O SUS que Você Defende Não É o Mesmo que Você Usa
Para 160 milhões de brasileiros sem plano, o SUS não é pauta política — é a única porta disponível. Defendê-lo com sinceridade exige conhecer a fila, não só o slogan.
Iris de Oliveira · 24 de abr. de 2026
A influenciadora postou "Viva o SUS" com uma foto linda e uma legenda emocionante. No mesmo dia, a dona de casa acordou às 4h para pegar a fila da consulta com ortopedista — uma consulta que espera há oito meses, com a coluna comprimindo um nervo. A influenciadora tem plano de saúde. A dona de casa não.
É bonito defender o SUS. O SUS salva — todo dia, em vacinações em massa, em partos, em emergências. Isso é verdade e merece ser dito.
Mas quem defende com mais volume costuma ter consulta marcada para a semana que vem. Acesso ao especialista sem fila. Exame com resultado em dias. Usa o SUS como argumento — e o plano privado como realidade.
Isso não é hipocrisia de má-fé. É o problema mais difícil de admitir numa discussão sobre saúde pública: é possível defender o SUS com sinceridade e nunca ter precisado sentar naquela fila. E quem nunca sentou naquela fila não sabe o que está defendendo — ou não está defendendo tudo.
A fila que não aparece no post
Em 2024, o tempo médio de espera por consultas no SUS atingiu um recorde histórico: 57 dias. Para cirurgias eletivas — procedimentos que não são emergência, mas que doem, limitam e adoecem quem espera — o tempo médio chegou a 634 dias.
634 dias.
Quase dois anos esperando uma cirurgia que o médico já disse que é necessária.
A fila de espera por cirurgias no SUS cresceu 26% em 2024 em relação a 2023 — mesmo depois de o governo federal ter lançado, em 2023, o Programa Nacional de Redução das Filas. Hoje, mais de 1,3 milhão de brasileiros aguardam um procedimento cirúrgico. São Paulo e Minas Gerais, os dois estados mais populosos do país, concentram mais de 600 mil desses pacientes.
Esses números têm endereço concreto. São a dona de casa que espera consulta com ortopedista há oito meses com a coluna comprimindo um nervo. O aposentado com catarata avançando nos dois olhos que aguarda cirurgia há um ano e meio. A criança com problema cardíaco congênito cujos pais foram informados que a fila para o especialista pediátrico tem prazo indeterminado.
A fila não é uma abstração estatística. É uma pessoa específica, com uma dor específica, esperando uma data que pode ou não chegar. Defender o SUS sem falar dessa fila é defender uma versão incompleta de uma realidade inteira.
Quem realmente depende do SUS — e quem defende de longe
75% dos brasileiros não têm plano de saúde. São 160 milhões de pessoas que dependem exclusivamente do sistema público para qualquer necessidade de saúde — da consulta de rotina ao tratamento oncológico. Não têm outra opção. Não têm reserva financeira para pagar uma consulta particular de R$ 300 ou um exame de imagem de R$ 600 por conta própria.
Para essas 160 milhões de pessoas, o SUS não é pauta política. É a única porta disponível. E quando essa porta demora 57 dias para abrir para uma consulta, ou 634 dias para uma cirurgia, o custo não é ideológico — é físico. É a dor que continua. É o trabalho que se perde. É a doença que avança enquanto a fila não anda.
Os 25% que têm plano de saúde — e que com frequência protagonizam o debate público sobre o sistema — têm uma relação diferente com o SUS. Usam quando convém: na UPA de emergência, na vacina gratuita, no tratamento de alto custo que o plano não cobre. O SUS funciona como rede de segurança complementar para quem já tem outra rede. Para quem não tem outra rede, ele é tudo.
Quem defende o SUS com plano na carteira não está errado em defendê-lo. Está errado em achar que conhece o SUS que defende.
O que o SUS é — de verdade
O SUS é uma conquista real. Está na Constituição de 1988 como direito universal — saúde como dever do Estado, não como mercadoria. É o maior sistema de saúde pública do mundo em cobertura de vacinação. Faz mais de 250 milhões de atendimentos por ano. Realiza 95% dos transplantes de órgãos do país e distribui gratuitamente medicamentos para HIV, câncer, diabetes e doenças raras que custariam fortunas no mercado privado. O Farmácia Popular atendeu mais de 4 milhões de pessoas em 2024.
