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Iris de Oliveira
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POLÍTICA & SISTEMA FINANCEIRO

A República à Venda: Como Vorcaro Comprou um País

Iris de Oliveira · 13 de mar. de 2026

O celular de Daniel Vorcaro é um arquivo. Não de segredos pessoais — mas de um método. Cada mensagem extraída pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero revela não um acidente de percurso, não a corrupção improvisada de um empresário ambicioso, mas algo mais perturbador: um projeto sistemático, paciente e bem-sucedido de captura do Estado brasileiro. Executivo, Legislativo, Judiciário, Banco Central, Polícia Federal — nenhum poder ficou de fora. O que as mensagens mostram não é um banqueiro que corrompeu a República. É um banqueiro que a comprou, em parcelas, ao longo de anos.

Em 4 de março de 2026, a terceira fase da Operação Compliance Zero prendeu Vorcaro novamente e determinou o bloqueio de R$ 22 bilhões em ativos. O STF abriu inquérito para investigar o vazamento das informações. Um policial federal aposentado integrante da equipe de monitoramento de adversários do banqueiro foi identificado. Um dos operadores do esquema, Luiz Phillipi, morreu na prisão após tentativa de suicídio, levando consigo o que sabia. O escândalo já não comporta adjetivos convencionais.

Primeiro alvo: o regulador

Toda fraude financeira de grande escala precisa neutralizar quem fiscaliza. No caso Vorcaro, o alvo foi o Banco Central. Segundo a decisão do ministro André Mendonça, as investigações identificaram que Vorcaro mantinha interlocução frequente com Paulo Sérgio Neves de Souza, chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária do BC, e com Belline Santana, então chefe do mesmo departamento. Ambos discutiam temas regulatórios com o banqueiro, analisavam previamente documentos que seriam enviados à autarquia e orientavam estratégias de relacionamento com o órgão. Contratos simulados de consultoria foram usados para justificar os repasses financeiros a esses servidores.

O resultado dessa captura foi visível: as suspeitas sobre os rendimentos anormais dos fundos do Master chegaram à área técnica do Banco Central ainda em dezembro de 2023. Durante todo o primeiro semestre de 2024, o BC — presidido por Roberto Campos Netto — deixou passar operações manifestamente irregulares enquanto o banco acumulava uma crise de liquidez silenciosa. De um mínimo de R$ 15 bilhões necessários para garantir liquidez, o Master captou apenas R$ 2 bilhões. O barco seguia navegando com um regulador domesticado.

Segundo alvo: o Legislativo

Com o regulador neutralizado, era preciso construir proteção legislativa. Vorcaro construiu com meticulosidade. O senador Ciro Nogueira — chamado pelo banqueiro de "grande amigo" — apresentou uma PEC que ficou conhecida como "emenda Master": a proposta quadruplicava o valor de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, o que beneficiaria diretamente os investidores do banco. A PEC só não passou porque os grandes bancos comerciais, também com bancada no Congresso, a derrubaram na CCJ do Senado em agosto de 2024.

Os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, aparecem em relatos de encontros e jantares em residências oficiais. E-mails de uma empresa de aviação ligada a Vorcaro registraram o uso de jatinhos e helicópteros por parlamentares. O deputado Nikolas Ferreira utilizou aeronave da empresa Prime You, da qual Vorcaro era sócio, durante a campanha de 2022. Uma tentativa de ressuscitar a proteção legislativa ao Master foi feita em novembro de 2024 via PL apresentado pelo deputado Filipe de Barros — investigado no inquérito das Fake News —, também sem sucesso.

Terceiro alvo: o Judiciário — e a família de um ministro

O elo mais explosivo do esquema envolve o STF. As mensagens de Vorcaro com sua então namorada revelam encontros com o ministro Alexandre de Moraes. O cunhado do banqueiro, Fabiano Zettel — preso na segunda fase da operação —, era dono dos fundos de investimento que compraram parte da participação dos irmãos do ministro Dias Toffoli no resort Tayayá, por R$ 6,6 milhões. O elo entre o cunhado do banqueiro e a família do ministro que era relator do caso era direto e documentado.

A Polícia Federal solicitou formalmente a suspeição de Toffoli na relatoria do processo ao presidente do STF, Edson Fachin, com base em relatório de 200 páginas. Toffoli classificou o pedido como "ilações" e questionou a legitimidade da PF para tanto. O escritório de advocacia da família do ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski foi contratado pelo Banco Master pouco antes de ele assumir o cargo no governo — contrato que rendeu milhões à banca e do qual Lewandowski se retirou ao aceitar a indicação ministerial. Vorcaro também se gabou, em mensagens, de levar ministros para Londres.

Quarto alvo: o Executivo — do governador ao presidente

A infiltração no Executivo federal tem como personagem central Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda de Lula e Dilma. Mantega teria atuado como consultor do Banco Master com remuneração mensal de cerca de R$ 1 milhão — estimando-se que recebeu ao menos R$ 11 milhões no total. Sua função incluía tentar viabilizar a venda do Master ao Banco de Brasília (BRB). Mantega nega irregularidades e afirma que sua atuação foi estritamente técnica.

Em dezembro de 2024, uma reunião fora da agenda oficial colocou o Planalto no centro do escândalo: Vorcaro descreveu o encontro com Lula como "ótimo" e "muito forte", mencionando que o então futuro presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, foi chamado a participar. Lula confirmou o encontro, afirmando que foi organizado por Mantega e que orientou o banqueiro a procurar o Banco Central. O ministro da Casa Civil, Rui Costa, também é apontado como elo desde seu mandato como governador da Bahia, quando foi criado o Credcesta, gerido por banco associado a Vorcaro.

