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COLUNA | SAÚDE & POLÍTICAS PÚBLICAS

A Caneta que a Internet Vendeu e o Médico Não Indicou

Ozempic e Mounjaro viraram febre nas redes sociais. O que ninguém explica direito é o que acontece com o corpo quando você para — e o que pode acontecer enquanto usa sem supervisão.

Iris de Oliveira · 08 de mai. de 2026
A Caneta que a Internet Vendeu e o Médico Não Indicou

Numa tarde qualquer, alguém abre o TikTok e vê um vídeo de antes e depois. A pessoa perdeu 15 quilos em três meses. Nos comentários, a pergunta se repete: qual caneta você usou? O algoritmo entrega mais vídeos iguais. Em dois dias, a pessoa já encontrou um grupo no WhatsApp onde alguém vende o produto sem receita, com entrega em casa.

Essa cena acontece todos os dias no Brasil. E é exatamente aí que começa o problema.

Ozempic e Mounjaro são medicamentos reais, com eficácia comprovada em estudos clínicos sérios, desenvolvidos para tratar diabetes tipo 2 e, em alguns casos, obesidade grave. Não são vitaminas. Não são suplementos. São substâncias que alteram o funcionamento hormonal do organismo — e precisam, por isso mesmo, de avaliação, prescrição e acompanhamento médico. O que está acontecendo no Brasil é o uso em massa desses medicamentos como se fossem um truque de emagrecimento rápido. E os resultados dessa equação têm nome: efeitos colaterais graves, perda de massa muscular e, para muitos, o retorno do peso com juros após a interrupção.

O que são esses medicamentos — em linguagem simples

Ozempic contém semaglutida. Mounjaro contém tirzepatida. Os dois pertencem a uma classe chamada análogos do GLP-1 — hormônios que o intestino produz naturalmente após as refeições e que sinalizam ao cérebro que o corpo está satisfeito.

Em linguagem simples: esses medicamentos simulam o sinal de saciedade que o organismo produz depois de comer. O cérebro recebe a mensagem de que está cheio antes de a fome aparecer. Com isso, a pessoa come menos, o açúcar no sangue se estabiliza e o peso cai.

O Mounjaro age em dois receptores ao mesmo tempo — GLP-1 e GIP — o que o torna mais potente que o Ozempic. Estudos clínicos mostram perda média de até 25% do peso corporal com tirzepatida, contra cerca de 17% com semaglutida. São números expressivos. Mas número de estudo clínico não é o mesmo que resultado sem acompanhamento médico — e essa diferença importa muito.

Esses medicamentos foram desenvolvidos para tratar doenças. Quando usados fora desse contexto, sem avaliação prévia, sem ajuste de dose e sem monitoramento, o que muda não é o medicamento — é o nível de risco a que o usuário se expõe.

Os efeitos colaterais que o vídeo não mostrou

Os efeitos colaterais mais comuns — náuseas, vômitos, diarreia, dor abdominal, constipação e azia — aparecem especialmente no início do tratamento e costumam ser mais intensos quando a dose sobe rápido demais. Quem compra sem receita e aplica uma dose que um médico só prescreveria após meses de adaptação gradual está acelerando esse processo e multiplicando o desconforto.

Mas há efeitos menos comuns e muito mais graves. A pancreatite — inflamação do pâncreas — é rara, mas pode ser fatal. A hipoglicemia severa pode ocorrer quando o medicamento é combinado de forma inadequada com outros tratamentos para diabetes. Infecções e abscessos no local da aplicação são frequentes quando a injeção é feita sem técnica correta. E há contraindicações absolutas que o usuário sem prescrição médica provavelmente desconhece: quem tem histórico familiar de carcinoma medular de tireoide ou neoplasia endócrina múltipla tipo 2 não deve usar esses medicamentos em hipótese alguma.

Existe ainda um efeito que virou assunto nas redes sociais por razões estéticas, mas que tem consequência clínica real: a perda de massa muscular. No estudo STEP 1, com semaglutida, 41% do peso total perdido durante o tratamento foi de massa magra — músculos, não gordura. Para efeito de comparação, em dietas convencionais essa proporção fica em torno de 25%, e após cirurgia bariátrica, em 20%. A perda muscular tem impacto direto no metabolismo, na força física e no funcionamento do organismo a longo prazo.

'Rosto Ozempic' e 'bumbum Ozempic' são os nomes que as redes sociais deram à flacidez que aparece quando o corpo perde peso rápido demais e mais músculo do que deveria. São sinais visíveis de algo que está acontecendo por dentro — e que a balança não mostra.

O que acontece quando você para

Essa é a parte que o vídeo de antes e depois nunca mostra — porque o depois de verdade costuma aparecer meses mais tarde.