Tudo isso é real e merece reconhecimento sem reservas. O problema não é defender o SUS. É defendê-lo como se estivesse funcionando plenamente para todos — quando a evidência concreta diz que não está.
34% da população brasileira ainda não está coberta pela Estratégia Saúde da Família — a atenção básica que deveria ser a porta de entrada do sistema. São 72 milhões de pessoas sem acesso regular a uma equipe de saúde de referência. Desses, 33 milhões também não têm plano privado. Estão, na prática, descobertos.
O SUS que existe no papel e nos princípios é uma das maiores ideias já concebidas sobre saúde pública no mundo. O SUS que existe na fila de 634 dias ainda está longe disso. Honrar o primeiro exige falar sobre o segundo.
O problema que a hashtag não resolve
O Brasil gasta menos de 4% do PIB com saúde pública — menos que a média dos países da OCDE, menos que vizinhos latino-americanos como a Argentina e o Uruguai, e muito menos do que o necessário para cumprir o que a Constituição promete. Para comparação, o Judiciário brasileiro gasta sozinho 1,3% do PIB.
O SUS foi criado com a promessa de que seria financiado de forma adequada. Essa promessa nunca foi cumprida inteiramente. Em 2015, a Emenda Constitucional 95 — a do teto de gastos — congelou por 20 anos os investimentos federais em saúde em termos reais. O resultado aparece na fila de 634 dias, nas UPAs superlotadas, nos hospitais sem equipamento, nos municípios sem médico especialista.
Defender o SUS sem defender o financiamento adequado do SUS é defender a ideia sem defender a condição para que ela exista. A hashtag não paga a conta do hospital. O post não contrata o médico que falta. A legenda emocionante não reduz a fila.
O que uma defesa honesta do SUS exige
Defender o SUS de verdade não é postar uma foto. É exigir que o orçamento federal de saúde seja suficiente para atender 160 milhões de pessoas que não têm outra opção. É cobrar transparência sobre as filas — algo que o Congresso ainda discute em projeto de lei, quando deveria ser obrigação básica há décadas. É reconhecer que o sistema tem falhas estruturais que nenhuma narrativa resolve, e que a solução exige investimento, gestão e responsabilização — não apenas defesa retórica.
Isso também significa reconhecer o que funciona. O SUS que vacinou o Brasil contra a Covid-19 numa velocidade que países ricos não conseguiram replicar. O SUS que distribui antirretrovirais e salvou gerações de pacientes com HIV. O SUS que realiza transplantes complexos gratuitamente quando outros países cobram fortunas. Essa parte também é real — e também merece ser dita.
Entre o SUS que existe e o SUS que deveria existir
A dona de casa com a coluna comprimida, o aposentado com catarata nos dois olhos, a criança com o problema cardíaco — eles não precisam de post. Eles precisam de consulta, de cirurgia, de especialista. Precisam que o sistema em que depositaram a única esperança que têm funcione.
Eles não estão pedindo para acabar com o SUS. Estão pedindo para que quem o defende em voz alta também o exija com força — orçamento, estrutura, fila transparente, prazo real.
"Viva o SUS" é um slogan fácil. Exigir que o SUS funcione para quem não tem outra opção é mais difícil — e é a única defesa que faz diferença para quem está esperando há 634 dias.
Fontes: Portal Tela / O Globo — Fila no SUS atinge recorde de espera de até dois anos para consultas e cirurgias; tempo médio de 57 dias para consultas e 634 dias para cirurgias em 2024 (mar/2025); Fehosp / Jornal Nacional — Fila de espera por cirurgias no SUS cresceu 26% em 2024; mais de 1,3 milhão de brasileiros aguardam cirurgias eletivas (2025); ANS — Planos de saúde fecham 2024 com 52,2 milhões de beneficiários (25% da população); 75% dos brasileiros sem plano dependem exclusivamente do SUS; IEPS — 34% da população (72,69 milhões) sem cobertura da Estratégia Saúde da Família; 33,3 milhões também sem plano privado (2024); Ministério da Saúde — SUS realiza 95% dos transplantes no Brasil; programa Agora Tem Especialistas: planos de saúde convertem dívidas em atendimentos ao SUS (ago/2025); Senado Federal — PL 418/2024: projeto de lei para divulgação mensal de dados sobre filas e tempo de espera nas cirurgias do SUS (nov/2025).