A Meritocracia Existe — Mas Não da Forma que Te Contaram
O esforço é real. O mérito é real. O problema é fingir que todo mundo começa da mesma linha de largada.
Iris de Oliveira · 22 de abr. de 2026
Nem todo esforço pesa igual. E quase ninguém admite isso.
Meu tio Geremias começou a trabalhar antes de terminar de crescer. Não tinha escola boa por perto, não tinha tempo sobrando, não tinha ninguém para abrir portas. Tinha disposição — e a decisão de não deixar que a falta de oportunidade virasse desculpa. Estudou no que podia, quando podia. Enquanto outros dormiam, ele lia. Chegou onde chegou não porque o caminho estava aberto — mas porque insistiu num caminho que quase não existia.
A história do Geremias é real. E é inspiradora.
Também é verdade que para cada Geremias que chegou lá, há dezenas com o mesmo talento e o mesmo esforço que não chegaram. Não porque desistiram. Porque o sistema que deveria facilitar a travessia fez o caminho mais longo, mais estreito e mais escuro do que precisava ser.
Essas duas verdades precisam existir juntas. Qualquer debate honesto sobre meritocracia começa por aí.
O que meritocracia significa — antes de virar arma de debate
Meritocracia, na sua definição mais simples, é o princípio de que as pessoas devem ser recompensadas pelo que produzem, pelo esforço que empregam e pelo resultado que entregam — e não pelo sobrenome que carregam ou pelos contatos que têm. Nesse sentido, é uma ideia justa.
O problema não é o mérito. É o terreno onde ele é medido.
Imagine uma corrida de 100 metros onde metade dos corredores começa 30 metros atrás. As regras são iguais para todos. O resultado, não. Quem vencer vai refletir, em grande parte, a posição de largada — não o mérito. Aplicar meritocracia sobre uma base desigual não produz justiça. Produz a aparência de justiça.
Meritocracia funciona quando aplicada sobre uma base de oportunidades mínimas compartilhadas. Quando essa base não existe, o que se chama de mérito é, em parte, sorte de berço.
O que os números dizem — e o que eles significam
Um estudo do Grupo de Avaliação de Políticas Públicas da UFPE, com base em 1,3 milhão de brasileiros nascidos entre 1988 e 1990, mapeou a mobilidade social do país com precisão. O resultado: filhos de pais entre os 20% mais pobres têm 46,1% de chance de permanecer nesse grupo quando adultos.
Apenas 2,5% chegam ao topo em uma única geração.
Em outras palavras: quase ninguém sai do lugar.
Para comparação: nos Estados Unidos, essa chance é de 7,5%. Na Itália, 11,2%. Na Suécia, 15,7%. No Brasil, se a distribuição de renda fosse uma escada de 100 degraus, uma família que começa no degrau 25 levaria, em média, sete gerações para chegar ao degrau 75.
Sete gerações.
Isso não é mobilidade — é travamento social.
E não é um estudo isolado. O Atlas da Mobilidade Social do Instituto IMDS confirma: menos de 2% das crianças da metade mais pobre chegam aos 10% mais ricos na vida adulta. "O esforço não significa sucesso", resume o economista Breno Sampaio, da UFPE. "Somos uma sociedade bastante desigual em termos de oportunidade." Não está dizendo que esforço não importa. Está dizendo que esforço sozinho, sem oportunidade mínima, não rompe o ciclo.
A escola que não nivela — e a corrida que começa torta
A escola deveria ser o grande equalizador — o espaço onde o filho do trabalhador rural e o filho do executivo teriam as mesmas ferramentas para competir. No Brasil, é quase o oposto.
Os jovens de 18 a 24 anos do quinto mais rico da população têm 63,2% de frequência no ensino superior. Os do quinto mais pobre: 7,4%. Não é diferença de esforço. É diferença de estrutura — de escola, de livro, de tempo para estudar, de barriga cheia antes da prova.
