Inimigo Declarado: o Dia que os EUA Miraram no PCC e no CV – e Brasil Disse Não
A iminente classificação americana das duas maiores facções brasileiras como organização terroristas ameaça a soberania do pais — e expõe a realidade brutal de milhões que já vivem sob lei própria do crime.
Iris de Oliveira · 12 de mar. de 2026Em uma favela do Norte do Rio de Janeiro, um morador não sai de casa depois das 20h sem pedir autorização ao traficante local. Em um bairro periférico de São Paulo, o dono de uma padaria paga taxa semanal para continuar abrindo as portas. Em uma cidade do interior do Nordeste, o prefeito divide poder com um representante do Primeiro Comando da Capital. Esses não são casos isolados. São a realidade cotidiana de um Brasil que os jornais raramente mostram com essa clareza.
E é justamente sobre esse Brasil que Washington decidiu se pronunciar. As equipes técnicas do governo dos Estados Unidos concluíram os trabalhos para designar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras — a mesma classificação usada para grupos como o Estado Islâmico e o Hamas. A decisão, que aguarda apenas a chancela política de Donald Trump, gerou uma crise diplomática imediata: o chanceler Mauro Vieira ligou emergencialmente para o secretário de Estado Marco Rubio; a Polícia Federal recusou sequer receber a delegação americana que veio a Brasília para tratar do assunto; e o governo Lula declarou, em uníssono, que não seguirá o mesmo caminho.
Mas por trás do jogo diplomático, existe uma questão que nenhum dos lados quer responder com clareza: o que muda — para melhor ou para pior — na vida de quem já vive há décadas sob o governo paralelo dessas facções?
O que os EUA querem — e o que podem fazer
A designação como Organização Terrorista Estrangeira (FTO, na sigla em inglês) não é apenas um rótulo. É uma ferramenta jurídica com consequências concretas e imediatas. Quando um grupo recebe essa classificação, torna-se crime nos Estados Unidos oferecer qualquer tipo de apoio material à organização — financiamento, treinamento, equipamentos ou serviços. Ativos financeiros são bloqueados, transações internacionais proibidas e membros podem ter vistos negados ou ser deportados de qualquer país parceiro.
Mas o aspecto mais delicado — e que mantém Brasília em estado de alerta — é outro: ao classificar as operações do PCC e do CV como alvos terroristas, os EUA abrem, legalmente, a possibilidade de ações militares em território estrangeiro. Não é especulação. É o que aconteceu: após a designação do Cartel de los Soles venezuelano como organização terrorista, forças americanas realizaram um ataque de grande escala contra a Venezuela e sequestraram o presidente Nicolás Maduro. Desde julho de 2025, os EUA bombardeiam embarcações na costa venezuelana sob o pretexto de combate ao narcotráfico.
O Brasil não é a Venezuela. Mas o precedente existe, e o governo brasileiro sabe disso melhor do que ninguém.
O que muda com a designação terrorista — efeitos jurídicos imediatos
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Medida |
Impacto |
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Bloqueio de ativos financeiros |
Contas e bens do PCC/CV no exterior congelados |
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Proibição de apoio material |
Crime nos EUA financiar, treinar ou equipar as facções |
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Restrição de vistos e imigração |
Membros podem ser deportados ou barrados nos EUA |
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Isolamento financeiro global |
Dificuldade de lavagem de dinheiro no sistema internacional |
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Autorização para ação militar |
Bases e operações tornam-se alvos legítimos do Pentágono |
Por que o Brasil recusa — e quem quer o contrário
O governo Lula apresenta dois argumentos centrais para recusar a classificação. O primeiro é técnico-jurídico: o terrorismo, na legislação brasileira e no direito internacional, pressupõe motivação ideológica ou política. O PCC e o CV são organizações criminosas movidas por lucro — não por uma pauta política ou religiosa. O ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski foi categórico ao afirmar que fazer essa mescla dificultaria o próprio combate ao crime, distorcendo instrumentos legais criados para finalidades distintas.
