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COLUNA | POLÍTICA & INSTITUIÇÕES

O Rio Não Tem um Problema de Corrupção. Tem um Sistema

Em 30 anos, todos os governadores eleitos do Rio de Janeiro foram presos, cassados ou declarados inelegíveis. Não é azar. É estrutura.

Iris de Oliveira · 11 de mai. de 2026
O Rio Não Tem um Problema de Corrupção. Tem um Sistema

Em 30 anos de democracia no Rio de Janeiro, todos os governadores eleitos terminaram o mandato — ou a vida política — com processo, prisão, cassação ou inelegibilidade. Todos. Sem exceção. Partidos diferentes, épocas diferentes, discursos diferentes. O mesmo destino.

Anthony Garotinho: preso. Rosinha Garotinho: presa. Sérgio Cabral: preso, condenado em 23 processos, com penas somadas superiores a 400 anos. Luiz Fernando Pezão: preso enquanto ainda exercia o mandato. Wilson Witzel: sofreu impeachment. Cláudio Castro: renunciou um dia antes de o TSE declará-lo inelegível por oito anos.

Cem por cento dos governadores eleitos do Rio desde a redemocratização.

Quando um fenômeno atinge 100% dos casos ao longo de três décadas, atravessa partidos, classes sociais e gerações, ele deixa de ser problema de pessoa. Vira problema de sistema. E sistemas não se resolvem com prisão de indivíduo — porque o sistema sobrevive ao indivíduo.

Da cadeira do governador à toga do desembargador

A corrupção fluminense não fica no Palácio Guanabara. Ela permeia cada camada do poder do estado — e os casos mais recentes mostram que chegou até o Judiciário, que deveria ser o fiscal dos demais.

Em setembro de 2025, a Operação Unha e Carne prendeu o ex-deputado estadual TH Joias — acusado de ser aliado do Comando Vermelho dentro da Assembleia Legislativa. As investigações revelaram que ele havia sido alertado sobre a operação com antecedência, destruiu provas, trocou de celular e esvaziou o gabinete na véspera das buscas. Quem o teria alertado, segundo a Polícia Federal: o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar.

Bacellar foi preso em novembro de 2025, teve a prisão revogada pela própria Alerj em dezembro — numa votação que levantou questões sobre a independência da Casa para julgar seus próprios membros — e foi preso novamente em março de 2026 por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do STF, após ter o mandato cassado pelo TSE por abuso de poder político e econômico. Em quatro presidentes da Alerj nas últimas duas décadas, dois foram presos enquanto ainda ocupavam o cargo.

O desembargador Macário Ramos Júdice Neto, do TRF-2, foi preso em dezembro de 2025 por suspeita de ter vazado informações sigilosas sobre a Operação Zargun — investigação cujo alvo era justamente TH Joias. Era ele o relator do processo. As mensagens encontradas no celular de Bacellar mostram que os dois se tratavam como "irmãos" e que se encontraram num jantar a noite anterior à operação contra o deputado.

Quando o relator de uma investigação é suspeito de ter vazado seu conteúdo para o investigado, o sistema de justiça não está falhando em alguns pontos. Está comprometido em sua própria estrutura de controle.

O guardião que precisava ser guardado

O desembargador Cairo Ítalo França Davi, do TJRJ, foi afastado do cargo por suspeita de tomar decisões que beneficiavam membros de facções criminosas — incluindo transferências de presos para unidades onde tinham mais poder dentro do sistema prisional. A decisão sobre onde um detento preso por tráfico cumpre pena não é detalhe administrativo. Define se ele mantém ou perde o controle sobre sua organização enquanto está na cadeia.

O desembargador Guaraci de Campos Vianna, também do TJRJ, foi afastado pelo Conselho Nacional de Justiça em março de 2026. A suspeita: decisões que beneficiavam a Refinaria de Manguinhos, empresa investigada no âmbito da chamada "máfia dos combustíveis" — esquema de adulteração e sonegação que movimentou bilhões ao longo de anos no estado.

Dois desembargadores afastados. Um preso. Todos em menos de seis meses. Isso não é crise no Judiciário fluminense — é a documentação de um problema que provavelmente existe há muito mais tempo do que as operações recentes conseguiram revelar.

O Judiciário existe para ser o árbitro final entre o poder e o cidadão. Quando parte dos árbitros está comprometida com os mesmos interesses que deveria julgar, o cidadão perde o último recurso que tem. E não há operação policial que resolva isso sozinha — porque a operação também passa pelo Judiciário.

Por que o sistema sobrevive a cada escândalo

A sequência de prisões no Rio de Janeiro pode criar a impressão de que o problema está sendo resolvido. Cada operação policial, cada condenação, cada afastamento parece um passo na direção certa. E é — individualmente. O problema é que o sistema que produziu Sérgio Cabral também produziu Pezão, também produziu Witzel, também produziu Castro, também produziu Bacellar. As pessoas mudam. A estrutura permanece.

O cientista político Leandro Molhano, da FGV-RJ, aponta o fenômeno com precisão: o Rio de Janeiro desenvolveu, ao longo de décadas, uma cultura política onde o cargo público é tratado como ativo privado. Não como serviço — como negócio. A lógica não é "vou governar bem para ser reeleito", mas "vou extrair o máximo possível enquanto estou no poder". Quando essa cultura está instalada nas instituições, ela se transmite de um ocupante para o próximo independentemente das operações policiais.

