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COLUNA | POLÍTICA & SOCIEDADE

A Camiseta que Você Veste Sem Ler a Etiqueta

Direita e esquerda viraram identidade antes de virar ideia. E quando o rótulo vem antes do argumento, o que sobra não é política — é torcida.

Iris de Oliveira · 23 de abr. de 2026
A Camiseta que Você Veste Sem Ler a Etiqueta

Jantar de família. Alguém levanta a voz: 'Eu sou de direita, graças a Deus.' Do outro lado da mesa, o silêncio constrangido de quem discorda mas não quer brigar. A sobremesa chega, o assunto muda — e ninguém perguntou o que aquela frase realmente significa.

Essa cena se repete no Brasil inteiro. Nos grupos de WhatsApp, nas redes sociais, nas filas de banco, nos corredores do trabalho. Pessoas que se declaram de direita ou de esquerda com a mesma convicção com que torcem para um time de futebol — sem necessariamente saber o que cada campo defende, onde cada posição se originou e por que deveriam concordar com tudo o que o seu 'lado' diz.

O problema não é ter convicção política. É vestir a camiseta antes de ler a etiqueta.

A tarde em que os nomes nasceram

Era setembro de 1789. A Revolução Francesa estava em curso e a Assembleia Nacional Constituinte precisava decidir o futuro da monarquia. Os deputados que apoiavam o rei e a ordem estabelecida sentaram-se à direita do presidente da mesa. Os que defendiam a república e as reformas sentaram-se à esquerda.

Foi um acidente de sala. Uma disposição física que virou metáfora política e dura até hoje — 236 anos depois, do outro lado do Atlântico, em jantares de família onde ninguém nunca ouviu falar da Assembleia Nacional Constituinte francesa.

Desde então, os termos viajaram pelo mundo, mudaram de conteúdo inúmeras vezes, foram esticados e encolhidos conforme o contexto exigia. O que era direita na França de 1789 é diferente do que se chama de direita no Brasil de 2026. O que era esquerda na URSS de 1917 pouco tem a ver com o que se entende por esquerda na Alemanha de hoje. Os rótulos sobreviveram. As ideias dentro deles se transformaram tanto que, em muitos casos, a embalagem ficou — e o conteúdo é outro.

O que cada campo defende — em linguagem direta

Há diferenças reais entre as duas visões de mundo. Elas têm raízes filosóficas concretas e se traduzem em políticas distintas. Vale entender — com a ressalva de que cada campo abriga correntes variadas e às vezes contraditórias entre si. O que descrevo abaixo é o eixo central, não a totalidade.

A direita, em sua vertente mais clássica, desconfia do Estado como organizador da vida econômica e social. Mérito individual, liberdade de mercado e preservação de valores tradicionais tendem a ser centrais. No Brasil concreto, esse campo costuma defender a reforma da Previdência como necessidade fiscal, resistir às cotas raciais em universidades por considerar que o critério deveria ser social e não racial, apoiar o armamento civil como direito individual e defender o Marco Temporal como proteção à segurança jurídica das propriedades rurais.

A esquerda parte de premissa diferente: o ponto de partida não é igual para todos, e cabe ao Estado corrigir essas desigualdades. Redistribuição de renda, políticas sociais e proteção de grupos historicamente marginalizados são os eixos. No Brasil concreto, esse campo tende a defender as cotas como reparação histórica, opor-se ao Marco Temporal por entender que ele enfraquece direitos indígenas, questionar a reforma da Previdência por seu impacto sobre trabalhadores de menor renda e ser contrário ao armamento civil.

Essas posições não são arbitrárias. Cada uma delas tem argumento. O problema não é que existam — é quando alguém as defende sem saber por quê, apenas porque é o que 'o seu lado' defende.

A diferença entre ter convicção política e ter rótulo político é simples: quem tem convicção consegue explicar o argumento. Quem tem rótulo apenas repete a posição.

Os números que desafiam a polarização

Em 2024, o DataSenado entrevistou 21.808 brasileiros. O resultado contradiz a narrativa de polarização total: 40% não se identificam com nenhum espectro político. Somados ao centro, representam a maioria do eleitorado.

Mais revelador ainda: o Datafolha de dezembro de 2025 mostrou que 22% dos que se dizem de direita votaram em Lula. E 9% dos que se dizem de esquerda votaram em Bolsonaro. O rótulo e o voto — a escolha mais concreta que um cidadão faz — frequentemente não coincidem.

O cientista político Rafael Machado explica por quê: 'Boa parte do eleitorado que elegeu Bolsonaro é o mesmo que elegeu Dilma e Lula duas vezes. A questão sempre foi a pauta que agenciou cada eleição — não a ideologia.' O mesmo eleitor, a mesma cabeça, o mesmo endereço. O rótulo que mudou, não a pessoa.

O que acontece quando a camiseta vem antes da ideia

Quando o rótulo precede a convicção, o debate político perde função. Em vez de servir para trocar argumentos e chegar a decisões melhores, vira ritual de confirmação: cada lado busca informações que reforcem o que já acredita, descarta o que vem do lado oposto e trata a discordância como traição.

O resultado prático é que alguém pode se dizer 'de direita' e defender monopólio estatal quando convém ao seu candidato — contradizendo o princípio liberal central do seu campo. Outro pode se dizer 'de esquerda' e aplaudir censura quando ela atinge o adversário — contradizendo a tradição histórica de liberdade de expressão que marcou movimentos progressistas. Nenhum dos dois percebe a incoerência. Porque o argumento nunca foi o ponto de partida.

Isso não é problema só de quem está nos extremos. É um padrão amplo — e alimentado por quem tem interesse em manter o debate no nível do time, não da ideia. Político que vive de torcida não precisa de programa. Precisa de adversário.

A pergunta que o jantar não fez

Direita e esquerda são ferramentas de leitura política — não uniformes de guerra. Elas ajudam a organizar posições sobre o papel do Estado, do mercado, da liberdade individual e da igualdade coletiva. Mas nenhuma das duas tem resposta certa para tudo. E qualquer pessoa que diga que tem está confundindo convicção com certeza.

O eleitor que sabe o que os termos significam tem uma vantagem concreta: pode discordar da própria 'tribo' quando ela errar. Pode reconhecer uma boa política mesmo quando vem do lado oposto. Pode cobrar coerência de quem representa seus princípios — em vez de defender automaticamente quem usa a mesma cor.

No próximo jantar de família, quando alguém declarar o time com orgulho, a pergunta mais útil não é quem está certo. É: o que você quer dizer com isso? O que você defende, concretamente, quando diz essa frase? A resposta — ou a ausência dela — vai dizer mais sobre o estado da nossa política do que qualquer pesquisa de intenção de voto.


 Fontes: DataSenado — Pesquisa Panorama Político 2024 (21.808 entrevistados, jun/2024): 40% não se identificam com nenhum espectro, 29% direita, 15% esquerda; Senado Notícias — Pesquisa DataSenado revela que maioria da população não está polarizada (set/2024); CartaCapital — Datafolha: 35% dos brasileiros se identificam com a direita e 22% com a esquerda; 22% dos que se dizem de direita votaram em Lula, 9% dos que se dizem de esquerda votaram em Bolsonaro (dez/2025); Agência Brasil — Brasileiros priorizam líderes a categorias políticas (out/2024), com citação do cientista político Rafael Machado Madeira (PUCRS); Politize — Esquerda e direita: o que dizem história e teoria.