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COLUNA | SOCIEDADE & DIREITOS HUMANOS

138 Anos Não São Suficientes para Apagar Três Séculos

Um jornal de 1880 vendia pessoas como mercadoria. Em 2026, uma juíza de toga ainda precisa dizer quem é. A distância entre os dois é menor do que dói admitir.

Iris de Oliveira · 07 de mai. de 2026
138 Anos Não São Suficientes para Apagar Três Séculos

Num jornal brasileiro de 1880, entre os anúncios comuns do dia, estava este: "Vende-se um bom moleque, de 19 anos, perfeito maquinista." E este: "Vende-se uma preta, perfeita em todo serviço, por preço barato, por levar dois ingênuos." E este: "Vende-se, de casa particular, uma pardinha clara de 13 anos de idade, muito galante.”

Pessoas. Anunciadas como mercadoria. Com preço, com características físicas, com habilidades listadas como atributos de venda. Num jornal. Como se fosse o mais normal do mundo — porque, àquela época e naquele país, era.

Isso foi há 146 anos.

Não é história antiga. É avó de avó. É memória viva em famílias que ainda carregam o sobrenome do senhor, que ainda moram onde os escravizados moravam, que ainda enfrentam as mesmas portas fechadas que os escravizados encontraram ao serem libertos sem reparação — numa pirâmide construída com o trabalho deles cujos frutos nunca foram para eles.

A toga que não foi suficiente

Na última semana de abril de 2026, a juíza Eliene Simone Silva Oliveira, da Quinta Turma Recursal do Tribunal de Justiça da Bahia, estava em sessão julgando um caso de racismo. Enquanto argumentava para elevar a indenização de R$ 3 mil para R$ 65 mil — porque chamaram um homem negro de "macaco" e "negro escroto" nas redes sociais — ela parou e contou o que vive.

"Às vezes, eu estou na sala, até vestida de toga, chega um advogado e pergunta: quero falar com a doutora Eliene. Eu digo: eu sou a doutora Eliene. Eu vejo a expressão facial deles de espanto.".

Ela é magistrada há 35 anos. Passou num concurso em que, dos 112 aprovados, apenas três eram negros — e ela era um deles. Vai a congressos e frequentemente é a única pessoa negra na sala. Usa a toga — o símbolo mais visível de autoridade dentro de um tribunal — e ainda assim precisa se apresentar. Porque a toga não apagou a primeira coisa que o advogado viu quando entrou na sala.

Isso não aconteceu em 1880. Aconteceu em 2026, num tribunal, com uma das profissionais mais experientes da sua área.

O que os números confirmam — e ninguém deveria precisar confirmar

Pretos e pardos são 56,1% da população brasileira. Ocupam 30,2% dos cargos de gerência. Recebem, em média, 40% menos do que trabalhadores brancos com a mesma escolaridade. Com ensino superior completo, um trabalhador negro recebe 66,6% do que um branco com diploma equivalente ganha por hora.

São 72,9% dos moradores de favelas. Têm taxa de desemprego de 8,4% contra 5,6% dos brancos. Representam 77% das vítimas de homicídio no Brasil — num país onde os homicídios são o principal assassino de jovens. Uma pessoa negra tem risco 2,7 vezes maior de ser vítima de homicídio do que uma pessoa não negra.

Em 2024, pesquisa conduzida com 2.458 brasileiros mostrou que quase 85% da população preta afirma ter sofrido discriminação racial. Não em 1880. Não na ditadura. Em 2024.

O racismo não é uma opinião que algumas pessoas têm. É um sistema que produz resultados mensuráveis, verificáveis e persistentes — em salário, em mortalidade, em acesso, em representação. Os números não descrevem preconceito individual. Descrevem uma estrutura.

Por que "não sou racista" não é suficiente

A maioria dos brasileiros não se considera racista. E a maioria provavelmente tem razão — no sentido de que não acorda de manhã planejando discriminar ninguém. O problema é que o racismo não precisa de intenção para funcionar.

O advogado que chegou ao gabinete da juíza Eliene e não a reconheceu como a juíza provavelmente não foi com intenção de discriminar. Foi com um conjunto de expectativas construídas ao longo de décadas sobre quem ocupa quais posições — expectativas que a realidade brasileira confirma com tanta frequência que viraram reflexo automático. Quando apenas 3 dos 112 aprovados num concurso da magistratura são negros, não é coincidência. É o resultado de um sistema que criou obstáculos desiguais ao longo de gerações.

O anúncio do jornal de 1880 não foi cancelado em 13 de maio de 1888. A Lei Áurea aboliu a escravidão sem abolir as suas consequências. Não houve reparação. Não houve redistribuição de terra. Não houve política de inclusão. Os ex-escravizados foram libertos para competir num mercado que os excluía, numa sociedade que os discriminava, num país que passou a tratá-los como cidadãos no papel sem nenhuma estrutura para que o papel se tornasse realidade.

