O Brasil Não Está Ficando Mais Seguro. A Violência Só Mudou de Endereço
As capitais festejaram os números. As facções foram para onde não há câmera, nem delegacia, nem manchete — e o interior do Brasil aprendeu o que é ter medo.
Iris de Oliveira · 04 de mai. de 2026
Em Tabatinga, cidade amazônica na tríplice fronteira com Peru e Colômbia, o Comando Vermelho consolidou seu domínio em 2024. Não com estardalhaço — com rotina. A facção define quem vende, quem passa, quem fica e quem sai. Os moradores sabem quais ruas não cruzar depois de certa hora. As crianças sabem quais perguntas não fazer. A taxa média de homicídios entre 2022 e 2024 foi de 57,6 por 100 mil habitantes — quase três vezes a média nacional.
Tabatinga não aparece nas manchetes sobre violência no Brasil. Não tem o peso simbólico do Rio de Janeiro nem a visibilidade de São Paulo. É uma cidade de 70 mil habitantes às margens do Solimões. Lá, uma mãe que vende açaí na beira do porto sabe de cor quais dias não vale abrir a barraca — os dias em que as facções resolvem disputas na beira do rio. Ela não leu nenhum relatório. Aprendeu vivendo.
Esse é o Brasil que os números nacionais não mostram.A violência que se deslocou — sem desaparecer
O Brasil registrou queda de 6,3% nos homicídios dolosos em 2024, totalizando 35.365 mortes. A trajetória de redução é real e vem desde 2018. Capitais como Fortaleza, São Luís, Goiânia, Cuiabá e o Distrito Federal reduziram suas taxas em mais de 60% entre 2013 e 2023. O governo celebrou, e tinha razão em parte.
O Atlas da Violência 2025, elaborado pelo Ipea em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, nomeia o que esse número esconde: a violência não recuou — ela se deslocou. As capitais ficaram mais seguras porque as facções foram para outro lugar, cidades médias e municípios do interior onde a presença do Estado é mais frágil e onde cada disputa territorial é decidida na ponta de uma arma.
O que o Brasil está vivendo não é uma vitória sobre o crime organizado. É uma vitória sobre uma fotografia velha da violência — enquanto o álbum inteiro ficou de fora do quadro.
330 mil habitantes. Taxa três vezes a média nacional.
Os 20 municípios mais violentos do Brasil em 2023 tinham, em média, 330 mil habitantes. Não são metrópoles — são cidades médias com estrutura policial limitada, judiciário sobrecarregado e poucos recursos para enfrentar organizações que chegaram antes das políticas públicas.
A taxa média de homicídios nesses 20 municípios foi de 65,4 por 100 mil habitantes, contra 22 da média nacional. Para ter dimensão: entre os 20 municípios mais seguros do país — taxa de 3,8 por 100 mil — e os mais violentos, a diferença é de 17 vezes. Maior do que a distância entre o Brasil e a Europa nesse indicador.
Nas cidades médias brasileiras, com população entre 100 mil e 500 mil habitantes, a taxa média chegou a 24,2 por 100 mil — superando as grandes metrópoles, que ficaram em 23,6. O interior ultrapassou as capitais em letalidade. Pernambuco abriga pelo menos 12 facções em conflito permanente. No Amazonas, 40% dos municípios têm presença confirmada de grupos criminosos organizados.
O Solimões, o garimpo e a fronteira que o mapa oficial não mostra
O rio Solimões é a principal rota do tráfico de cocaína no Brasil. A droga sai do Peru e da Colômbia, percorre os afluentes em lanchas rápidas, submersíveis e embarcações regionais e chega aos portos de Manaus, Santarém, Belém e Macapá, de onde segue para a Europa e para o mercado interno. A Polícia Federal apreendeu 118 toneladas de cocaína na Amazônia entre 2019 e 2024 — alta de 84,8% no período. São toneladas apreendidas. O que passou sem ser interceptado não tem estimativa confiável.
No total, 17 facções operam na Amazônia Legal — entre elas grupos colombianos e o Trem de Aragua, da Venezuela. O Comando Vermelho domina 202 municípios e disputa outros 84, com controle das rotas fluviais. O PCC foca na internacionalização: usa pistas clandestinas em garimpos e corredores oceânicos via Suriname para chegar à Europa. Não é improviso. É logística.
O garimpo ilegal entrou nesse sistema não como acidente, mas como estratégia. Mensagens obtidas por reportagem mostram o Comando Vermelho impondo cobranças mensais a garimpeiros no norte do Mato Grosso. Quem usa balsa paga. Quem usa equipamento de grande porte paga mais. Em pelo menos três municípios do Amazonas — Humaitá, Lábrea e Manicoré — facções operam com foco específico em crimes ambientais, financiando suas operações com ouro extraído ilegalmente de rios que contaminam com mercúrio.
