quarta-feira, 27 de maio de 2026 ← Inicio
Iris de Oliveira
← Voltar aos artigos
COLUNA | ECONOMIA & GEOPOLÍTICA

A China Não Invadiu o Brasil. Foi Convidada

BYD lidera o varejo em abril. TikTok constrói data center no Ceará. Mais de 200 empresas chinesas dominam energia, infraestrutura e tecnologia. Ninguém mandou um exército — mas o resultado é o mesmo.

Iris de Oliveira · 10 de mai. de 2026
A China Não Invadiu o Brasil.  Foi Convidada

Em abril de 2026, pela primeira vez na história do mercado automotivo brasileiro, a marca mais vendida no varejo não era Fiat, nem Volkswagen, nem GM. Era a BYD — uma empresa chinesa fundada em 1995 para fabricar baterias. Em quatro anos de presença efetiva no Brasil, saiu de 260 carros vendidos em 2022 para 14.911 unidades no varejo em um único mês.

Enquanto isso, o TikTok — propriedade da empresa chinesa ByteDance — está construindo um mega data center no Complexo do Pecém, no Ceará, com consumo de energia de 300 megawatts. Para ter dimensão: é equivalente ao consumo de uma cidade inteira. O governo chinês entrou como sócio do projeto. A estrutura será conectada a redes de transmissão dedicadas, com capacidade para escalar até 1 gigawatt nos próximos anos.

Nenhum soldado cruzou a fronteira. Nenhum navio de guerra entrou pelo porto.

Mas quando uma potência estrangeira controla parte da sua energia elétrica, domina o aplicativo onde sua população passa mais de três horas por dia, vende os carros mais baratos nas suas ruas e financia a infraestrutura que o seu governo não construiu — a palavra "invasão" começa a fazer sentido, mesmo sem nenhuma arma.

De zero a líder em quatro anos

A trajetória da BYD no Brasil é o estudo de caso mais revelador da expansão chinesa no país. Chegou discretamente em 2015 com ônibus elétricos. Em 2022, vendeu 260 carros de passeio. Em 2023, 17.900. Em 2024, 76.700. Em 2025, 112.900 — suficiente para entrar no Top 10 das marcas mais vendidas do país. Em abril de 2026, liderou o varejo, superando a Volkswagen por apenas 100 unidades.

O motor desse crescimento tem um nome: BYD Dolphin Mini, elétrico compacto com preço inicial de R$ 118.800 que liderou as vendas no varejo pelo terceiro mês consecutivo em abril, com 5.900 unidades. O produto combina preço agressivo, tecnologia de bateria própria — a BYD é uma das maiores fabricantes de baterias do mundo — e uma rede de 180 concessionárias que dobrou em dois anos.

As montadoras tradicionais estão preocupadas — e com razão. A Anfavea alertou o governo para impactos potenciais de R$ 103 bilhões na cadeia de autopeças e R$ 26 bilhões na arrecadação se as importações chinesas continuarem sem barreiras. A meta da própria BYD é ser a marca número um do Brasil até 2030 — em todos os canais, não só no varejo.

A BYD não conquistou o mercado brasileiro com propaganda. Conquistou com produto mais barato, tecnologia mais moderna e estratégia mais paciente do que qualquer concorrente europeu ou americano estava disposto a executar. O Brasil não foi tomado — escolheu o carro que cabia no orçamento.

A infraestrutura que o Brasil não vê

Os carros são visíveis. O resto é invisível — e mais preocupante.

A State Grid, estatal chinesa de energia, controla parte significativa da transmissão elétrica brasileira. A CTG — China Three Gorges — opera usinas hidrelétricas no Brasil. A SPIC tem presença no setor de energia renovável. Três estatais do governo chinês no coração da matriz energética brasileira.

No total, mais de 200 empresas chinesas operam no Brasil, com intenções de investimento que podem alcançar R$ 200 bilhões adicionais até 2030. O Brasil é o terceiro maior destino de investimento direto da China no mundo, com mais de US$ 4,2 bilhões aplicados em 2024 — alta de 100% sobre o ano anterior.

