Dois Lados da Mesma Moeda
PT e PL se chamam de adversários nos palanques. No Congresso votam juntos, no caso Master se cruzam, e nos quatro anos de Lula mantiveram o teto fiscal, o orçamento secreto e a estrutura que beneficia os mesmos de sempre. Os dois lados estão no mesmo time — e o time não é o nosso.
Iris de Oliveira · 15 de mai. de 2026
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, aparece ligado a três produções cinematográficas sobre os três presidentes que dominaram a política brasileira na última década. Uma sobre Jair Bolsonaro — documentada com áudios, comprovantes bancários e seis transferências que somam US$ 10,6 milhões. Uma sobre Lula — o documentário de Oliver Stone lançado em 2024, mencionado por reportagens que apuram o ecossistema do banqueiro. Uma sobre Michel Temer — também citada por essas reportagens. O mesmo banqueiro. Os três presidentes — que, em palanque, se odeiam — atravessados pelo mesmo nome.
Vorcaro está preso desde novembro de 2025, capturado quando tentava deixar o país. O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central. A Polícia Federal o investiga por fraude bilionária, lavagem de dinheiro e corrupção na Operação Compliance Zero. Ex-ministros de Lula prestaram consultoria ao banco — Guido Mantega recebia R$ 1 milhão por mês, Ricardo Lewandowski também consultou antes de assumir a Justiça. Do outro lado, Flávio Bolsonaro pediu pessoalmente US$ 24 milhões a Vorcaro para financiar a cinebiografia do pai. Recebeu US$ 10,6 milhões em seis parcelas entre fevereiro e maio de 2025 — operação intermediada pelo irmão Eduardo Bolsonaro e pelo deputado Mario Frias.
A pergunta que o brasileiro deveria estar fazendo não é qual lado é mais corrupto. É como o mesmo homem entrou nos dois lados — e por que isso, no fim, não surpreende ninguém.
Bolsonarismo e lulismo não são adversários. São o mesmo sistema operando em duas frequências. Um vende moralismo conservador. O outro vende justiça social. Os dois protegem o mesmo Congresso, dependem dos mesmos centrões e produzem os mesmos vencedores no fim do mês.
No Congresso, eles votam juntos
Em fevereiro de 2025, dezessete partidos formaram um único bloco para eleger Hugo Motta presidente da Câmara dos Deputados. PT e PL — supostos extremos opostos — assinaram o mesmo acordo. Lula apoiou Motta para ter respaldo às pautas governistas. Bolsonaro apoiou Motta esperando que ele paute a anistia do 8 de janeiro. Adversários na campanha, sócios na mesa de negociação.
Os dados de votações nominais da Câmara em 2023 e 2024 mostram o mesmo padrão. Embora o PL tenha índice de governismo declarado de apenas 30%, partidos de oposição — PP, PL e Republicanos — entregaram em média 34% dos votos a favor das pautas mais importantes do governo Lula. A reforma tributária, considerada estrutural, só passou porque a oposição votou junto. A nova lei do Imposto de Renda que isenta quem ganha até R$ 5 mil, sancionada em novembro de 2025, foi aprovada por unanimidade em Câmara e Senado. Inclusive pelo PL.
Nas eleições municipais de 2024, PT e PL elegeram juntos quarenta e nove prefeitos no primeiro turno em coligações locais — treze deles só no Maranhão. Aprigio, em Taboão da Serra, disputou o segundo turno tendo os dois partidos na mesma coligação. Os diretórios nacionais protestaram. Os diretórios locais fecharam o acordo assim mesmo. Porque na ponta, onde o orçamento é dividido, os dois lados sabem que precisam um do outro.
Trinta e quatro por cento.
Esse é o tamanho da contribuição que o PL, partido do Bolsonaro, deu para aprovar as reformas estruturais de Lula. Não foi sabotagem. Foi sociedade. O Brasil tem dois blocos políticos que se atacam na televisão e se entendem nas comissões.
