando o sistema só oferece essa escolha, a maioria escolhe o que é urgente. O que é urgente sempre vence o que é importante quando não há margem para os dois.
O dado que ficou comigo ao olhar o mapa da CAPES não foi o menor índice da região Norte. Foi pensar em quantas pessoas nessas estatísticas baixas tinham a inteligência, a vontade e a capacidade de estar lá — e não estavam não por falta de mérito, mas por falta de estrutura. Cada ponto percentual a menos no mapa representa alguém que decidiu que o cansaço não ia vencer — e não encontrou o sistema do lado.
O que eu aprendi trabalhando aos 15 anos
Quando comecei a trabalhar, não sabia que um dia ia escrever sobre pós-graduação. Sabia que precisava pagar as contas. O mestrado veio muito depois — e veio por teimosia, por apoio de algumas pessoas certas, por circunstâncias que não se repetem para todos.
Não conto minha história como exemplo de que basta querer. Conto como evidência de que o sistema falha sistematicamente com quem mais precisaria dele. A maioria das pessoas com quem estudei não terminou o ensino médio — não porque desistiram, mas porque o Brasil nunca organizou as condições para que elas pudessem continuar.
O mapa da CAPES é bonito em cores. Mas o que ele mostra, na prática, é onde o Brasil achou que o conhecimento deveria ficar. Mudar esse mapa exige mais do que expandir programas. Exige decidir que quem trabalha de dia também tem direito de aprender à noite — e que o interior do Norte não é o fim do mundo, mas o lugar onde o país mais precisa investir no que forma pessoas.
Fontes: CAPES/CGEE — Mapa de Mestres por 100 mil habitantes por estado (2024); elaboração: Amanda Silva Almeida (@espacialidade); fonte dos dados: Sistema de Informações Georreferenciadas CAPES (2024); CGEE — Brasil: Mestres e Doutores 2024: Brasil tinha 27 mestres e 10,2 doutores por 100 mil habitantes em 2021; indústria de transformação absorve apenas 1,6% dos mestres e doutores; CNN Brasil / CGEE — Desigualdade racial na pós-graduação: pretos = 4,1% dos mestres; pardos = 16,7%; indígenas = 0,23%; brancos com 38,9 mestres/100 mil hab. vs. pardos com 16,1 e indígenas com 16; Agência Brasil / CGEE — Brasil duplicou mestres em 25 anos mas persiste desigualdade regional e de gênero; remuneração de mestras 26,7% menor que mestres; ABRUC — Participação de mestres e doutores na indústria de transformação estagnada em 1,6% (jul/2024).