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COLUNA | EDUCAÇÃO & SOCIEDADE

A Profissão que Fabrica Todas as Outras — e É Tratada Como se Fosse a Menos Importante

O médico que te atende foi formado por um professor. O engenheiro que construiu a ponte, o advogado que defende seus direitos, o juiz que decide seu processo — todos passaram pela mão de um professor. E o professor que formou todos eles ganha menos do que todos eles

Iris de Oliveira · 28 de abr. de 2026
A Profissão que Fabrica Todas as Outras — e É Tratada Como se Fosse a Menos Importante

Dona Márcia tem 52 anos e dá aula há 27. Português no ensino fundamental, numa escola pública. Chega às 7h, sai às 17h — quando não leva correção de prova para casa. Nos fins de semana, prepara aula. Nas férias de julho, faz formação. Tem pós-graduação. Conhece cada aluno pelo nome, pela história, pelo jeito de aprender.

Seu salário: R$ 5.130.

Na mesma cidade, o funcionário recém-concursado de uma autarquia federal com ensino médio completo começa com R$ 5.200. O técnico de informática da prefeitura, R$ 4.800. O inspetor de rendas do estado, R$ 6.400. Nenhum deles precisou de cinco anos de licenciatura, de estágio supervisionado, de TCC, de pós-graduação para entrar.

Dona Márcia formou, nos 27 anos de carreira, mais de dois mil alunos. Entre eles, com certeza, alguns médicos, alguns advogados, alguns engenheiros, alguns servidores públicos que hoje ganham mais do que ela. Ela não sabe quais. Eles provavelmente não lembram que ela foi quem os ensinou a ler.

O que o Brasil escolheu — e o que isso custa

Nenhuma outra profissão existe sem o professor. O médico, o engenheiro, o juiz, o grande empresário que comanda indústrias e movimenta a economia aprendeu a ler, a escrever e a raciocinar com alguma professora do ensino fundamental cujo nome provavelmente esqueceu.

É a única profissão que o Brasil remunera como se fosse dispensável.

Em 2026, o piso nacional do magistério público foi reajustado para R$ 5.130,63 mensais para quarenta horas semanais — um aumento real de 1,5% acima da inflação. É um avanço. Mas o piso é o mínimo legal, não a realidade média. E quando se olha para a carreira completa, a defasagem aparece com clareza: um advogado com dez anos de experiência ganha em média R$ 12 mil. Um engenheiro pleno, entre R$ 9 mil e R$ 15 mil. Um médico de carreira, entre R$ 15 mil e R$ 30 mil. O professor com a mesma experiência e pós-graduação, entre R$ 6 mil e R$ 9 mil — dependendo do estado e da rede. Não é início de carreira versus início de carreira. É vida inteira versus vida inteira.

O relatório Global Report on Teachers da UNESCO de 2024 é direto: o Brasil está entre os países com os piores salários para professores do mundo. Os docentes brasileiros recebem, em média, 40% menos do que outros profissionais com diploma de ensino superior equivalente. Quarenta por cento.

Os números de uma crise que já chegou ao limite

Mais de 150 mil professores brasileiros estão afastados das salas de aula por questões de saúde mental — depressão, ansiedade, burnout. O número cresceu nos últimos anos à medida que as condições pioraram: turmas maiores, violência nas escolas, salários defasados, cobranças crescentes, desprestígio social e a sensação de que a sociedade exige tudo e oferece pouco em troca.

A consequência mais preocupante não é o presente — é o futuro. O Censo da Educação Superior de 2022 revelou que 58% dos estudantes de licenciatura abandonam o curso antes de se formar. É a maior taxa de desistência da última década. Jovens que escolheram ser professores estão desistindo no meio do caminho — não por falta de vocação, mas por lucidez sobre o que os espera.

O Instituto Semesp projeta um déficit de 235 mil professores na educação básica até 2040.

Não é previsão distante. É o resultado matemático da equação atual: pouca gente quer entrar na carreira, muita gente está saindo antes do tempo, e o país não está fazendo nada estrutural suficiente para reverter essa conta.

Apenas 12 estados brasileiros pagam integralmente o piso nacional aos seus professores. Nos demais, o valor legal existe no papel — e não chega ao contracheque. Em municípios menores, professores relatam ter medo de denunciar o descumprimento por receio de retaliação em cidades onde as relações de poder são verticalizadas e o empregador público é o único empregador disponível.

Quando a carreira que forma todas as outras começa a se esvaziar por falta de atratividade, o problema deixa de ser da educação. Passa a ser de tudo que depende dela — ou seja, de tudo.

O que o salário não paga — e ninguém contabiliza

A jornada oficial do professor é de quarenta horas semanais. A jornada real é outra. Correção de provas e trabalhos acontece em casa, à noite, no fim de semana. Planejamento de aula consome tempo que não existe dentro do horário escolar. Reunião com pais, conselho de classe, preenchimento de formulários, relatórios pedagógicos — tudo fora da aula, muitas vezes fora do horário.

