O Agro Alimenta o Mundo — Mas Ninguém Pergunta o que Come o Produtor
29,4% do PIB. US$ 169 bilhões em exportações. E uma taxa de suicídio quase duas vezes maior que a média nacional. O campo que sustenta o Brasil carrega em silêncio um peso que os números das supersafras não mostram.
Iris de Oliveira · 27 de abr. de 2026
Meu sogro cria gado e planta café em Costa Marques, em Rondônia. Toda semana, ele acompanha o dólar. Acompanha o clima. Acompanha o preço da arroba do boi e a cotação do café no mercado. Acompanha notícias da guerra no Oriente Médio — não por interesse geopolítico, mas porque qualquer instabilidade naquela região afeta rotas de exportação, encarece fertilizantes e pressiona o câmbio que define quanto vai valer o que ele produz aqui, a 12 mil quilômetros de distância, na fazenda dele.
Ele não controla nenhuma dessas variáveis. Ele planta, cria, trabalha — e torce.
Essa é a realidade de milhões de produtores rurais brasileiros que sustentam um dos maiores agronegócios do mundo. O mesmo campo que gerou US$ 169 bilhões em exportações em 2025 e respondeu por quase um terço do crescimento do PIB brasileiro no ano também é o campo onde a taxa de suicídio é quase o dobro da média nacional. Onde 45% dos produtores estão endividados. Onde 35% sofreram depressão em 2024.
Ninguém conta essa parte do "Agro é pop, agro é tech, agro é tudo".
O agro que o Brasil conhece — e celebra
Os números são reais e merecem ser ditos. Em 2025, o PIB da agropecuária cresceu 11,7% — o segundo maior resultado histórico — e respondeu por aproximadamente um terço de toda a expansão econômica do país. Sem o campo, o Brasil teria crescido 1,5% em vez de 2,3%. O agronegócio, considerando toda a sua cadeia, chegou a 29,4% do PIB.
Nas exportações, o setor bateu mais um recorde: US$ 169 bilhões em 2025, equivalente a 48,5% de tudo que o Brasil vendeu ao mundo. Soja, carne, café, milho, algodão — produtos que saem do interior de Rondônia, do Mato Grosso, do Paraná e chegam à mesa de consumidores na China, na Europa e no Oriente Médio. O Brasil é hoje um dos maiores produtores de alimentos do planeta. E o campo brasileiro fez isso acontecer.
Esse reconhecimento é justo. O que não é justo é parar nele.
O agro pop que aparece nas campanhas e nos noticiários é o agro das máquinas modernas, das supersafras e dos recordes de exportação. Esse agro existe — e é genuíno. O que também existe, e quase não aparece, é o produtor que acorda antes do sol com uma dívida no extrato bancário, um olho no céu e outro no dólar.
O produtor que não controla nada — exceto o próprio esforço
Produzir no campo brasileiro é operar num ambiente de risco permanente e multidirecional. Não existe outro setor da economia onde o resultado de um ano inteiro de trabalho dependa simultaneamente do clima, do câmbio, do preço de commodities negociado em Chicago, das tarifas americanas, da política de fertilizantes da Rússia e da situação geopolítica do Oriente Médio.
Quando a guerra na Ucrânia eclodiu em 2022, o preço dos fertilizantes disparou no mundo inteiro — porque a Rússia e a Bielorrússia respondem por parte significativa da produção global de potássio e nitrogênio. O produtor de Costa Marques não causou a guerra. Não votou em nenhum dos líderes envolvidos. Mas pagou o aumento no insumo que precisava para plantar.
Quando os Estados Unidos anunciam tarifas sobre produtos importados, o dólar oscila e o custo dos equipamentos agrícolas — a maioria importada ou com componentes importados — sobe junto. Quando a China desacelera a economia, a demanda por soja cai e o preço recua. Quando o El Niño prolonga a seca ou o La Niña traz chuva demais na hora errada, a safra vai pelo ralo.
O produtor absorve tudo isso. Depois vai ao banco, renegocia a dívida e planta de novo. É o que fazem. É o que sempre fizeram. O que os números não mostram é o custo humano dessa resiliência.
A dívida que não aparece nos recordes de exportação
Enquanto o agronegócio batia recordes de exportação, as recuperações judiciais no setor cresceram 138% em 2024 — e quase 350% entre produtores rurais pessoa física. São agricultores que chegaram ao limite financeiro e precisaram recorrer à Justiça para não perder tudo.
Cerca de 45% dos produtores rurais brasileiros estão endividados, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil. Sessenta por cento dos financiamentos rurais se concentram em pequenos e médios produtores — os mais vulneráveis à volatilidade de preços e às adversidades climáticas, e os que têm menos reserva para absorver um ano ruim.
A estrutura do problema é clara: o produtor toma crédito para custear a safra antes de plantar. Planta. Espera. Se o clima cooperar, se o preço da commodity não cair, se o câmbio não for desfavorável, se nenhuma praga aparecer — ele colhe, vende e paga. Se qualquer uma dessas variáveis falhar, a dívida fica. E a próxima safra começa com o endividamento do ano anterior como lastro.
A dívida não é apenas um número no extrato. Ela se transforma em ansiedade, em noites sem dormir, em vergonha — porque parte da cultura do campo ainda associa dívida a fracasso pessoal, quando na verdade ela frequentemente é o resultado de variáveis que o produtor nunca teve como controlar.
