Água e Óleo: Quando a Fé Governa e o Poder Ora
Ter fé é um direito. Usar a fé para governar — ou usar o governo para proteger a fé que te elege — é outra coisa. E essa diferença importa mais do que parece.
Iris de Oliveira · 09 de mai. de 2026
Existe uma cena que se repete no Brasil com tanta frequência que deixou de parecer estranha. Um candidato sobe ao altar, recebe a bênção do pastor, ouve o pastor dizer ao rebanho para quem votar — e vence a eleição. Depois, já eleito, vota pela ampliação da isenção fiscal da mesma igreja. O pastor agradece. O fiel não sabe bem onde termina o sermão e onde começa a campanha.
Essa cena não é ilegal. É, em muitos casos, eficaz. E é exatamente o problema.
Fé é uma coisa. Poder é outra. Quando as duas se misturam, nenhuma das duas sai melhor.
Tenho enorme respeito pela fé de cada pessoa. Cresci num país onde a religião é parte da cultura, da família, da identidade. Não é sobre isso que estou escrevendo. Estou escrevendo sobre o que acontece quando a instituição religiosa e a instituição política decidem que têm interesses em comum — e que servir a uma é servir à outra.
O tamanho da mistura
A Frente Parlamentar Evangélica tem hoje 219 deputados federais e 26 senadores. Para ter dimensão: toda a esquerda na Câmara somada não chega a esse número. É o maior grupo organizado do Congresso Nacional — maior que qualquer partido, maior que qualquer coalizão ideológica.
Desses 219 deputados, 112 são membros declarados de igrejas evangélicas. Os demais assinaram a frente por afinidade de pauta ou conveniência política — porque numa bancada dessa dimensão, estar dentro é mais útil do que estar fora. A primeira eleição para presidência da frente aconteceu em 2025 — 22 anos depois da sua fundação. Antes disso, o presidente era escolhido por aclamação. Sem voto. Num grupo que legisla sobre direitos de 215 milhões de pessoas.
A Igreja Universal do Reino de Deus consolidou sua presença política de forma ainda mais direta: criou um partido próprio, o Republicanos, que hoje preside a Câmara dos Deputados. O cientista político Leonardo Barreto, da UnB, analisa que foi uma das estratégias mais sofisticadas do campo religioso na política brasileira — abrindo o partido para não evangélicos enquanto mantinha o controle institucional.
O que a Constituição diz — e o que a prática ignora
O Brasil é um Estado laico desde a Proclamação da República, em 1889. A Constituição de 1988 reafirma essa laicidade: nenhuma religião é oficial, o Estado não subvenciona cultos ou igrejas, e a liberdade religiosa é garantida a todos os cidadãos. Isso significa que qualquer brasileiro pode professar qualquer fé — ou nenhuma — sem interferência do Estado.
Estado laico não significa Estado ateu. Não significa que pessoas religiosas não possam ocupar cargos públicos. Significa que as decisões do Estado devem ser tomadas com base em argumentos que qualquer cidadão possa compreender e contestar — independentemente de sua fé. Uma lei aprovada porque "Deus assim determina" não passa nesse teste. Uma lei aprovada porque há evidência de que produz bem-estar coletivo, passa.
A distinção parece simples. Na prática, a linha é frequentemente cruzada. Quando um parlamentar vota contra um projeto de lei de saúde reprodutiva porque a sua denominação proíbe, ele não está representando seus eleitores — está representando sua igreja. Parte dos seus eleitores pode ter outra fé, ou nenhuma. Eles não foram ouvidos.
Num Estado laico, o mandato pertence ao eleitor — todos os eleitores, de todas as crenças e de nenhuma crença. Quando o mandato é exercido em nome de uma doutrina religiosa específica, os demais eleitores deixam de ser representados. Não é perseguição religiosa dizer isso. É aritmética democrática.
A isenção que ninguém questiona — e que todos financiam
Igrejas são isentas de impostos no Brasil desde a Constituição de 1946. A imunidade tributária está no artigo 150 da Constituição de 1988 e protege templos de qualquer culto. A justificativa original é sólida: liberdade religiosa implica que o Estado não pode usar a tributação como instrumento de pressão sobre crenças. Esse princípio é correto.
O problema começa quando a isenção vai além do templo e passa a cobrir operações comerciais, imóveis, veículos e atividades que nada têm de religioso. Em 2024, a Câmara aprovou em comissão a PEC 5/23, que amplia ainda mais a imunidade tributária das igrejas, incluindo materiais de construção e equipamentos de som. A estimativa de renúncia fiscal adicional: até R$ 1 bilhão por ano. O governo, que precisava da bancada religiosa para aprovações no Congresso, deu aval à proposta.
O resultado prático é que o contribuinte brasileiro — incluindo os que não são religiosos, incluindo os que praticam religiões que não se beneficiam da isenção de forma equivalente — financia indiretamente o crescimento patrimonial de instituições que, em troca, mobilizam votos para os que aprovam suas pautas. É uma relação de reciprocidade. Não é fé. É negócio.