O segundo argumento é geopolítico: a classificação abriria precedente para interferência estrangeira em operações de segurança pública brasileira — algo que Brasília considera inaceitável, independentemente do governo. O temor não é abstrato. Especialistas ouvidos pelo governo apontam que a intensificação da troca de inteligência com os EUA tornaria o Brasil mais vulnerável a interesses estratégicos norte-americanos, especialmente no contexto da disputa com a China pela influência na América Latina.
Do outro lado, a pressão pela classificação não vem só de Washington. Internamente, a pauta foi abraçada pelo bolsonarismo como bandeira política. Flávio Bolsonaro sugeriu publicamente a necessidade de ação americana em território nacional. Eduardo Bolsonaro articulou nos bastidores para incentivar a classificação junto ao governo Trump. O governo de Cláudio Castro, no Rio de Janeiro, enviou um dossiê à Casa Branca com detalhes sobre as facções. E o ex-diretor da Abin, Alexandre Ramagem — condenado por participação em trama golpista e foragido nos EUA desde setembro de 2025 — é apontado como possível fonte de informações repassadas ao governo americano.
O tema de segurança pública virou, assim, mais um campo de batalha da polarização brasileira — com consequências reais para milhões de pessoas que nada têm a ver com essa disputa.
O Brasil que já vive sob outro governo
Enquanto diplomatas trocam notas e senadores fazem discursos, entre 28 milhões e 61 milhões de brasileiros vivem uma realidade que dispensa qualquer debate semântico sobre terrorismo. Pesquisa da Universidade de Cambridge, publicada em agosto de 2025 na revista Perspectives on Politics, estimou que algo entre 25% e 30% da população nacional habita territórios onde prevalece — total ou parcialmente — a lei das facções.
Nessas áreas, o cotidiano funciona por regras que nenhum código penal previu. Toque de recolher imposto pelos traficantes. Proibição de chamar a polícia — sob pena de morte. Pagamento obrigatório de taxa de proteção para comerciantes. Monopólio da internet, do gás de cozinha e do transporte alternativo cobrado pelas próprias facções. Julgamentos paralelos — os chamados 'tribunais do crime' — que decidem sobre disputas, punições e execuções sem qualquer participação do Estado. Cemitérios clandestinos que fazem com que pesquisadores do IPEA estimem que até 6 mil mortes por ano sequer apareçam nas estatísticas oficiais.
O PCC e o CV atuam de formas distintas, mas igualmente sufocantes. O PCC opera de maneira quase invisível nas ruas — focado no tráfico internacional de cocaína para Europa e Ásia, com estrutura empresarial sofisticada presente em 22 dos 27 estados brasileiros. Já o CV aposta no controle territorial direto: nas favelas do Rio e em cidades do Norte e Nordeste, a facção governa a rotina — monopoliza serviços, impõe horários e decide quem entra e quem sai. Só na região metropolitana do Rio, quase 3 milhões de pessoas vivem em territórios sob hegemonia do Comando Vermelho.
O Brasil é o país com o maior índice de população sob domínio do crime organizado em toda a América Latina — pior do que México, Colômbia e El Salvador. Esse é o dado que os debates diplomáticos insistem em não colocar no centro.
O que muda para quem vive sob essas facções
Para quem vive sob domínio do PCC ou do CV, a classificação americana pode trazer tanto esperança quanto terror — dependendo de como os eventos se desdobrarem. Do lado positivo, a designação terrorista dificultaria significativamente o acesso das facções ao sistema financeiro internacional, complicando a lavagem de dinheiro e o financiamento externo. O bloqueio de ativos poderia reduzir o fluxo de armas — muitas delas provenientes dos próprios EUA — que abastecem o armamento pesado visto em favelas brasileiras.
Do lado negativo — e os especialistas são quase unânimes aqui — a perspectiva é sombria. A designação terrorista historicamente provoca endurecimento das organizações atingidas, não seu enfraquecimento imediato. O risco de acirramento da violência nas comunidades dominadas é real: facções pressionadas por fora tendem a apertar ainda mais o controle interno sobre as populações que dominam. E se qualquer ação militar americana se concretizasse em solo brasileiro — algo que o próprio governo descarta, mas que o precedente venezuelano torna menos improvável —, seriam essas comunidades as primeiras a pagar o preço.