O crime ambiental e o crime organizado são o mesmo crime. Praticamente todas as terras indígenas amazônicas registram atuação criminosa na exploração do garimpo ilegal. O que mata o peixe e o rio também financia quem mata o morador.
Quando a facção chega, o Estado ainda está a caminho
Quando as facções chegam a um município pequeno, chegam com velocidade e com proposta. Oferecem renda a jovens sem emprego, proteção a comerciantes sem segurança, justiça paralela a comunidades sem acesso ao Judiciário. Não é sedução irracional — é uma oferta concreta num lugar onde o Estado é ausente ou ineficiente.
A Amazônia Legal registrou 8.047 mortes violentas intencionais em 2024, taxa de 27,3 por 100 mil habitantes — 31% acima da média nacional. O Amapá lidera o ranking regional com 45,1 por 100 mil. Estados com extensões territoriais imensas, fronteiras porosas e infraestrutura policial que não acompanha a expansão do crime organizado.
O Atlas da Violência 2025 documenta um fenômeno que vai além da violência física: a infiltração do crime organizado na gestão pública. Contratos municipais, licitações, cargos em prefeituras — as organizações aprenderam que controlar o poder local é mais eficiente do que disputá-lo com balas. Em municípios onde a única instituição presente é a que deveria ser combatida, esse controle se consolida sem resistência e praticamente sem registro.
O número que o governo comemora e o que ele não diz
Quando o Mapa da Segurança Pública anuncia queda de 6,3% nos homicídios nacionais em 2024, está dizendo a verdade. São 2.389 pessoas que não morreram e que teriam morrido com a taxa anterior. Cada vida importa, e esse resultado é fruto de políticas que funcionaram.
O que o percentual não diz é para onde a redução se concentrou. A Região Norte registrou queda de 16,44% em 2024 — o maior número do país. Mas a Amazônia Legal, que cobre boa parte do Norte, registrou taxa 31% acima da média nacional no mesmo período. Uma queda percentual sobre uma base altíssima ainda resulta em altíssimo. Partir de 35 e cair 10% chega a 31 — que continua sendo o dobro da média.
O crime organizado opera em horizonte de longo prazo. As facções não desaparecem quando o indicador melhora num ano — consolidam estruturas, diversificam fontes de renda e infiltram o poder público. Quando a pressão diminui, avançam. O que está acontecendo no interior do Brasil não é uma crise episódica que o próximo plano de segurança vai resolver. É uma ocupação em curso.
A capital ficou mais segura. Mas e o interior?
Fortaleza ficou mais segura. São Luís ficou mais segura. Goiânia ficou mais segura. São conquistas reais, resultado de políticas que funcionaram e merecem reconhecimento.
Mas o jovem de Tabatinga, o garimpeiro de Humaitá, o comerciante de uma cidade média do interior nordestino — eles não estão num país mais seguro. Estão num país onde a violência trocou de CEP e foi morar mais perto deles, num lugar sem câmera, sem equipe especializada e sem repórter para contar o que acontece toda noite.
A redução dos homicídios nas capitais é uma vitória. Que ela não vire desculpa para não enxergar o que está acontecendo a 800 quilômetros de Brasília — onde as facções chegaram antes do Estado, se instalaram com mais eficiência do que qualquer política pública e cobram, todo mês, o preço de uma soberania que o Brasil ainda não decidiu defender de verdade.
Fontes: Ipea/FBSP — Atlas da Violência 2025: Retrato dos municípios brasileiros e dinâmica regional do crime organizado (nov/2025): capitais com queda >60% (2013-2023); 20 municípios mais violentos: média 330 mil hab., taxa 65,4/100 mil; cidades médias (24,2) superam grandes (23,6); FBSP — Cartografias da Violência na Amazônia 2025 (nov/2025): 40% dos municípios do Amazonas com facções; CV domina 202 municípios, PCC em 90; 8.047 mortes na Amazônia Legal em 2024, taxa 27,3/100 mil (+31% acima da média nacional); Amapá 45,1/100 mil; Tabatinga: taxa média 57,6/100 mil (2022-2024); 17 facções na Amazônia Legal; 118 toneladas de cocaína apreendidas na Amazônia 2019-2024 (+84,8%); Ministério da Justiça — Mapa da Segurança Pública 2025: 35.365 homicídios dolosos em 2024 (-6,3%); Norte -16,44%; CenárioMT/FBSP — Mensagens do CV a garimpeiros de Alta Floresta (MT): cobranças mensais por equipamento (nov/2025); Agência Brasil/FBSP — Pernambuco: 12 facções em conflito; crimes ambientais como estratégia de financiamento em Humaitá, Lábrea e Manicoré (AM).