O problema não é a isenção do templo onde as pessoas oram. É a expansão ilimitada de benefícios fiscais para estruturas que funcionam como empresas — e que são protegidas por parlamentares que essas mesmas estruturas ajudaram a eleger.
O que a religião perde — e o que a política perde
A mistura prejudica os dois lados. É importante dizer isso — porque o argumento mais honesto não é "a política contamina a religião" ou "a religião contamina a política". É que a fusão dos dois corrompe a função de cada um.
A religião existe para cuidar do espiritual, do moral, do comunitário. Quando uma igreja se torna um braço eleitoral, ela começa a tomar decisões baseadas em estratégia política — quem apoiar, quem atacar, quais concessões aceitar em troca de proteção legislativa. O fiel que vai ao culto buscar orientação espiritual começa a receber orientação eleitoral. A doutrina mistura-se com o calendário da campanha. A fé deixa de ser um fim e vira um meio.
A política perde igualmente. Quando um parlamentar precisa da bênção do pastor para ser eleito e do pastor para permanecer eleito, ele deixa de ser independente. Suas votações são constrangidas por uma lealdade que não é ao eleitor — é à liderança religiosa que mobilizou o voto dele. Isso fragiliza exatamente o que um mandato deveria ser: representação livre dos interesses do conjunto dos cidadãos.
A socióloga Christina Vital, pesquisadora do fenômeno evangélico na política brasileira, aponta que igrejas como as pentecostais ocupam espaços onde o Estado está ausente — oferecendo rede de apoio material, social e emocional. Esse trabalho é real e relevante. Mas preencher um vácuo do Estado não transforma a instituição religiosa em substituta do Estado. E não dá a ela o direito de governar no lugar do Estado.
Como deveria funcionar — e por que não funciona assim
Pessoas religiosas têm o mesmo direito de votar, de se candidatar e de exercer mandato que qualquer outro cidadão. Um pastor eleito deputado é um deputado como qualquer outro — submetido às mesmas regras, com o mesmo dever de representar todos os seus eleitores, não apenas os membros da sua denominação.
O que não deveria existir é a estrutura institucional de troca: igreja mobiliza voto, eleito protege isenção da igreja, igreja mobiliza mais voto. Isso não é representação — é clientelismo com verniz sagrado. E o clientelismo, qualquer que seja o verniz, corrói a democracia da mesma forma.
Um parlamentar pode ter fé profunda e votar com base nos seus valores — desde que esses valores se traduzam em argumentos que qualquer cidadão possa contestar em termos laicos. "Sou contra porque minha fé proíbe" não é argumento democrático. "Sou contra porque as evidências mostram que causa dano" é. A diferença não é cosmética — é a diferença entre teocracia e democracia.
Água e óleo — e por que não se misturam
Tenho fé no que tenho fé. Respeito quem tem fé diferente. E respeito quem não tem nenhuma — porque numa democracia laica, nenhuma crença é superior a outra diante da lei.
O Brasil que quero é aquele onde qualquer pessoa pode entrar num templo e orar pelo que acreditar, sem que isso determine quais leis vão reger a vida de quem não compartilha da mesma crença. Onde o voto é livre de bênção e de ameaça pastoral. Onde a isenção fiscal existe para proteger a liberdade religiosa — não para financiar influência política.
Fé e poder são como água e óleo. Cada um tem seu lugar, sua função, sua dignidade. Quando forçosamente misturados, nenhum dos dois permanece o que era. A fé vira instrumento. O poder vira doutrina. E o cidadão — crente ou não, de qualquer religião ou de nenhuma — fica sem representação real em nenhum dos dois.
Fontes: Focus Poder — Frente Parlamentar Evangélica: 219 deputados e 26 senadores; primeira eleição da presidência em 2025, 22 anos após a fundação; supera numericamente toda a esquerda na Câmara (mar/2025); Agência Brasil — Bancada da Bíblia consolida força: estratégia da Igreja Universal com o Republicanos; análise do prof. Leonardo Barreto (UnB) sobre homogeneidade e interesses da bancada (fev/2025); CNN Brasil — Igrejas e imunidade tributária: art. 150 da Constituição Federal de 1988; revogação da norma de isenção a líderes religiosos pela Receita Federal (jan/2024); DW Brasil / Terra — PEC 5/23 (PEC das igrejas): ampliação da imunidade tributária aprovada em comissão; renúncia fiscal estimada em até R$ 1 bilhão/ano; aval do governo como aceno à bancada religiosa (mar/2024); Agência Pública — Crescimento evangélico e política: socióloga Christina Vital sobre presença de igrejas pentecostais em periferias e atuação política (jul/2025); Gazeta do Povo — Eleitorado evangélico se aproxima da direita em Santa Catarina; 9 dos 16 deputados catarinenses na bancada evangélica (mai/2026); Constituição Federal de 1988, art. 150 (imunidade tributária) e art. 19 (laicidade do Estado).