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COLUNA | GESTÃO PÚBLICA & ECONOMIA

363 Anos de História. R$ 8,5 Bilhões de Prejuízo

Os Correios sobreviveram ao Império, à República, à ditadura e a duas guerras mundiais. Não conseguiram sobreviver ao e-mail — e agora enfrentam o algoritmo da Shopee.

Iris de Oliveira · 25 de abr. de 2026
363 Anos de História. R$ 8,5 Bilhões de Prejuízo

O carteiro de Maués, no Amazonas, entrega encomendas de canoa. São quatro horas remando até a comunidade mais próxima. Em 1663, quando o primeiro Correio-Mor saiu às ruas do Brasil colonial, essa era a única forma de fazer uma mensagem chegar — pelo esforço humano, contra o tempo, contra a distância. Hoje, enquanto o carteiro rema, um algoritmo da Shopee calcula em segundos a rota mais barata para entregar o mesmo pacote.

Os Correios sobreviveram ao Império, à República, à Era Vargas, à ditadura militar e a duas guerras mundiais. Por três séculos e meio, foram a única forma que o brasileiro tinha de enviar uma mensagem, um documento ou um pacote para outro canto do país. Não estão conseguindo sobreviver ao algoritmo.

Na quinta-feira, 23 de abril de 2026, os Correios divulgaram o balanço de 2025.

Prejuízo de R$ 8,5 bilhões.

O 14º trimestre consecutivo de resultado negativo. A empresa mais antiga em funcionamento no Brasil — mais velha do que o próprio país — está tecnicamente insolvente, com patrimônio líquido negativo de R$ 13,1 bilhões.

Como uma empresa que teve o monopólio por mais de três séculos chegou a esse ponto? A resposta não é simples — mas é possível contar.

Quatro anos, quatro prejuízos — cada um maior que o anterior

Os números falam por si, mas precisam ser colocados em sequência para revelar a gravidade da trajetória:

Em 2022, prejuízo de R$ 809 milhões. Em 2023, R$ 597 milhões — menor, mas ainda negativo. Em 2024, R$ 2,6 bilhões — quase cinco vezes o resultado anterior. Em 2025, R$ 8,5 bilhões — mais de três vezes o resultado de 2024.

Não é uma empresa em crise passageira. É uma empresa em queda livre estrutural, onde cada ano que passa o rombo é maior e as soluções de curto prazo — como o empréstimo emergencial de R$ 12 bilhões fechado em dezembro de 2025 com um consórcio de bancos públicos e privados, com garantia da União — compram tempo sem resolver o problema de fundo.

Em quatro anos, os Correios acumularam mais de R$ 12,5 bilhões em prejuízos. O governo federal, que garante as dívidas da estatal, coloca o contribuinte como avalista de uma empresa que não consegue pagar as próprias contas.

O que realmente destruiu a receita dos Correios

Existem três causas principais para o colapso financeiro — e elas se reforçam mutuamente, criando o ciclo vicioso que o próprio presidente da empresa, Emmanoel Rondon, descreveu publicamente: "A dificuldade de caixa gera dificuldade de pagamento ao fornecedor, isso afeta a operação. Ao afetar a operação, a gente macula a capacidade de gerar novos contratos."

A primeira causa é a desmaterialização da carta. Durante décadas, a principal fonte de receita dos Correios foi a correspondência física — cartas, contas, boletos, documentos. O e-mail, o WhatsApp, o internet banking e a nota fiscal eletrônica varreram esse mercado em menos de vinte anos. Uma empresa que por séculos tinha demanda garantida viu seu produto principal deixar de existir na prática.

A segunda causa é a guerra das encomendas — e ela foi perdida. O crescimento do e-commerce parecia uma oportunidade para compensar a queda das cartas. E foi, por algum tempo. Mas as grandes plataformas — Mercado Livre, Amazon, Shopee, Shein — construíram suas próprias redes logísticas. Quando a tributação sobre importações de baixo valor mudou em 2024, o volume de encomendas internacionais nos Correios despencou 66% em um único ano. Só essa queda explica a maior parte da redução de R$ 17,3 bilhões na receita bruta de 2025 — 11,35% menor que em 2024.

A terceira causa é o passivo judicial acumulado. Em 2025, R$ 6,4 bilhões do prejuízo total vieram de precatórios e provisões para ações trabalhistas — principalmente disputas sobre adicional de periculosidade e adicional de distribuição externa que tramitam há anos na Justiça. Esse é o custo de décadas de gestão que deixou litígios se acumulando sem resolução.

O presidente dos Correios resume a armadilha estrutural: "A estrutura de custo é muito rígida, ancorada em despesas fixas. Quando há queda de receita, não se consegue diminuir a despesa no mesmo momento." Em outras palavras: a receita caiu, mas a folha de pagamento, os imóveis e os contratos continuam. E o rombo cresce.

Uma estrutura gigante para um mundo que mudou

Os Correios são o maior empregador do Brasil, com mais de 100 mil funcionários entre efetivos e terceirizados. Estão presentes em todos os 5.570 municípios do país — incluindo os mais remotos da Amazônia, do Pantanal e do sertão nordestino, onde nenhuma empresa privada de logística tem interesse em operar.

