O Brasil Ria do Paraguai. Agora o Paraguai Ri do Brasil
263 mil brasileiros, 200 empresas e a Lupo. Enquanto o Brasil debatia reforma tributária, o vizinho a fez. E o resultado está mudando o mapa econômico da América do Sul.
Iris de Oliveira · 05 de mai. de 2026
Durante décadas, o Paraguai foi piada no Brasil. Sinônimo de contrabando, de mercadoria falsificada na mala, de fronteira porosa e de economia informal. O Shopping Paris em Ciudad del Este era destino de turista de segunda categoria, não de executivo sério. "Paraguaio" era adjetivo que não se usava como elogio.
Enquanto o Brasil ria, o Paraguai fazia uma coisa silenciosa e radical: reformava o próprio sistema tributário. Cortou impostos. Simplificou regras. Criou regimes especiais para atrair indústrias estrangeiras. E esperou.
Não precisou esperar muito
Hoje, 263 mil brasileiros vivem no Paraguai. Mais de 200 empresas brasileiras transferiram operações para o país. Em 2024, 17.139 brasileiros obtiveram residência legal — 60% de todos os novos imigrantes registrados naquele ano. E o crescimento econômico paraguaio em 2025 foi de 5,3% — mais que o dobro do brasileiro, estimado em 2,3%.
O sistema que o Brasil nunca quis copia
A explicação central cabe numa fórmula que qualquer brasileiro entende em trinta segundos: 10-10-10. Dez por cento de imposto de renda para pessoas físicas. Dez por cento para empresas. Dez por cento de IVA — equivalente ao ICMS. Sem imposto sobre herança. Sem imposto sobre doação. Sem tributação sobre renda de origem estrangeira.
Para quem vive no Brasil, onde a alíquota máxima de imposto de renda chega a 27,5% para pessoas físicas e 34% para empresas — sem contar CSLL, PIS, COFINS, ICMS, ISS e mais algumas dezenas de siglas — a comparação é visceral. Em 2024, a arrecadação tributária brasileira bateu R$ 2,7 trilhões, alta de quase 10% sobre o ano anterior. Recorde histórico. No mesmo período, o Paraguai tinha carga tributária equivalente a 14% do PIB — menos da metade da brasileira.
Com a Lei 15.270/2025, o Brasil reinstaurou a tributação de dividendos — algo que não existia há quase três décadas. A nova regra prevê retenção de 10% sobre lucros distribuídos acima de R$ 50 mil mensais por empresa, além de imposto mínimo sobre rendas anuais acima de R$ 600 mil. O resultado imediato foi previsível: uma nova leva de empresários começou a calcular quanto custaria abrir uma holding no Paraguai.
A Maquila: a porta que o Brasil deixou aberta
Além do sistema tributário geral, o Paraguai tem um instrumento específico para seduzir indústrias estrangeiras: a Lei Maquila, vigente desde 1997. Em termos simples, ela permite que uma empresa instale produção no Paraguai, importe insumos sem pagar impostos de importação e exporte o produto final pagando apenas 1% sobre o valor adicionado em território paraguaio.
Setenta por cento do que é produzido sob o regime Maquila vai diretamente para o Brasil — confirmado pelo próprio vice-ministro de Indústria do Paraguai. O setor têxtil é o exemplo mais visível: empresas brasileiras enviam tecido para o Paraguai, produzem localmente e reexportam para o Brasil com carga tributária incomparavelmente menor. A Lupo, uma das maiores fabricantes de meias do Brasil, sinalizou em 2025 a abertura de fábrica no Paraguai. Não foi surpresa para quem acompanha o setor.
Uma empresa brasileira de serviços com R$ 1 milhão de lucro pode pagar até 40% em impostos no Brasil após a nova tributação de dividendos. A mesma estrutura no Paraguai paga em torno de 15%. A diferença não é marginal — é o fator que decide onde uma empresa cresce e onde ela fecha.
Além do imposto: o que mais o Paraguai vende
Quem reduz a migração à questão tributária erra o tamanho do fenômeno. O Paraguai oferece um pacote que vai além da alíquota.
