O Desenrola Alivia. Mas Não Cura
O governo renegociou dívidas em 2023. Renegociou de novo em 2025. Agora renegocia uma terceira vez. O problema não é a dívida — é a renda que nunca foi suficiente para pagá-la.
Iris de Oliveira · 06 de mai. de 2026
Ana trabalha como auxiliar de serviços gerais num condomínio. Recebe R$ 1.621 — o salário mínimo. Com esse dinheiro, paga aluguel de R$ 650, conta de luz de R$ 180, alimentação de R$ 600, transporte de R$ 200. Sobram R$ -9. Não é erro de cálculo. É o orçamento real de milhões de brasileiros que vivem no limite e usam o cartão de crédito não para consumir supérfluos, mas para fechar o mês.
Na segunda-feira, 4 de maio de 2026, o presidente Lula assinou a Medida Provisória do Novo Desenrola Brasil. O programa oferece descontos de 30% a 90% nas dívidas, juros limitados a 1,99% ao mês, prazo de até 48 meses para pagar e a possibilidade de usar 20% do FGTS como entrada. Para quem tem nome sujo e dívida no cartão, é um alívio real.
Para Ana, é um alívio que dura até o próximo mês.
Porque o problema de Ana não é a dívida que acumulou. É a renda que nunca foi suficiente para não acumulá-la.
O Novo Desenrola Brasil de 2026 é o terceiro programa de renegociação de dívidas do governo em menos de três anos. O primeiro foi em 2023. O segundo em 2025. Agora o terceiro, com público-alvo de pessoas com renda até cinco salários mínimos — R$ 8.105 — e dívidas em cartão de crédito, cheque especial, crédito pessoal e Fies atrasadas entre 90 dias e dois anos.
O programa é bem desenhado em seus aspectos técnicos. Os descontos são reais — a média prometida pelo ministro da Fazenda é de 65%. Os juros de 1,99% ao mês são muito menores que os 15,27% ao mês cobrados no rotativo do cartão de crédito. A novidade do bloqueio por 12 meses em plataformas de apostas para quem aderir é uma tentativa honesta de evitar que o beneficiário se reendivide imediatamente nas bets.
O que o programa não faz é mudar nenhum dos fatores que levaram as pessoas a se endividar. Depois dos 90 dias de campanha, a Selic continuará onde está. O custo do crédito continuará alto. O salário mínimo continuará valendo R$ 1.621. E as famílias que renegociaram em 2023, voltaram a se endividar em 2024 e agora renegociam de novo vão continuar no mesmo ciclo
Os números que o governo não anunciou na cerimônia
Em março de 2026, o endividamento das famílias brasileiras atingiu 80,4% — o maior índice desde o início da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, que existe desde 2010. Para colocar em perspectiva: em março de 2020, no início da pandemia, o índice era de 66,5%. O Brasil chegou a seu pior patamar de endividamento não numa crise sanitária, mas num período de desemprego historicamente baixo e crescimento econômico.
Isso é o dado mais revelador de todos. A taxa de desocupação estava em 5,4% em janeiro de 2026 — próxima do mínimo histórico. A renda média do trabalhador bateu recorde nominal. E mesmo assim, 80% das famílias estão endividadas e 29,6% têm contas em atraso. Isso só se explica por uma combinação específica: renda baixa demais, juros altos demais, e custo de vida que cresce mais rápido do que o salário.
O comprometimento médio da renda com dívidas chegou a 29,6% do orçamento familiar em março de 2026. Uma em cada cinco famílias destina mais da metade de tudo que ganha para pagar dívidas. Não é comportamento irresponsável. É aritmética de quem ganha pouco num país de crédito caro.
A conta que o salário mínimo não fecha
A diferença é de 4,6 vezes. Um trabalhador no piso nacional ganha, numa vida inteira de trabalho, o que um salário mínimo necessário pagaria em quatro meses e meio. Com essa renda, qualquer imprevisto — uma consulta médica, um pneu furado, uma conta de luz que veio mais alta — vira dívida. Não por falta de educação financeira. Por falta de margem.
O Banco Central mantém a Selic em 14,50% ao ano — uma das mais altas do mundo em termos reais. Cada ponto percentual da Selic se traduz em juros mais caros em toda a cadeia de crédito: cartão, consignado, financiamento. O trabalhador que tomou empréstimo para pagar conta de luz pagou juros que foram para o mesmo sistema financeiro que agora vai receber os descontos do Desenrola com garantia do Tesouro Nacional.