Essa capilaridade é ao mesmo tempo o maior ativo e o maior peso da empresa. É um ativo porque garante inclusão logística para cidadãos que de outra forma não teriam como receber ou enviar nada. É um peso porque manter 5.570 pontos de atendimento custa muito, independentemente do volume de movimento em cada um.

Nos dois últimos Planos de Demissão Voluntária — em 2024 e 2026 — cerca de 7 mil funcionários aceitaram sair. A empresa estima redução de custos de até 40% com pessoal nas áreas afetadas. É uma medida necessária, mas insuficiente para fechar um rombo de R$ 8,5 bilhões num único ano.

O dilema dos Correios é o dilema de qualquer empresa pública com obrigação de universalidade: o mercado privado atende onde é lucrativo. O serviço público atende onde é necessário. Essas duas lógicas custam dinheiro diferente — e o modelo atual não tem mais como sustentar as duas ao mesmo tempo.

O plano de reestruturação — e o que ainda falta responder

O governo federal autorizou os Correios a captar até R$ 20 bilhões em novos empréstimos com garantia da União. Os R$ 12 bilhões já contratados em dezembro cobriram despesas emergenciais. Um novo empréstimo de R$ 8 bilhões deve ser negociado no primeiro semestre de 2026.

A empresa apresentou um plano de reestruturação em três fases: captação de recursos para estabilizar o caixa, modernização da operação e revisão do modelo de negócio com novas fontes de receita. Inclui investimento em logística para o agronegócio, expansão dos serviços financeiros via Banco Postal, e aposta em contratos governamentais — como a distribuição de documentos e o transporte de provas de concursos.

O que o plano ainda não responde com clareza: qual é o modelo de negócio de longo prazo para uma empresa postal num mundo onde cartas não existem mais e as encomendas são entregues por frotas próprias dos marketplaces? A reestruturação financeira compra tempo. A resposta estratégica ainda não veio.

O que está em jogo além do balanço

Os Correios não são apenas uma empresa. São infraestrutura — como estrada, como energia elétrica, como saneamento. Para os 5.570 municípios que atende, para os aposentados do interior que recebem benefícios pelo serviço, para os pequenos empreendedores que dependem da entrega postal para funcionar, para as comunidades rurais que só têm os Correios como elo com o restante do país — a viabilidade da estatal é uma questão de inclusão, não só de gestão.

É por isso que o debate sobre o futuro dos Correios não pode ser reduzido a "privatizar ou não privatizar". Empresa privada não vai manter agência em município com 3 mil habitantes no Amazonas se não der lucro. Mas a estatal atual, no modelo em que opera, também não consegue mais se sustentar.

O que está em jogo é encontrar um modelo que preserve o que o mercado privado nunca vai oferecer — a cobertura universal — sem manter uma estrutura de custos que a receita já não consegue pagar.

363 anos e uma pergunta sem resposta

Em 1663, o primeiro Correio-Mor saiu às ruas de uma colônia portuguesa para entregar correspondências numa terra que nem país era ainda. Desde então, a empresa atravessou tudo que o Brasil atravessou — e sempre chegou do outro lado.

O desafio atual é diferente dos anteriores. Não é uma guerra, não é uma crise econômica, não é uma mudança de regime. É uma transformação tecnológica que tornou o produto principal da empresa obsoleto e transferiu o mercado substituto para plataformas que têm capital e algoritmo suficientes para construir logística própria.

363 anos de história não garantem mais 363 anos de futuro. Nenhuma empresa sobrevive indefinidamente fazendo a mesma coisa que sempre fez num mundo que mudou. Os Correios precisam decidir o que querem ser — e o governo precisa decidir quanto está disposto a pagar para que sejam. O balanço de 2025 não é só um número. É um prazo.


 Fontes: Interior da Bahia / Imirante / Folha BV / Diário do Grande ABC — Correios fecham 2025 com prejuízo de R$ 8,5 bilhões; 14º trimestre consecutivo de prejuízo; patrimônio líquido negativo de R$ 13,1 bilhões (23/abr/2026); Correios — Linha do Tempo institucional: criação do Correio-Mor em 25/jan/1663; Imirante.com — Entrevista com presidente Emmanoel Rondon sobre ciclo vicioso de caixa (abr/2026); Diário do Grande ABC — Prejuízo de R$ 8,5 bi impulsionado por R$ 6,4 bi em precatórios judiciais, queda de 66% em encomendas internacionais, receita bruta de R$ 17,3 bi (-11,35%); Brasil Perfil — Contrato de empréstimo de R$ 12 bilhões com Itaú, Bradesco, Santander, BB e CEF, garantia da União, validade até 2040; CMN autoriza novo empréstimo de R$ 8 bilhões; PDV 2026: 3.181 adesões, expectativa de redução de 40% nos custos de pessoal; Série histórica: prejuízo R$ 809 mi (2022), R$ 597 mi (2023), R$ 2,6 bi (2024), R$ 8,5 bi (2025).