O que Lula manteve do que Bolsonaro fez
Em 2023, na primeira semana de governo, Lula prometeu revogar o Teto de Gastos do Temer e Bolsonaro. Não revogou. Substituiu pelo Novo Arcabouço Fiscal, que mantém a despesa pública vinculada à receita — exatamente a lógica de contenção que Lula atacou na campanha. Em 2025, Haddad rebaixou a meta de inflação de 3,25% para 3% e a tornou contínua. Em 2024, ainda assim, a dívida pública saltou para 77,5% do PIB. As projeções indicam que chegará a 82,4% no fim de 2026.
A autonomia do Banco Central, aprovada no governo Bolsonaro em 2021 como uma das principais bandeiras de Paulo Guedes, foi mantida integralmente. Lula nomeou o presidente sucessor de Roberto Campos Neto e disse publicamente, em cerimônia: "você será o presidente com mais autonomia que o Banco Central já teve". A Selic, que Lula atacava como bolsonarista quando estava em 13,75%, subiu para 14,5% sob sua própria gestão — uma das maiores taxas reais do mundo.
O orçamento secreto, criado pelo governo Bolsonaro em 2020 como mecanismo para comprar apoio do centrão, foi declarado inconstitucional pelo STF em 2022. O Congresso recriou o mecanismo sob outros nomes — emendas de comissão e emendas Pix — e o governo Lula manteve o sistema funcionando. Em 2024, eram R$ 24,8 bilhões em emendas sem transparência. Em 2025, o pagamento total de emendas parlamentares atingiu R$ 31,6 bilhões — recorde histórico, batido pelo mesmo presidente que chamou o orçamento secreto de "esgoto da política".
Cada parlamentar controla hoje, em média, R$ 82 milhões por ano — caixa maior que o de muitas prefeituras médias do Brasil. O sistema que Lula prometeu desmontar ele acabou alimentando, porque o sistema é o que mantém o presidente — qualquer presidente — viável no Congresso.
O orçamento secreto nasceu no governo Bolsonaro e ficou maior no governo Lula. Não é falha de ideologia. É o jeito que o presidencialismo brasileiro encontrou de funcionar — e os dois lados, quando chegam ao poder, fazem exatamente a mesma coisa.
O caso Master: a foto da convergência
O Banco Master é a evidência mais clara de que bolsonarismo e lulismo, quando encontram a oportunidade, operam juntos. Daniel Vorcaro construiu seu império financeiro usando portas que se abriram nos dois lados do espectro. Em 2018, segundo apuração da Piauí e do Intercept Brasil, comprou a EBAL — estatal falida do governo da Bahia, dona da rede Cesta do Povo. No período seguinte, a gestão do então governador petista Rui Costa, hoje ministro da Casa Civil de Lula, estruturou um programa de crédito consignado para servidores estaduais baseado no cartão da rede. Recebíveis públicos passaram a alimentar um banco que tinha 65 funcionários. O governo do estado nega vinculação entre as duas operações.
Em dezembro de 2024, Vorcaro foi recebido por Lula no Palácio do Planalto. Em 2025, contratou Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda de Lula, por R$ 1 milhão mensais. O objetivo era forçar a venda do Master ao BRB, o banco público do Distrito Federal — usar dinheiro público para absorver prejuízo privado. O ex-presidente Michel Temer, advogado constitucionalista, prestou serviços ao Master e recebeu R$ 10 milhões em honorários. Seu escritório foi contratado justamente para viabilizar a operação Master-BRB.
Do outro lado, Flávio Bolsonaro — pré-candidato à Presidência pelo PL em 2026 — negociou pessoalmente com Vorcaro o repasse de US$ 24 milhões para a produção de "Dark Horse", cinebiografia do pai. Os áudios divulgados pelo Intercept Brasil em 13 de maio de 2026 mostram Flávio chamando Vorcaro de "irmão" e cobrando as parcelas. Pelo menos US$ 10,6 milhões — R$ 61 milhões na cotação do período — foram efetivamente transferidos em seis operações entre fevereiro e maio de 2025, para um fundo nos Estados Unidos chamado Havengate Development Fund. O irmão Eduardo Bolsonaro e o deputado Mario Frias, do PL paulista, intermediaram. O cunhado de Vorcaro já havia doado R$ 3 milhões à campanha presidencial de Jair Bolsonaro em 2022.