E existe o peso que não tem horário nenhum: o de carregar a responsabilidade de formar pessoas. De identificar a criança que está sendo negligenciada em casa. De perceber o adolescente que está entrando para o tráfico. De segurar uma sala de trinta alunos com realidades completamente diferentes e fazer com que todos aprendam ao mesmo tempo. De ser, para muitos desses alunos, a única referência adulta estável que existe na vida deles.

Nenhum outro profissional de nível superior carrega essa combinação de responsabilidade técnica, emocional e social com a remuneração que o professor recebe. Ele opera com a matéria-prima mais complexa que existe — o ser humano em formação — muitas vezes sozinho, sem suporte, sem reconhecimento.

Um professor que trabalha vinte e sete anos como dona Márcia, formando mais de dois mil alunos, contribui para a sociedade de uma forma que nenhum índice econômico consegue calcular. O PIB não mede o médico que aprendeu a curar com ela. A Previdência não registra o engenheiro que construiu a ponte porque ela ensinou fração. O Judiciário não anota o juiz que foi justo porque ela ensinou o que é argumento.

O que os países que valorizam o professor têm de diferente

Não é coincidência que os países com melhor desempenho educacional no mundo sejam os mesmos que melhor remuneram e mais socialmente valorizam seus professores.

Na Finlândia, referência mundial em educação, a docência é a carreira mais disputada entre os jovens — mais do que medicina e direito. Para entrar num curso de licenciatura, o candidato passa por um processo seletivo mais rigoroso do que para medicina. Professores finlandeses estão entre os profissionais mais respeitados socialmente e mais bem remunerados relativamente. O resultado é que o país tem os melhores índices de aprendizado do mundo.

Em Singapura, professores ganham salários equivalentes aos de engenheiros e são recrutados no topo das turmas universitárias. A premissa é simples: se você quer educação de qualidade, precisa atrair os melhores para a educação. E para atrair os melhores, precisa oferecer o que os melhores buscam — remuneração, prestígio e condições de trabalho dignas.

O Brasil faz o oposto. Remunera mal, oferece condições precárias, expõe professores à violência física e simbólica nas escolas, e ainda assim espera que a educação pública funcione. É como plantar sem adubar e cobrar colheita.

O que acontece com um país que desvaloriza quem o forma

A desvalorização do professor não é só uma injustiça com uma categoria profissional. É uma escolha civilizatória — consciente ou não — sobre que tipo de país o Brasil quer ser.

Um país que não atrai os melhores para a docência vai ter médicos formados por professores que não eram os melhores. Engenheiros formados por quem não era a primeira opção de ninguém. Juízes, parlamentares, gestores públicos — todos formados por uma educação que não recebeu o que precisava para ser boa.

A conta chega. Demora, mas chega. E quando chega, o custo não é só educacional — é econômico, é social, é político. Países com educação fraca produzem menos, inovam menos, têm democracias mais frágeis e desigualdades mais profundas. Não é teoria. É o que a história de cada nação que apostou ou deixou de apostar na educação mostra com clareza.

O que dona Márcia merece ouvir

Dona Márcia vai chegar na escola amanhã às 7h. Vai conhecer cada aluno pelo nome. Vai tentar fazer com que uma sala heterogênea, com crianças de realidades completamente diferentes, aprenda a mesma coisa ao mesmo tempo. Vai corrigir prova à noite. Vai planejar aula no fim de semana.

Vai fazer isso por R$ 5.130 por mês — o piso nacional, quando ele é pago. Enquanto isso, alguns dos alunos que ela formou ganham o dobro, o triplo, o quádruplo disso. Sem saber que parte do que eles sabem, eles aprenderam com ela.

Toda profissão que existe neste país passou pela mão de um professor. Toda. E o Brasil decidiu — não em decreto, mas em orçamento, em piso, em prestígio — que essa mão vale menos do que tudo que ela construiu.


 Fontes: MEC/MP 1.334/2026 — Piso salarial nacional do magistério 2026: R$ 5.130,63 para 40h semanais, reajuste de 5,4%, ganho real de 1,5% acima do INPC de 2025 (jan/2026); UNESCO — Global Report on Teachers 2024: Brasil entre os piores salários docentes do mundo; professores brasileiros recebem em média 40% menos que outros profissionais com ensino superior; Inep/Censo da Educação Superior 2022 — taxa de abandono nos cursos de licenciatura: 58%, maior da última década (CartaCapital, jan/2024); Instituto Semesp — projeção de déficit de 235 mil professores na educação básica até 2040; Ancora1 — mais de 150 mil professores afastados por depressão e burnout (ago/2025); Dieese (2024) — apenas 12 estados pagam integralmente o piso nacional do magistério; Inep — dados do Inep mostram que em 2024 professores da rede pública recebem em média 86% do salário de profissionais com escolaridade equivalente; Nace/Estadão — professor ganha menos da metade da remuneração de advogados, médicos e engenheiros (nov/2024); OCDE — Brasil entre os últimos no ranking de remuneração docente em relação a outros profissionais com formação equivalente.