No Distrito Federal, o alvo era o BRB — banco público do governo local. O governador Ibaneis Rocha, candidato ao Senado em 2026, confirmou ter conversado com Vorcaro sobre a venda do Master. Em julho de 2024, o BRB começou a comprar carteiras de crédito inexistentes do banco — operações que chegaram a R$ 12,2 bilhões, segundo estimativa da PF. O BRB pode precisar constituir até R$ 5 bilhões em provisões para cobrir perdas.

Quinto alvo: os próprios investigadores

O elemento mais perturbador do esquema talvez seja este: Vorcaro teria tido acesso a informações sigilosas sobre investigações que corriam contra ele. A Operação Compliance Zero identificou um núcleo específico de intimidação e obstrução de Justiça — responsável por monitorar adversários, jornalistas e autoridades. Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado, foi investigado por participar desse grupo, batizado internamente de "A Turma".

A PF identificou ainda que Vorcaro financiou uma rede de sites para atacar jornalistas que cobriam o caso — em prática que investigadores descreveram como idêntica aos métodos de grupos de desinformação bolsonaristas. A morte de Luiz Phillipi, operador do esquema que tentou se enforcar na prisão e veio a falecer em 6 de março de 2026, eliminou uma das principais fontes de potencial delação.

                    Mapa da Infiltração — Vorcaro e os Poderes da República

Poder / Órgão

Conexão identificada

Banco Central

Servidores de supervisão bancária prestavam consultoria informal ao banco; contratos simulados identificados pela PF

STF

Cunhado de Vorcaro comprou resort da família Toffoli por R$ 6,6 mi; mensagens citam encontro com Alexandre de Moraes

Min. da Justiça

Escritório da família Lewandowski contratado pelo Master antes de ele assumir o ministério; contrato rendeu milhões

Senado Federal

Senador Ciro Nogueira apresentou 'emenda Master'; Alcolumbre aparece em jantares com o banqueiro

Câmara dos Deputados

Parlamentares usaram aeronaves de empresa de Vorcaro; PL apresentado para ampliar cobertura do FGC

Governo Federal

Guido Mantega recebeu ~R$ 11 mi como consultor; reunião com Lula descrita como 'ótima e muito forte'

Governo do DF / BRB

Ibaneis confirma conversa sobre venda do Master ao BRB; banco público comprou R$ 12,2 bi em carteiras fictícias

Polícia Federal

PF aposentado identificado no núcleo de monitoramento de adversários; Vorcaro teria acesso a investigações sigilosas

Campanha eleitoral

Cunhado de Vorcaro doou R$ 3 mi a Bolsonaro e R$ 2 mi a Tarcísio de Freitas em 2022

 

O método: não foi improviso, foi arquitetura

O que torna o caso Vorcaro diferente dos escândalos anteriores não é a corrupção em si — o Brasil conhece bem esse fenômeno. É a escala, a simultaneidade e a racionalidade do projeto. A Operação Compliance Zero identificou quatro núcleos operacionais distintos: um financeiro, responsável pela estruturação das fraudes; um de corrupção institucional, voltado à cooptação de servidores; um de lavagem de dinheiro, com empresas interpostas; e um de intimidação e obstrução, responsável por monitorar adversários, jornalistas e autoridades.

Não é a anatomia de um criminoso comum. É a anatomia de um Estado dentro do Estado — com divisão de tarefas, hierarquia, financiamento e estratégia de longo prazo. O cientista político José Cortez, ouvido pelo Brasil de Fato, resumiu com precisão: "São vários pedaços de um caso que deixou de ser simplesmente um caso. Passou a ser uma estrutura do Estado, uma maneira como os interesses chegam à estrutura do Estado, como são perturbados."

Conclusão: o celular como espelho da República

A frase registrada num jantar em residência oficial em 5 de dezembro de 2024 sintetiza o projeto: "Ficou acertado que vamos dividir responsabilidades: eu cuido da parte técnica e financeira, eles garantem cobertura política e judicial." Não é mais suspeita. É confissão.

O celular de Daniel Vorcaro é um espelho. E o que ele reflete não é apenas a face de um banqueiro criminoso — é a face de uma República que se deixou comprar em parcelas, poder por poder, agente por agente, jantar por jantar. A pergunta que o Brasil precisa responder agora não é apenas quem será preso ou julgado. É como um projeto desta magnitude atravessou tantos filtros, tantas instâncias, tantos juramentos de cargo, sem que ninguém — em nenhum poder — tenha dito não.

Se a resposta for o silêncio, o próximo Vorcaro já estará comprando o próximo poder.

Fontes: Agência Pública – "Banco Master: a reconstrução completa de como uma fraude capturou a República" (mar/2026) e "A bancada do Master é de direita" (jan/2026); Poder360 – "Conteúdo de celular de Vorcaro redesenha caso Master e conecta políticos" (mar/2026); Gazeta do Povo – "Políticos na teia de Vorcaro: entenda o escândalo do Master" (mar/2026); O Antagonista – "PF aponta influência sobre servidores do Banco Central em investigação de Vorcaro" (4/mar/2026); Brasil de Fato – "Caso Vorcaro expõe conexões políticas do Banco Master" (mar/2026) e "Investigação sobre Vorcaro sugere tráfico de influência envolvendo os três Poderes" (mar/2026); Correio Braziliense / Coluna Azedo – "Antes de tudo, escândalo do Banco Master é um caso de polícia" (jan/2026); Jornal Repórter Capixaba – análise sobre liquidação e operações do Master (mar/2026); Decisão do ministro André Mendonça (STF) na Operação Compliance Zero, 3ª fase (4/mar/2026). Artigo de opinião com base em dados e fatos públicos verificados.