A energia elétrica industrial custa em média 39 dólares por megawatt-hora no Paraguai — contra 123 dólares no Brasil. Isso porque o país é um dos maiores produtores de energia hidrelétrica per capita do mundo, graças à Itaipu, construída com financiamento brasileiro nos anos 1970. O Brasil ajudou a pagar a usina que hoje dá vantagem competitiva ao vizinho.
O processo de residência é rápido: entre um e meio e quatro meses para a temporária, menos de dois anos para a permanente. Cidadania em pouco mais de três anos de residência permanente — prazo bem menor que EUA, Canadá ou qualquer país europeu. Para quem quer sair do Brasil mas não quer cruzar o Atlântico, o Paraguai é geograficamente, culturalmente e burocraticamente o caminho mais curto.
Há ainda os 30 mil estudantes brasileiros matriculados em universidades paraguaias — principalmente em medicina, onde a mensalidade pode chegar a R$ 1,2 mil por mês contra R$ 8 mil no Brasil. Famílias inteiras estão tomando decisões de longo prazo baseadas nessa diferença. O filho que estuda lá tende a ficar lá.
O que o Brasil precisa ouvir — sem romantizar o vizinho
O Paraguai não é Eldorado. Com 27% da população vivendo na pobreza e índice de percepção de corrupção pior que o do Brasil no ranking da Transparência Internacional, o país tem fragilidades estruturais reais. A desigualdade é alta. A infraestrutura fora das grandes cidades é precária. E parte do que atrai empresários — a menor proteção trabalhista — é exatamente o que protege menos o trabalhador.
O modelo 10-10-10 é regressivo por design: rico e pobre pagam o mesmo percentual. No Brasil, a progressividade tributária — que cobra mais de quem ganha mais — é um princípio constitucional. Abandoná-la tem custo social real.
Nenhum desses pontos invalida o diagnóstico central: a diferença de carga tributária entre os dois países é tão grande que ela sozinha explica uma migração em massa que nenhum outro fator cultural, linguístico ou geográfico explicaria. Quando um empresário paga quase três vezes mais imposto do mesmo lado da fronteira, ele não está sendo irracional ao cruzá-la. Está fazendo conta.
A piada que o Brasil não está mais contando
O Paraguai passou décadas sendo subestimado. Enquanto o Brasil construía um dos sistemas tributários mais complexos e onerosos do mundo, o vizinho construía um dos mais simples e competitivos da América Latina. Um atraía capital. O outro expulsava.
O resultado está nos números: 263 mil brasileiros do outro lado da fronteira, 200 empresas que preferiram produzir lá, e uma taxa de crescimento que faz o PIB brasileiro parecer tímido.
O Brasil não perdeu brasileiros e empresas para o Paraguai por acaso. Perdeu porque construiu, ao longo de décadas, um ambiente onde ficar custa mais do que sair. Enquanto não mudar isso, a fronteira vai continuar sendo cruzada — e o Brasil vai continuar ficando do lado que perde.
Fontes:Gazeta do Povo — Com menos impostos, Paraguai está se tornando destino ideal para indústrias (ago/2025); Gizmodo Brasil — Brasileiros fogem para o Paraguai: impostos baixos e futuro melhor atraem mais de 263 mil pessoas (out/2025); O Contribuinte — 17.139 brasileiros obtiveram residência no Paraguai em 2024 (60,21% do total); 10 jornadas de regularização migratória, 36.148 documentos emitidos (out/2025); Gazeta News — Mais de 200 empresas brasileiras operam no Paraguai; Lei 15.270/2025 reinstaurou tributação de dividendos no Brasil (dez/2025); Renova Invest — Paraguai: crescimento de 5,3% em 2025 contra 2,3% do Brasil; diferença de carga tributária: 14% do PIB (Paraguai) vs. ~34% do PIB (Brasil); residência temporária em 1,5 a 4 meses (jan/2026); Rota Bioceânica — 70% das exportações do Paraguai para o Brasil são resultado da maquila; energia industrial: 39 USD/MWh no Paraguai vs. 123 USD/MWh no Brasil; 30 mil estudantes brasileiros em universidades paraguaias (dez/2025); Heritage Foundation — Paraguai com pontuação 96/100 em liberdade econômica, maior da América Latina; Arrecadação brasileira 2024: R$ 2,7 trilhões, alta de 10% (Receita Federal).