Quando o esquema começou a desmoronar, o caso foi parar no STF sob a relatoria do ministro Dias Toffoli, que decretou sigilo sobre o inquérito. Reportagens da Folha de S.Paulo, do Estadão e do Metrópoles mostraram, ao longo de janeiro de 2026, que os irmãos do ministro — José Carlos e José Eugênio, por meio da empresa Maridt Participações — venderam em 2021 cotas do resort Tayayá, no Paraná, ao fundo Arllen, gerido pela Reag e ligado ao ecossistema do Master. O ministro não tem participação societária declarada no empreendimento. Mas o TRT-2 pagou ao menos R$ 454 mil em diárias de segurança para agentes deslocados a Ribeirão Claro entre 2022 e 2025 — registros que, segundo as mesmas reportagens, coincidem com as estadias frequentes de Toffoli no local. Os documentos oficiais não nomeiam o ministro. A coincidência geográfica é o que a imprensa apurou.
Três filmes. Três presidentes. Um banqueiro.
A coluna de Lauro Jardim, no O Globo, e reportagens do Intercept ao longo de 2025 e 2026 indicaram que Vorcaro mantinha relações com produções cinematográficas ligadas a Lula — o documentário dirigido por Oliver Stone, lançado em 2024 — e com o entorno político de Michel Temer. O ministro Sidônio Palmeira nega que Lula ou o governo federal tenham pedido ou recebido dinheiro do banqueiro. Temer afirma que recebeu honorários por trabalho técnico. Flávio reconhece o pedido, mas diz que foi patrocínio privado para projeto privado, sem ilegalidade. As três defesas seguem o mesmo roteiro. Os três lados pediram a instalação de uma CPI do Master no Senado — cada um esperando que o outro caia primeiro.
Quem ganha quando os dois lados governam
Em 2024, os 40% mais pobres do Brasil recebiam em média R$ 601 por mês. O 1% mais rico recebia R$ 21.767 — diferença de 36 vezes. Esses números não se moveram significativamente entre o governo Bolsonaro e o governo Lula. A estrutura tributária regressiva — onde o imposto está embutido no preço do arroz e do gás, pesando 32% da renda dos mais pobres e 21% da renda dos mais ricos — foi mantida pelos dois governos. A reforma tributária aprovada em 2023 e regulamentada em 2025 simplifica o sistema, mas a taxação elevada sobre consumo persiste. Os dois lados sabiam disso. Os dois lados aprovaram.
O Bolsa Família foi cortado pelo Bolsonaro, retomado pelo Lula, e segue como a maior política social do país. O Auxílio Brasil, criado por Bolsonaro em 2021, virou Bolsa Família em 2023 com poucas mudanças estruturais — basicamente o mesmo programa, com nome diferente, valor diferente e governo diferente. Mas o desenho fundamental é o mesmo. Inclusive a herança: 21 milhões de famílias hoje dependem do programa, que entrega em média R$ 672 por mês. Em 2024, R$ 3 bilhões transferidos via Pix de beneficiários do Bolsa Família foram parar em plataformas de apostas — bets que foram legalizadas no governo Temer, ignoradas por Bolsonaro, e só foram efetivamente regulamentadas e taxadas no governo Lula. Tarde demais para o jovem pai que não está mais aqui.
Em Costa Marques, em Cacoal, em Cuiabá, em Maués, em Tabatinga — o brasileiro que acorda às 4h para a fila do SUS não viu a diferença entre os dois governos. O salário mínimo continuou esmagado pela inflação no aluguel, na energia e na comida. O irmão da senhora da fila dos Correios — aquela que ganhava R$ 400 como babá — continuou com a luz cortada. A diferença entre os dois governos está nos discursos, na bandeira do palanque, no clube de assinatura ideológica. Não está na conta de luz que chegou em abril.
O sistema brasileiro foi construído de forma que poucos ganhem muito e muitos ganhem pouco. Os dois lados da política, quando governam, ajustam quem grita mais alto na televisão — mas não tocam na estrutura que produz os mesmos vencedores e os mesmos perdedores há quarenta anos. A polarização é o teatro. A continuidade é a peça.