A Missão Redentor II, força-tarefa da Polícia Federal criada por determinação do STF a partir da ADPF das Favelas, tem como missão específica mapear a infiltração de facções criminosas e milícias no poder público fluminense. Que isso exija uma força-tarefa permanente, com base num mandato judicial extraordinário, diz tudo sobre o grau de comprometimento institucional que as investigações encontraram.

Quem paga a conta de um sistema que não serve a ninguém

O Rio de Janeiro é o segundo estado mais populoso do Brasil, com 17 milhões de habitantes. Tem uma das maiores economias do país, o maior cluster de petróleo do hemisfério sul, uma das mais ricas histórias culturais do mundo e uma infraestrutura natural sem paralelo. É também o estado com uma das piores taxas de homicídio do país, com um sistema educacional em crise crônica, com hospitais públicos onde faltam insumos básicos e com uma dívida pública que chegou a R$ 170 bilhões.

Essas duas realidades — a riqueza potencial e a precariedade real — não são contraditórias. São causalmente relacionadas. Décadas de desvio de recursos públicos, de contratos superfaturados, de decisões judiciais compradas e de orçamentos capturados por grupos criminosos produziram um estado que tem tudo para ser próspero e uma população que vive muito abaixo do que esses recursos permitiriam.

O morador da Baixada Fluminense que espera atendimento num hospital sem medicamento, a criança da periferia que estuda numa escola sem professor concursado, o comerciante que paga para a milícia o que deveria ser taxa para o Estado — todos eles pagam o custo de um sistema que consumiu, durante décadas, o dinheiro que deveria chegar até eles.

O que as operações resolvem — e o que elas não resolvem

As operações policiais recentes são importantes. A prisão de governadores corruptos, de deputados aliados de facções e de desembargadores que venderam decisões é necessária e representa um avanço real no combate à impunidade. O Brasil de 2026 é mais capaz de prender poderosos do que o Brasil de 2006 — e isso não é pouco.

O que as operações não resolvem sozinhas é a cultura que produziu os casos investigados. Para isso, seriam necessárias reformas estruturais que o debate político raramente consegue sustentar por tempo suficiente: controle externo efetivo dos Tribunais de Justiça estaduais, transparência real nos processos de nomeação de magistrados, fortalecimento dos mecanismos de controle interno das assembleias legislativas e uma política de integridade que chegue antes da operação policial, não depois.

O professor Gustavo Sampaio, da UFF, foi direto ao ponto ao analisar o caso fluminense: "É fundamental que o eleitor tenha consciência na hora de escolher tanto o Poder Legislativo quanto o Executivo." É verdade — e é insuficiente. Consciência eleitoral importa, mas não substitui instituições de controle que funcionem independentemente do perfil de quem foi eleito.

O que a maldição do Palácio Guanabara realmente é

A imprensa chama de "maldição do Palácio Guanabara" a sequência de governadores que terminaram presos ou cassados. É uma metáfora conveniente — e enganosa. Maldição sugere força sobrenatural, azar, coincidência inexplicável. O que os dados mostram é diferente: padrão repetido, estrutura identificável, incentivos que se mantêm independentemente de quem ocupa o cargo.

Não é maldição. É sistema. E sistemas não se combatem com cerimônias de inauguração nem com discursos de posse. Combatem-se com instituições de controle que funcionem, com transparência que chegue antes do escândalo e com mecanismos que tornem a corrupção mais difícil de praticar — não apenas mais fácil de punir depois que o dinheiro já sumiu.

O Rio de Janeiro tem 17 milhões de pessoas que merecem um estado que funcione. Não um estado que produz um novo escândalo a cada ciclo eleitoral e uma nova operação a cada mandato. A sequência de prisões mostra que o Brasil está ficando melhor em punir. O desafio que fica — e que nenhuma operação policial vai resolver sozinha — é construir as condições para que punir seja cada vez menos necessário.


 Fonte: ND Mais / Vale do Piancó Notícias — Em 30 anos, todos os governadores eleitos do RJ foram presos, cassados ou inelegíveis; Cláudio Castro renuncia e TSE o declara inelegível por 8 anos (mar/2026); Poder360 — 6 governadores presos ou afastados; Sérgio Cabral condenado em 23 processos, penas acima de 400 anos (ago/2020, atualizado); Terra / Noticias-do-Brasil — Bacellar preso novamente em mar/2026; Operação Unha e Carne: TH Joias preso set/2025, Macário Júdice preso dez/2025; mensagens de celular mostram jantar de Bacellar com desembargador véspera da operação; Lex Editora / STF — Ministro Alexandre de Moraes decreta prisão preventiva de Bacellar (PET 14969); Missão Redentor II criada por determinação do STF via ADPF das Favelas para mapear infiltração de facções no poder público fluminense (mar/2026); Dados dos desembargadores: Cairo Ítalo França Davi (TJRJ) afastado por decisões que beneficiavam facções; Guaraci de Campos Vianna (TJRJ) afastado pelo CNJ em mar/2026 por decisões ligadas à "máfia dos combustícios" / Refinaria de Manguinhos; Macário Ramos Júdice Neto (TRF-2) preso dez/2025 por vazamento de informações da Operação Zargun; Gustavo Sampaio, prof. de Direito Constitucional da UFF, citado em Vale do Piancó Notícias (mai/2026).

Iris de Oliveira é analista de políticas públicas e escreve sobre poder, instituições e gestão do Estado.