Quando o Jornal Diz que a Inflação Baixou… Mas o Carrinho do Mercado Diz Outra Coisa
O governo anuncia 4,26%. Você chega no caixa e sente outra coisa. Os dois estão certos — mas ninguém está contando a história inteira.
Iris de Oliveira · 17 de abr. de 2026Você vai no mercado com R$ 200 na carteira, como sempre. Volta com as mesmas coisas de sempre — e R$ 35 a menos no bolso. Em casa, liga a televisão e escuta: 'Inflação fechou em 4,26%, a menor em sete anos!'
Aí você olha para a sacola e pensa:
De que país eles estão falando?
Não estão mentindo. Mas também não estão explicando o suficiente. E a diferença entre o número do jornal e o peso que você sente na carteira tem uma razão precisa — que ninguém traduz em linguagem humana.
A média que esconde os extremos
O IPCA é calculado pelo IBGE sobre uma cesta de produtos — alimentação, energia, aluguel, transporte, saúde, educação. O número final é uma média ponderada de tudo isso.
Pense numa turma de dez alunos. Nove tiraram zero na prova. Um tirou dez. A média da turma é 1. Nenhum aluno tirou 1. O número é matematicamente correto — e não descreve a realidade de nenhum aluno.
A inflação oficial funciona de forma parecida. Quando o governo diz 4,26%, está dizendo que a média ponderada de tudo que você consome subiu 4,26%. Alguns produtos subiram muito mais. Outros caíram. O número mistura tudo e entrega um único valor que representa o conjunto — mas não representa a sua vida específica.
A inflação que você sente não é a média. É a inflação dos produtos que você compra, com a frequência que você compra. E esses produtos nem sempre se comportam como a média.
Os números que você sentiu — e o jornal não mostrou
Em 2024, enquanto o IPCA oficial ficou em 4,83%, a inflação do grupo alimentação e bebidas foi de 7,69%. As carnes subiram 20,84%. O café moído subiu 39,60%. O leite longa vida subiu 18,83%.
Você que toma café todo dia sentiu isso na prática: o pacote que custava R$ 12 chegou a R$ 16,50. São R$ 4,50 a mais por mês só no café da manhã da família. Enquanto isso, o arroz caiu de preço em 2025 — mas para a família que já comprava o mínimo possível, a queda do arroz não compensou a conta de luz.
Em 2025, quando o IPCA fechou em 4,26%, a energia elétrica subiu 12,31%. O aluguel subiu 6,06%. O plano de saúde subiu 6,42%. O lanche fora de casa subiu 11,35%. O café moído subiu mais 35,65%.
Esses números são todos do IBGE — a mesma fonte que calcula o IPCA oficial. Eles não contradizem o 4,26%. Fazem parte do cálculo. O que acontece é que quando o arroz cai muito e o café sobe muito, a média entre os dois fica em algo que não descreve nem quem bebe café nem quem come arroz.
Dois brasileiros, dois países
Uma manicure em Porto Velho trabalha dez horas por dia, seis dias por semana. Nos últimos dois anos, a conta de energia da casa subiu duas vezes. Hoje ela desliga o ventilador à noite para economizar — mesmo no calor de 34 graus que faz em Rondônia em setembro. O governo diz que a inflação está baixa. Para ela, a inflação mora dentro de casa, na conta de luz que ela paga todo mês e que subiu 12% enquanto sua renda não subiu nada perto disso.
Um servidor público de Cacoal recebeu reajuste de 4% no salário em 2025. A inflação oficial foi de 4,26% — ele tecnicamente perdeu para a inflação. Mas dentro desses 4,26%, o aluguel do apartamento dele subiu 6%, o plano de saúde da família subiu 6,4% e a escola dos filhos subiu 6,5%. O dinheiro que chegou na conta no início do mês foi embora mais rápido do que no mês anterior — mesmo com o 'aumento'.
Nenhum dos dois está errado quando diz que a vida ficou mais cara. O que acontece é que a inflação deles não é a mesma inflação do índice oficial — porque a cesta que eles consomem não é a cesta média que o IPCA mede.
Por que quem ganha menos sente mais
O IBGE calcula dois índices. O IPCA mede a inflação para famílias com renda entre 1 e 40 salários mínimos. O INPC mede para famílias com renda entre 1 e 5 salários mínimos — a faixa que gasta quase tudo em alimentação, transporte e energia.
Quem ganha menos não se beneficia da deflação das passagens aéreas nem da queda no seguro de veículo. Esses itens simplesmente não estão no orçamento. A queda não existe para eles. O que existe é a carne a 20% mais cara, a luz a 12% mais cara e o aluguel a 6% mais caro.
O resultado: a inflação oficial anuncia uma coisa. O orçamento real de quem vive de salário mínimo registra outra. Não porque o IPCA seja falso — mas porque ele é uma média de um universo amplo, e essa pessoa está nos extremos, não no centro.
A renda cresceu — então por que o salário compra menos?
O governo anuncia que a renda média do brasileiro cresceu. O IBGE confirma: em 2024, o rendimento médio real domiciliar per capita chegou a R$ 2.020, maior valor da série histórica. Isso é verdade.
Mas aí vem a conta que o noticiário raramente faz até o fim. O salário é reajustado pelo IPCA oficial. O problema é que o seu aluguel, a sua energia, o seu plano de saúde — nenhum deles usa o IPCA da cesta toda. Cada setor usa o índice do seu próprio setor. E os serviços essenciais têm inflação estruturalmente acima da média geral.
Você recebeu aumento de 4%. A inflação oficial foi de 4,26%. Já perdeu. Mas dentro desse 4,26%, a energia subiu 12% e o aluguel subiu 6%. O que isso faz com o orçamento real não aparece em nenhuma manchete comemorativa.
O que fazer com essa informação
Da próxima vez que ouvirem o jornal comemorando 'inflação baixa', perguntem: baixa para quem? Olhem o preço do café, da carne, da conta de luz e do aluguel. Esses são os números que mandam de verdade na vida de quem vive de salário.
Não existe uma inflação do Brasil. Existem muitas inflações — uma para cada cesta, uma para cada renda, uma para cada cidade. O IPCA é uma média necessária para a política econômica. Mas apresentá-lo como a inflação que todo brasileiro sentiu é como mostrar apenas a nota do aluno que tirou dez numa turma onde nove tiraram zero.
A inflação oficial mede o Brasil médio. Mas a maioria dos brasileiros não vive no Brasil médio. Vive no Brasil real — onde o ventilador fica desligado à noite para a conta de luz fechar, onde o café sumiu da compra semanal, onde o salário chegou e foi embora antes do mês acabar. Esse Brasil não está no índice. Mas está em cada casa.
Enquanto a política econômica olhar
apenas para a média, o ventilador continuará desligado em Porto Velho. E nenhum índice sozinho será capaz de medir esse silêncio.
Fontes: IBGE — IPCA 2023 (4,62%), 2024 (4,83%) e 2025 (4,26%), dados oficiais; Agência Brasil — Brasil fecha 2025 com IPCA em 4,26%, menor índice em sete anos (jan/2026); CNN Brasil — Preços de alimentos e bebidas foram responsáveis por um terço da inflação em 2024 (jan/2025); IBGE — carnes +20,84%, café moído +39,60% em 2024; energia elétrica +12,31%, café moído +35,65%, aluguel +6,06%, plano de saúde +6,42%, cursos +6,54% em 2025; IPEA — Indicador de Inflação por Faixa de Renda (Carta de Conjuntura); Agência Gov — Inflação em 2024 é mais baixa para famílias com renda de até cinco salários mínimos (jan/2025).