O silêncio que o campo carrega — e os números que ele esconde
57%.
Esse é o percentual de produtores rurais brasileiros que já vivenciaram ansiedade, segundo dados de 2024. Não é uma estimativa imprecisa — é um número que deveria estar em toda discussão sobre o agronegócio brasileiro.
35% sofreram depressão em 2024. 43% relatam níveis altos de estresse crônico. 25% afirmaram, nos últimos 12 meses, que "não valia a pena viver". Um em cada quatro.
A taxa de suicídio entre produtores rurais é de 20,5 por 100 mil habitantes — quase o dobro da média nacional, segundo estudo do Instituto de Saúde Coletiva. Em Caicó, no Rio Grande do Norte, 12,4% dos agricultores pesquisados relataram ideação suicida. Um em cada oito.
Homens rurais com menor escolaridade são o grupo mais vulnerável de toda a população brasileira em termos de risco de suicídio — mais do que qualquer outra faixa demográfica. E o acesso a tratamento psicológico no campo é escasso. O CAPS mais próximo pode estar a horas de distância. O estigma cultural que associa saúde mental à fraqueza ainda é forte. Muitos carregam sozinhos o que ninguém deveria carregar sozinho.
Pesquisas ainda apontam que a exposição prolongada a agrotóxicos está associada a sintomas depressivos e aumento do risco de comportamento suicida — um fator de risco ocupacional que se soma ao financeiro e ao climático, e que raramente entra no debate sobre regulação do uso de defensivos agrícolas.
O que o "Agro é pop" deixou de fora
A campanha "Agro é pop, agro é tech, agro é tudo" foi eficiente em comunicar o que o campo produz. Não comunicou o que o campo custa — para quem produz.
O produtor rural que sustenta 29,4% do PIB brasileiro não tem garantia de renda mínima. Não tem o equivalente de um salário quando a safra vai mal. Não tem a estabilidade de um servidor público nem a proteção trabalhista de um empregado CLT. Assumiu o risco de produzir, e quando a conta não fecha, a conta é inteiramente dele.
Políticas públicas de saúde mental no campo existem, mas chegam a uma fração de quem precisa. O Pronaf financia a produção, mas não o suporte psicológico de quem produz. A Emater orienta tecnicamente, mas não tem estrutura para acompanhar o estado emocional de produtores que chegam ao limite. E o mercado, que celebra os recordes de exportação, não tem nenhuma obrigação de carregar o custo humano do risco que os produtores assumem para viabilizá-los.
O campo que precisa ser visto inteiro
Meu sogro em Costa Marques vai continuar acompanhando o dólar, o clima, a cotação do café e o preço da arroba. Vai olhar para o céu antes de decidir quando vacinar o gado, vai acompanhar a florada do café com a esperança de quem sabe o quanto uma geada fora de hora pode custar. É a realidade da profissão que escolheu, que herdou, que ama. Ele não reclama disso. Mas carrega.
O Brasil precisa olhar para o seu campo com a mesma atenção que dedica às supersafras. Reconhecer o agro que exporta é necessário. Reconhecer o agro que adoece é urgente. O produtor que alimenta o mundo merece mais do que aplausos na época do recorde.
Agro é pop. Agro é tech. Agro é tudo. Mas antes de tudo, agro é gente — com dívida, com ansiedade, com safra perdida, com noite sem dormir, com um olho no céu e outro na cotação. Reconhecer isso não diminui o setor. É a única forma de fortalecê-lo de verdade.
Se você é produtor rural ou conhece alguém no campo que está passando por dificuldades emocionais, o CVV — Centro de Valorização da Vida atende 24 horas pelo telefone 188 (gratuito) e pelo chat em cvv.org.br. O CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) do seu município também oferece atendimento gratuito em saúde mental.
Fontes: CNA/Cepea — PIB do agronegócio cresceu 11,7% em 2025; participação de 29,4% do PIB; agropecuária respondeu por um terço do crescimento do PIB brasileiro em 2025 (CNA, mar/2026); CNN Brasil — Exportações do agronegócio somaram US$ 169 bilhões em 2025, 48,5% de todas as exportações brasileiras (jan/2026); Broto Notícias — Saúde mental no campo: 35% dos produtores com depressão, 57% com ansiedade, 25% sentiram que não valia a pena viver, 43% com estresse alto (Augusto Cury, nov/2025); CompreRural / Jornal Berrante do Agro — Taxa de suicídio no campo: 20,5 por 100 mil habitantes, quase o dobro da média nacional; 12,4% dos agricultores de Caicó com ideação suicida; recuperações judiciais no agronegócio +138% em 2024, quase +350% entre produtores rurais pessoa física (abr/2025); CNA (2022) — 45% dos produtores rurais brasileiros endividados; 60% dos financiamentos para pequenos e médios produtores; Portal do Agronegócio — Oriente Médio responde por 15,13% das exportações de Mato Grosso; Irã maior comprador do milho brasileiro em 2025 com 9 milhões de toneladas; Farmnews / CaféPoint — Exposição a agrotóxicos associada a risco de comportamento suicida (estudos Unochapecó e UFABC/FAPESP).