O Brasil que existe hoje foi construído sobre esse alicerce. A desigualdade racial de salário, de representação, de violência — não é acidente. É herança.

A cor que não define — e a estrutura que insiste em definir

A melanina é um pigmento. Nada mais. Ela determina a tonalidade da pele da mesma forma que determina a cor dos olhos ou do cabelo — sem nenhuma implicação sobre inteligência, capacidade, caráter ou valor humano. Isso não é opinião. É biologia.

O problema não é a melanina. O problema é o significado que uma sociedade construiu em torno dela ao longo de séculos — e que continua produzindo consequências mensuráveis hoje. Quando um médico negro é confundido com auxiliar de limpeza no hospital. Quando uma advogada negra é abordada como suspeita no condomínio onde mora. Quando um jovem negro é parado pela polícia três vezes mais do que um jovem branco no mesmo bairro. Em nenhum desses casos a melanina fez alguma coisa. O que fez alguma coisa foi o sistema que aprendeu a usar a cor como marcador de posição social.

Reconhecer isso não é atacar ninguém. É nomear o que existe para que possa ser mudado. Um problema que não tem nome não tem solução.

O que o Brasil construiu — e o que ainda falta construir

O Brasil avançou. As cotas raciais nas universidades públicas, instituídas pela Lei 12.711/2012 e confirmadas como constitucionais pelo STF, produziram resultados reais: mais estudantes negros nas universidades, mais profissionais negros em carreiras que antes eram praticamente fechadas para eles. A juíza Eliene entrou antes das cotas — e foi uma das três, num universo de 112. Com as cotas, o número mudou.

Mas o DIEESE mostrou em novembro de 2024 que trabalhadores negros com ensino superior ainda ganham 32% menos que trabalhadores não negros com a mesma escolaridade — diferença que pouco se alterou após mais de uma década de cotas. Cotas abrem a porta da universidade. Não mudam o salário que o mercado paga do outro lado.

Mudar isso exige mais do que legislação pontual. Exige que empresas, instituições, famílias e indivíduos façam o que é desconfortável: olhar para os próprios reflexos automáticos e perguntar de onde vieram. Por que certas posições têm rostos predominantemente de uma cor. Por que certos bairros têm serviços de uma qualidade e outros têm outra. Por que a surpresa no rosto do advogado ao ver a juíza existiu — e o que ele pode fazer para que não exista na próxima vez. Essas perguntas não têm respostas confortáveis. Mas têm respostas — e ignorá-las não as faz desaparecer.

O que os anúncios de 1880 ainda estão dizendo

Guardo a imagem do jornal de 1880 não para causar culpa em ninguém. Guardo para não deixar que o tempo a torne abstrata. Para lembrar que o abismo entre o que o Brasil foi e o que diz ser não foi preenchido por lei — porque lei não preenche abismo. É preenchido por escolha, por consciência e por ação continuada de cada geração.

A juíza Eliene não precisaria se apresentar numa sala de tribunal. O influenciador Jefferson não precisaria ser chamado de macaco por existir. Os jovens negros que são a maioria dos mortos por homicídio no Brasil não precisariam pagar com a vida por uma estrutura que não construíram.

O racismo não faz sentido. Nunca fez. A melanina de outra pessoa não a torna diferente das demais — não em capacidade, não em valor, não em dignidade. O que a torna diferente são as barreiras que uma sociedade construiu e que precisam, geração após geração, ser desmontadas com consciência, com dados e com a disposição de ver o que é desconfortável ver.


FontesMigalhas / UOL / Acessa.com — Desembargadora Eliene Simone Silva Oliveira, TJ-BA, 5ª Turma Recursal: eleva indenização de R$ 3 mil para R$ 65 mil em caso de racismo; relata experiência pessoal de discriminação — toga não foi suficiente para ser reconhecida como magistrada (28/abr/2026); DIEESE — Boletim Especial Consciência Negra 2024: rendimento médio de negros é 40% inferior ao de não negros; negros com ensino superior ganham 32% menos; Agência Brasil / Vital Strategies Brasil / Umane — 85% da população preta afirma ter sofrido discriminação racial; pesquisa com 2.458 pessoas (ago-set/2024); Atlas da Violência 2025 (Ipea/FBSP): pessoa negra tem risco 2,7 vezes maior de ser vítima de homicídio; 77% das vítimas de homicídio são negras; PNAD Contínua 2023 (IBGE): pretos e pardos = 56,1% da população; 30,2% dos cargos de gerência; desemprego 8,4% (pretos) e 8% (pardos) vs. 5,6% (brancos); Censo IBGE 2022: pretos e pardos = 72,9% dos moradores de favelas; IBGE — Desigualdades Sociais por Cor ou Raça: rendimento médio domiciliar per capita de brancos (R$ 1.866) equivale a quase o dobro de pretos (R$ 965) e pardos (R$ 945); Imagem histórica — anúncios de venda de pessoas escravizadas em jornal brasileiro, 1880.