Quando dois jovens com o mesmo talento fazem o mesmo vestibular — um vindo de escola particular com laboratório, professor bem pago e turma reduzida; outro de escola pública sucateada com professor mal remunerado e turma superlotada — o resultado não mede o mérito de cada um. Mede o investimento que a sociedade fez em cada um.
Tratar desiguais como iguais não corrige injustiça — disfarça. E o Geremias que venceu não venceu porque o sistema foi justo. Venceu apesar de o sistema ser injusto — e isso é muito diferente.
Os dois erros que travam o debate
Dois campos opostos cometem erros simétricos — e fazem com que a conversa nunca avance.
O primeiro erro é o da meritocracia ingênua: acreditar que o sucesso é sempre resultado de esforço, e que quem não chegou lá não se esforçou o suficiente. Esse raciocínio ignora os dados, ignora a estrutura e culpa o indivíduo por um sistema que não foi construído para ele.
O segundo erro é o oposto: negar qualquer valor ao esforço individual, tratar o sucesso como produto exclusivo de privilégio e desconsiderar que existem pessoas que, como o Geremias, constroem trajetórias extraordinárias a partir de pontos de partida muito desfavoráveis. Esse raciocínio desrespeita quem lutou — e também não é verdadeiro.
A versão honesta reconhece os dois lados. O esforço importa. Mas o esforço num sistema desigual produz resultados desiguais mesmo para pessoas igualmente esforçadas. O Geremias que chegou merece reconhecimento. Os outros Geremias que não chegaram — com o mesmo talento e o mesmo suor — também são reais. E o que separou os dois não foi o mérito.
O que uma meritocracia real exigiria
Uma meritocracia real não é aquela onde todos têm as mesmas regras. É aquela onde todos têm as mesmas condições mínimas para competir. Escola pública de qualidade equivalente à privada. Saúde que não depende do CEP. Acesso à informação que não depende de quanto os pais ganharam.
Isso não é socialismo. É o que países com alta mobilidade social constroem com décadas de investimento consistente. Na Suécia, onde 15,7% dos filhos pobres chegam ao topo, o mérito é mais real — porque a base de onde cada um parte é menos desigual. Eles não eliminaram o mérito. Tornaram o terreno mais nivelado.
No Brasil, defender meritocracia sem defender igualdade de condições de partida é defender um sistema que beneficia quem já está na frente — e chamar isso de justiça.
O que o Geremias ensina — e o que o sistema ainda deve
Meu tio Geremias é a prova de que o esforço move. De que o talento não desaparece por falta de berço. De que é possível atravessar obstáculos que o sistema não deveria ter colocado no caminho.
Mas ele também é a prova de que o caminho era mais árduo do que precisava ser. Que para cada Geremias que cruzou a linha, muitos ficaram no meio — não por falta de mérito, mas por falta de oportunidade.
O jogo não é justo — e chamar isso de mérito não muda o placar.
Fontes: UFPE/GAPPE — Estudo de mobilidade social com 1,3 milhão de brasileiros nascidos entre 1988 e 1990 (Diogo Britto, Alexandre Fonseca, Paolo Pinotti, Breno Sampaio e Lucas Warwar): filhos dos 20% mais pobres têm 46,1% de chance de permanecer no grupo; 2,5% chegam ao topo em uma geração; família no degrau 25 leva 7 gerações para chegar ao degrau 75; Instituto IMDS — Atlas da Mobilidade Social 2025: menos de 2% das crianças da metade mais pobre chegam aos 10% mais ricos; 10,8% dos jovens dos 50% mais pobres alcançam os 25% mais ricos; Comparativo internacional: EUA 7,5%, Itália 11,2%, Suécia 15,7% (UFPE/GAPPE); IBGE/Síntese de Indicadores Sociais: jovens de 18 a 24 anos do quinto mais rico com 63,2% no ensino superior vs. 7,4% do quinto mais pobre.