O ciclo que nenhum Desenrola quebra
O primeiro Desenrola, lançado em 2023, beneficiou mais de 10 milhões de pessoas. Menos de dois anos depois, o endividamento bateu novo recorde. O segundo programa, em 2025, repetiu o ciclo. Agora o terceiro começa com a mesma estrutura: alívio temporário para um problema permanente.
O Instituto de Defesa do Consumidor — Idec — foi direto na crítica ao programa: uma política pública construída às pressas, sem avaliação consistente das experiências anteriores, tende a reproduzir as mesmas limitações. A pergunta central que nenhum Desenrola respondeu até hoje é: quantos consumidores que renegociaram voltaram a se endividar no prazo de um ano?
A resposta implícita está nos números. Se o problema fosse apenas a dívida, um programa de renegociação resolveria de vez. O fato de ser necessário um terceiro programa em três anos indica que o problema não é a dívida — é o que produz a dívida. Renda insuficiente para cobrir o custo de viver no Brasil em 2026.
Renegociar a dívida de quem não tem renda para pagá-la é como esvaziar um balde com furo no fundo. A água sai, o balde fica cheio. O que precisa mudar não é o esvaziamento — é o furo.
O que o programa acerta — e o que o debate público ignora
O Desenrola não é inútil. Para quem tem nome sujo há meses, perder o acesso ao crédito tem custo real: não consegue alugar um imóvel, não consegue financiar uma geladeira, não consegue abrir conta em determinados bancos. Limpar o CPF tem valor concreto, e o programa cumpre essa função.
A novidade do bloqueio nas bets merece reconhecimento. É uma medida que o governo anterior ao Desenrola de apostas deveria ter tomado antes. Um trabalhador que usa 20% do FGTS para pagar dívida e continua apostando vai estar no mesmo lugar em seis meses.
O que o debate público tende a ignorar — especialmente em ano eleitoral, quando o programa foi claramente desenhado como produto político — é que nenhuma dessas medidas toca nos dois fatores estruturais que mantêm 80% das famílias endividadas: a Selic, que encarece todo o crédito do país, e a renda, que cresceu em termos nominais mas continua insuficiente para cobrir o custo de vida real da maioria dos brasileiros.
O que Ana vai fazer depois dos 90 dias
Ana vai aderir ao Desenrola. Vai renegociar a dívida do cartão com desconto de 70% e parcelas de R$ 150 por mês. O nome vai ficar limpo. O crédito vai voltar.
Em novembro, quando a conta de luz subir por causa do calor, quando o remédio do filho acabar, quando o ônibus aumentar o preço — ela vai usar o cartão de novo. Não porque é irresponsável. Porque R$ 1.621 não fecha o mês de quem vive num país onde morar, comer, se mover e adoecer custa muito mais do que o piso nacional paga.
O Desenrola alivia. Isso importa. Mas o Brasil vai continuar precisando de um novo Desenrola a cada dois anos enquanto não enfrentar a pergunta que nenhum programa de renegociação responde: como uma família se sustenta com renda que não cobre o custo de se sustentar?
Fontes:Casa Civil — Novo Desenrola Brasil: descontos de 30% a 90%, juros máximo de 1,99%/mês, prazo de 48 meses, uso de 20% do FGTS, bloqueio por 12 meses em bets para quem aderir, público renda até 5 salários mínimos (R$ 8.105), programa de 90 dias, MP assinada em 4/mai/2026; CNC/PEIC — endividamento das famílias: 80,4% em março de 2026, maior da série histórica (desde 2010); 29,6% com contas em atraso; comprometimento de 29,6% da renda com dívidas; 12,3% declararam não ter condições de pagar (mar/2026); FGV/IBRE — 81,3 milhões de adultos negativados em jan/2026, quase 50% da população adulta; Banco Central — Selic em 14,50% ao ano (abr/2026); comprometimento de renda com dívidas bancárias em 29,33%; inadimplência em 6,9% (fev/2026); DIEESE — salário mínimo necessário: R$ 7.425,99 em março de 2026; salário mínimo vigente: R$ 1.621 (4,6 vezes menor que o necessário); Poder360 — Novo Desenrola apresentado como principal marca econômica do governo para o 2º semestre, visando recuperar popularidade antes das eleições (30/abr/2026); Idec — crítica ao programa construído às pressas sem avaliação das experiências anteriores (mai/2026); Correio Braziliense — desconto médio de 65%, fundo garantidor de R$ 2 bi com aporte extra de até R$ 5 bi do orçamento federal (4/mai/2026).