Quando a medicação é interrompida, o sinal de saciedade artificial desaparece. O apetite volta — e em muitos casos volta mais intenso do que antes, porque o corpo passou meses em deficit calórico e quer compensar. Uma revisão de 37 estudos publicada em 2026, com 9.341 participantes, mostrou que o reganho de peso após a interrupção dos GLP-1 acontece quase quatro vezes mais rápido do que o reganho após emagrecimento convencional por dieta e exercício.

O estudo de referência com semaglutida é ainda mais específico: após 52 semanas de tratamento, participantes que pararam o medicamento recuperaram, em média, 67% do peso perdido ao longo de um ano. Uma pessoa que saiu de 100 kg para 83 kg voltaria para cerca de 94 kg. E o processo ainda não havia estabilizado quando o estudo terminou.

O problema não é só o peso que volta. É a composição desse peso. Quando o corpo emagrece perdendo músculo e depois engorda, tende a recuperar gordura mais rápido do que músculo. A pessoa pode terminar o ciclo com mais gordura e menos massa magra do que quando começou — em situação metabolicamente pior do que antes.

A interrupção abrupta é ainda mais perigosa do que a gradual. A suspensão deve ser feita com orientação médica, em processo de redução progressiva de dose — o que os médicos chamam de desmame. Quem para do dia para a noite por conta própria expõe o organismo a uma reversão brusca sem nenhuma estrutura de apoio metabólico.

A indústria do emagrecimento e o que está sendo vendido

Entre 2022 e 2024, as notificações de efeitos adversos graves com medicamentos da classe GLP-1 cresceram 340% no Brasil — e o principal fator identificado pela Anvisa foi o uso sem prescrição médica. Em resposta, a agência passou a exigir, a partir de junho de 2025, receita de controle especial com retenção na farmácia para Ozempic, Mounjaro, Wegovy e Saxenda.

Mas antes que a regulação chegasse, o mercado paralelo já estava consolidado: grupos de WhatsApp, perfis em redes sociais, farmácias de manipulação vendendo versões sem garantia de qualidade ou concentração — e pessoas aplicando em si mesmas doses que nunca foram avaliadas por ninguém.

O preço também conta a história de quem acessa esses medicamentos. Uma caixa de Mounjaro pode custar até R$ 4.058 na versão original. O Ozempic não sai por menos de R$ 1.065. Quem não pode pagar esse preço — e são a maioria dos brasileiros — recorre às versões manipuladas ou aos grupos informais. E nesse circuito, o risco de produto adulterado, dose errada e aplicação sem técnica multiplica todos os perigos já descritos.

O que ninguém está dizendo — e deveria

A obesidade é uma doença crônica com causas complexas — genéticas, hormonais, comportamentais, socioeconômicas. Medicamentos como Ozempic e Mounjaro são, de fato, um avanço real no tratamento de uma condição que mata e que historicamente foi tratada com moralismo em vez de ciência. Isso precisa ser dito com clareza.

O problema não é o medicamento. O problema é a narrativa que transforma uma ferramenta clínica em solução mágica vendida por influenciadores sem formação médica para pessoas que querem perder cinco quilos antes do verão. Quando esse produto chega nesse contexto, sem triagem, sem acompanhamento, sem mudança de hábito e sem plano de saída, o resultado não é emagrecimento — é uma intervenção hormonal não supervisionada no próprio organismo.

Nenhum medicamento substitui mudança de estilo de vida. Estudos mostram que os melhores resultados com GLP-1 acontecem quando o tratamento é combinado com exercício de força — que preserva a massa muscular e reduz o efeito rebote — e com acompanhamento nutricional. Sem esses pilares, o medicamento faz um trabalho que o corpo não está preparado para sustentar sozinho.

A pergunta certa não é 'qual caneta devo usar'. É 'tenho indicação clínica para esse medicamento, qual médico vai me acompanhar, e o que farei quando for o momento de parar'. Quem não tem resposta para as três perguntas não está começando um tratamento. Está apostando na própria saúde.

Este artigo tem caráter informativo e não substitui consulta médica. Quem considera o uso de Ozempic, Mounjaro ou qualquer medicamento da classe GLP-1 deve buscar avaliação de endocrinologista ou clínico geral habilitado antes de qualquer decisão.

 

 

Fontes: CNN Brasil — Uso indiscriminado de Ozempic e Mounjaro preocupa médicos (jun/2025); UNIFOR — Entre a busca pelo 'corpo perfeito' e os riscos invisíveis (dez/2025); Sincofarma SP — Ozempic e a possibilidade de reganho do peso corporal (dez/2023); Diário do Litoral — Efeito rebote do Ozempic: estudo revela quanto peso se ganha após parar (jan/2026); National Geographic Brasil — O 'rosto Ozempic' é real? (mai/2024); Anvisa — Canetas emagrecedoras só poderão ser vendidas com retenção de receita (2025); Estudo STEP 1 — Semaglutida: composição corporal e reganho de peso (New England Journal of Medicine); Diabetes Care

de políticas públicas e escreve sobre poder, instituições e gestão do Estado.