A pessoa que hoje não pode sair de casa depois das 20h sem permissão não precisa de um rótulo americano para saber que vive sob terror. O que ela precisa é do Estado brasileiro — e esse, sistematicamente, tem chegado tarde, chegado armado ou simplesmente não chegado.
Geopolítica do crime: por que os EUA querem mesmo isso
Seria ingênuo acreditar que Washington está movida exclusivamente por preocupação com a segurança dos moradores de favelas brasileiras. Os documentos National Security Strategy (novembro de 2025) e National Defense Strategy (janeiro de 2026) do governo Trump são explícitos: o objetivo estratégico dos EUA na América Latina é retirar a influência da China do continente. O Brasil, maior economia da região e principal parceiro comercial de Pequim na América do Sul, é um alvo óbvio dessa pressão.
A classificação do PCC e do CV como terroristas serviria, portanto, a dois propósitos simultâneos: aumentar a pressão sobre o governo Lula — que tem mantido aproximação com a China — e criar um instrumento jurídico que justifique a presença e a influência americana na segurança interna brasileira. O terrorismo, como já observaram analistas de relações internacionais, é um termo elástico, historicamente empregado de acordo com os interesses próprios de quem o define.
Nesse cenário, o debate sobre nomenclatura jurídica esconde o que realmente está em jogo: quem decide como o Brasil combate seu próprio crime — e a serviço de quais interesses.
Conclusão: o problema real não está em Washington
Chamar o PCC e o CV de terroristas ou de criminosos não muda um milímetro a realidade de quem vive sob seu domínio. O que muda essa realidade é a presença efetiva do Estado — com escola, saúde, emprego, segurança pública competente e sistemas judiciais que funcionem. O Brasil tem um número crescente de facções: eram 37 em 2019 e chegaram a 88 em 2024 — um crescimento de 237% em cinco anos. Esse dado não é produto de Washington, de Moscou ou de Pequim. É produto do abandono histórico das periferias brasileiras.
O governo brasileiro tem razão ao resistir a interferências externas que ameaçam a soberania nacional. Mas essa resistência será vazia se não vier acompanhada de uma resposta interna à altura do problema. Não se combate um Estado paralelo que governa entre 28 e 61 milhões de pessoas com operações pontuais, discursos de soberania e disputas semânticas sobre o conceito de terrorismo.
Enquanto o Brasil e os EUA discutem o nome do problema, o problema continua governando favelas, impondo toques de recolher, executando dissidentes e enterrando suas vítimas longe das estatísticas oficiais. Esse é o debate que o país precisa ter — antes que alguém de fora decida tê-lo por nós.
Fontes: ICL Notícias – reportagem exclusiva sobre a iminente designação do PCC e CV como terroristas pelo governo dos EUA (mar/2026); Brasil de Fato – análise sobre soberania e risco de intervenção (mar/2026); Metrópoles – posição do governo Lula e argumentos jurídicos do ex-ministro Lewandowski (out/2025); Infomoney/UOL – detalhes da legislação americana de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO); Gazeta do Povo – estratégias do PCC e CV e dados sobre controle territorial (fev–mar/2026); CNN Brasil – Mapa Histórico dos Grupos Armados, GENI/UFF e Instituto Fogo Cruzado (dez/2025); Agência Brasil – dados de controle territorial no Grande Rio (nov/2025); Gazeta do Povo – levantamento sobre brasileiros sob domínio de facções (jan/2026); Perspectives on Politics (Universidade de Cambridge) – estudo sobre governança criminal na América Latina (ago/2025); IPEA – estimativa de mortes não registradas em territórios de facções; Fórum Brasileiro de Segurança Pública – Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024; Secretaria Nacional de Políticas Penitenciárias (Senapen/MJ) – Relatório de Inteligência sobre facções no Brasil (dez/2024). Artigo de opinião com base em dados e fatos públicos verificados.