A tela onde o Brasil passou 3 horas e meia

O TikTok é o aplicativo mais baixado e mais usado do Brasil. O brasileiro passa, em média, 9 horas e 13 minutos por dia conectado à internet — o segundo maior do mundo. Desse tempo, uma fatia crescente vai para o TikTok, plataforma cujo algoritmo define o que 150 milhões de brasileiros veem, ouvem e consomem em termos de informação, entretenimento e publicidade.

O data center que a ByteDance está construindo no Ceará não é só infraestrutura tecnológica. É soberania de dados. Cada vídeo assistido, cada busca feita, cada interação registrada no TikTok por usuários brasileiros vai transitar por essa estrutura — operada por uma empresa sujeita às leis de segurança de dados da China, que autoriza o governo a requisitar acesso a informações de empresas nacionais quando julgar necessário.

Shopee, Shein, Temu, AliExpress, 99, Didi, Meituan — o ecossistema digital e de consumo brasileiro está sendo sistematicamente ocupado por plataformas chinesas. Cada uma delas, individualmente, oferece produto mais barato ou serviço mais eficiente. No conjunto, representam uma dependência digital que o Brasil está construindo sem debater.

Shopee, Shein, Temu, AliExpress, 99, Didi — o ecossistema digital brasileiro está sendo ocupado por plataformas chinesas. Individualmente, cada uma oferece produto mais barato. No conjunto, representam uma dependência que o Brasil está construindo sem debater.

A pergunta que o Brasil precisa fazer — e não está fazendo

Nenhum desses movimentos é ilegal. A China está fazendo o que qualquer potência econômica faz quando enxerga mercado aberto: entra, investe, compete e consolida presença. O problema não é a China. É a ausência de estratégia brasileira para responder a essa presença.

Enquanto a BYD planejava por cinco anos a entrada no mercado brasileiro, o país debatia se devia cobrar imposto de importação de carros elétricos. Enquanto a ByteDance construía o maior data center da América Latina, o Brasil ainda não tinha uma política nacional de soberania de dados aprovada. Enquanto empresas chinesas compravam ativos de energia, o governo vendia sem exigir reciprocidade industrial.

A pergunta que o Brasil não está fazendo é simples: em troca de todo esse investimento, o que o país está recebendo além de produto barato e infraestrutura financiada? Transferência de tecnologia? Geração de empregos qualificados? Controle sobre setores estratégicos?

O convite que o Brasil não percebeu que fez

A China não invadiu o Brasil. O Brasil abriu a porta — com política industrial fraca, com infraestrutura que não construiu, com mercado de crédito caro demais para as empresas nacionais competirem em preço, com ausência de estratégia para setores digitais.

Isso não significa que a presença chinesa seja necessariamente ruim. Investimento em energia renovável, carros elétricos mais acessíveis, infraestrutura logística — essas coisas têm valor real para o Brasil. O problema é quando o país depende do capital estrangeiro para fazer o que deveria ser decisão soberana — e quando essa dependência se concentra numa única potência com interesses geopolíticos próprios.

Nenhum país que depende de outro para gerar sua energia, processar seus dados e transportar sua população é verdadeiramente soberano. O Brasil está, silenciosamente, construindo essa dependência — um data center, uma transmissora de energia e um carro elétrico de cada vez. Não foi uma invasão. Foi uma escolha. E escolhas têm consequências.

 

 

Fonte:Jornal Cruzeiro / BRICS Brasil — BYD lidera vendas no varejo em abril de 2026: 14.911 unidades; Dolphin Mini 5.900 unidades; crescimento 73,6% no 1º tri 2026 (mai/2026); BRICS Brasil — BYD: 260 carros em 2022 → 112.900 em 2025; meta nº 1 até 2030 (mai/2026); CNN Brasil — Anfavea: impacto R$ 103 bi autopeças e R$ 26 bi arrecadação com importações chinesas; Click Petróleo e Gás — Data center TikTok/ByteDance no Pecém (CE): 300 MW, fundo chinês como sócio, R$ 11 bi, início jan-fev/2026; CCDIBC — 200+ empresas chinesas; R$ 200 bi até 2030; State Grid, CTG, CCCC no Brasil (out/2025); We Are Social 2025 — 9h13/dia na internet; China — Lei de Inteligência Nacional (2017); CCDIBC — Brasil 3º maior destino de IED da China; US$ 4,2 bi em 2024 (+100%).