A polarização que esconde a unanimidade
Há uma utilidade política na briga eterna entre lulismo e bolsonarismo. Enquanto o brasileiro decide se odeia mais o petista ou o bolsonarista, deixa de perguntar quem comprou a estatal, quem fez o decreto, quem aprovou a emenda, quem nomeou o ministro, quem foi recebido no Planalto, quem recebeu o cheque, quem pediu CPI por que motivo. A briga ocupa o espaço da pergunta.
Isso não significa que não existam diferenças reais entre os dois projetos. Existe uma diferença significativa em política externa — Lula reaproximou-se da China, dos BRICS e dos países africanos; Bolsonaro priorizou Estados Unidos e Israel. Existe uma diferença real em política ambiental — o desmatamento na Amazônia caiu com a saída de Bolsonaro. Existe uma diferença real em direitos humanos e em políticas para mulheres e minorias. Reconhecer a convergência onde ela existe não significa apagar as diferenças onde elas também existem. Mas é desonesto fingir que essas diferenças resolvem a estrutura que beneficia os mesmos.
O caso Master não é exceção. É retrato. Um banqueiro que financiou três presidentes, contratou ex-ministros de três governos, abriu portas em três instituições — e que só caiu quando o esquema ficou grande demais para ser escondido. Não foi a oposição que derrubou Vorcaro. Foi o tamanho da fraude. Se o banco tivesse continuado pagando em dia, os dois lados continuariam recebendo. E o brasileiro que mora de aluguel continuaria ouvindo que precisa escolher entre dois projetos opostos.
Há dois nomes para o mesmo sistema. Um se chama
bolsonarismo. O outro se chama lulismo. Os dois prometem combater o outro lado.
Os dois protegem o mesmo Congresso, dependem dos mesmos centrões, mantêm o
mesmo teto, pagam os mesmos lobistas, recebem cheques do mesmo banqueiro. A
polarização que o brasileiro vive em casa não é a mesma polarização que existe
em Brasília. Lá em cima, as moedas se misturam. Aqui embaixo, na fila dos Correios,
na conta de luz, no salário da babá, a moeda é a mesma de sempre — e quem está
sentado dos dois lados da mesa é quem decide quanto ela vale.
Fontes: Intercept Brasil — Áudios de Flávio Bolsonaro negociando US$ 24 milhões com Daniel Vorcaro para o filme "Dark Horse" (13/mai/2026); CNN Brasil, Estadão e Jornal de Brasília — confirmação independente da autenticidade dos áudios; O Globo / Lauro Jardim — Vorcaro teria mantido relações com produções cinematográficas ligadas a Lula e Temer; Folha de S. Paulo, Estadão e Metrópoles — irmãos de Toffoli (José Carlos e José Eugênio, via Maridt Participações) venderam cotas do resort Tayayá ao fundo Arllen, gerido pela Reag e ligado ao Master (2021); Brasil247, CNN Brasil e Folha de S. Paulo — TRT-2 pagou R$ 454 mil em diárias de segurança em Ribeirão Claro/PR entre 2022 e 2025; Operação Compliance Zero/PF — prisão de Vorcaro em nov/2025 e liquidação do Banco Master pelo BCB; Poder360 e Senado Federal — PT, PL e mais 15 partidos formam bloco único para eleger Hugo Motta presidente da Câmara (fev/2025); Congresso em Foco — Índice de Governismo da Câmara 2023-2024; USP/Pedro Assis — partidos de oposição (PP, PL, Republicanos) contribuíram com 34% dos votos a favor das pautas do governo Lula em 2023-2024; CNN Brasil — PT e PL elegeram juntos 49 prefeitos no 1º turno em 2024; Migalhas e CartaCapital — emendas Pix e de comissão como substitutas do orçamento secreto declarado inconstitucional pelo STF; Diário do Poder — governo Lula bateu recorde de pagamento de emendas em 2025 (R$ 31,6 bilhões); Agência Gov — Lei do IR isenta quem ganha até R$ 5 mil (sancionada em nov/2025, aprovada por unanimidade); IBGE/PNAD Contínua 2024 — distribuição de renda; Banco Central do Brasil — R$ 3 bilhões de beneficiários do Bolsa Família para bets em agosto de 2024.