Poucos Têm Muito e Muitos Têm Pouco
Uma senhora na fila dos Correios. Um relógio de R$ 2 milhões. E um país inteiro entre esses dois mundos.
Iris de Oliveira · 15 de abr. de 2026Estava na fila dos Correios quando ouvi a conversa. Uma senhora explicava à mulher à sua frente como organizava a vida: trabalhava como babá em regime integral e recebia R$ 400 por mês. Ela mesma disse, sem rodeios, que com esse valor não dá para fazer nada. Depois falou do irmão — CLT, salário mínimo, aluguel, energia, água, alimentação tudo junto. Disse que a energia dele já foi cortada. Que ela mesma esteve na casa dele numa ocasião em que os sobrinhos estavam a dois dias sem comer.
Não era desabafo. Era relato de rotina.
Fiquei pensando nisso o resto do dia. Não porque seja exceção — mas porque é regra. Porque aquela conversa, poderia ter acontecido em qualquer cidade do Brasil. E acontece, todos os dias, em milhões de filas, em milhões de cozinhas, em milhões de casas onde o salário chega e some antes do mês acabar. O Brasil funciona como se tivesse duas moedas. O real da senhora da fila compra arroz, paga passagem, cobre metade do aluguel. O real de quem está no topo compra ações, imóveis, arte, influência. São a mesma nota. Mas não compram o mesmo mundo.
O abismo que os números confirmam
Os dados confirmam. Segundo o IBGE, em 2024, os 40% mais pobres do Brasil recebiam em média R$ 601 por mês. A metade mais pobre da população — 108 milhões de brasileiros — sobrevivia com R$ 713 mensais por pessoa. Isso equivale a R$ 23,77 por dia.
Do outro lado da pirâmide, o 1% mais rico recebia em média R$ 21.767 por mês. Uma diferença de 36 vezes. E quando se olha para o patrimônio — não apenas para a renda — a concentração é ainda mais brutal. Pense assim: se você empilhasse o dinheiro que o 1% mais rico recebe em um mês, o irmão da senhora da fila precisaria trabalhar três anos seguidos, sem gastar um centavo, para chegar na mesma pilha. E ele ainda teria que pagar aluguel, energia, água e comida durante esses três anos — que também não existem.
63% de toda a riqueza do Brasil está nas mãos de 1% da população. Os 50% mais pobres detêm apenas 2% do patrimônio do país. Não é desigualdade. É abismo.
A Oxfam, que monitora a concentração de renda em mais de 90 países, aponta que os 5% mais ricos do Brasil abocanham a mesma fatia de renda que os outros 95% juntos. E os 10% mais pobres gastam 32% de sua renda em tributos — enquanto os 10% mais ricos gastam 21%. Quem tem menos paga proporcionalmente mais.
A bolha dos que nunca ficaram sem luz
Enquanto isso, do outro lado, existe um mundo com lógica completamente diferente. É o mundo dos leilões onde um relógio ultrapassa R$ 2 milhões. Das obras de arte adquiridas como investimento. Das garrafas de vinho que custam mais do que um trabalhador recebe em um ano. Das bolsas de grife que valem o equivalente a dois anos de salário mínimo.
Não se trata de condenar quem pode comprar essas coisas. Riqueza não é crime, e acumular patrimônio por meio do trabalho ou do empreendimento é legítimo. O problema não é que esse mundo exista. O problema é entender por que, num país com tanto recurso natural, tanta gente trabalhando, tanto imposto arrecadado, os dois mundos estão tão distantes — e por que essa distância não diminui.
Não é o mesmo Brasil vivido de formas diferentes. São realidades tão afastadas que dificilmente se cruzam — exceto numa fila de banco, num táxi, ou quando uma precisa contratar a outra para cuidar dos filhos por R$ 400 ao mês.
O que os governantes veem — e o que não veem
E onde estão os governantes nessa equação? Estão, na maior parte do tempo, mais perto de um mundo do que do outro.
Um deputado federal ou senador recebe R$ 46.366,19 de salário bruto mensal — valor fixado em 2025. A isso se somam auxílio-moradia de R$ 4.253, verba de gabinete de até R$ 165 mil para contratar até 25 assessores, diárias, passagens e reembolso integral de saúde para si e para os dependentes. Pesquisadores da Universidade de Brasília concluíram que o Brasil é o país que mais gasta por parlamentar em relação à renda média da população, numa comparação com 33 democracias do mundo.
O parlamentar que recebe o mínimo de sua estrutura — sem as verbas maiores de estados mais distantes — chega a cerca de R$ 170 mil mensais considerando todos os benefícios. Um trabalhador com salário mínimo precisaria de mais de 13 anos para acumular esse valor.
Não é que os governantes sejam maus por natureza. É que quem vive dentro de uma estrutura de privilégio tende a enxergar o mundo a partir dela. Quem nunca teve a energia cortada não sabe o peso de uma conta atrasada. Quem nunca ficou a dois dias sem comer não entende o que significa não ter o que comer.
A bolha não é moral — é estrutural. Não se trata de má intenção individual. Trata-se de um distanciamento que se acumula com o tempo: quem governa há anos dentro de uma estrutura de conforto tende a legislar a partir dela — e as políticas públicas refletem, naturalmente, a realidade de quem as concebe.
Por que isso persiste
A pergunta mais incômoda não é por que existe desigualdade — toda sociedade tem alguma. A pergunta é: por que ela persiste nessa escala, nessa intensidade, há tanto tempo?
Parte da resposta está em como o país cobra seus impostos. No Brasil, o imposto está embutido no preço de quase tudo — no arroz, no gás, no sabão. Isso significa que ele incide igual sobre quem ganha R$ 400 e sobre quem ganha R$ 40.000. Para quem ganha pouco, esse imposto representa uma fatia enorme do que tem. Para quem ganha muito, é quase imperceptível. O sistema não foi feito com má intenção — mas o efeito prático é que protege menos quem mais precisaria de proteção.
Outra parte está em quem o sistema enxerga. A babá que ganha R$ 400 provavelmente não tem carteira assinada. Para o sistema formal, ela quase não existe — sem FGTS, sem décimo terceiro, sem férias, sem direito a crédito com juro razoável. Mas na hora de pagar imposto, ela existe perfeitamente. Compra gás: paga tributo. Compra sabão: paga tributo. O sistema não a protege. Só a cobra.
O que a fila dos Correios revelou
Aquela senhora não estava pedindo luxo. Não estava exigindo o impossível. Estava descrevendo uma vida em que R$ 400 é tudo que existe — e tudo que existe não é suficiente para nada. Seu irmão, com salário mínimo, tenta dividir esse valor entre aluguel, energia, água e alimentação para uma família. Em grande parte do Brasil, um aluguel simples já consome mais da metade disso.
Não é má gestão individual. Não é falta de esforço. É aritmética. Os números não fecham — e o sistema foi construído de forma que eles não fechem, porque quando fecham para quem tem pouco, sobra menos para acumular em cima.
A desigualdade brasileira não é acidente. É produto.
Dois
mundos no mesmo país. Duas moedas com o mesmo nome — mas que compram realidades
que nunca se cruzam. Um em que a energia é cortada e os filhos passam dois dias
sem comer. Outro em que um relógio custa o que aquela família não vai ver em
décadas. O que separa esses dois mundos não é sorte, não é mérito e não é
destino. É uma estrutura que foi construída por escolhas — e que só vai mudar
por escolhas diferentes. Enquanto essas escolhas forem feitas por quem nunca
esteve na fila dos Correios ouvindo uma mulher explicar que R$ 400 não dá para
fazer nada, elas continuarão sendo as mesmas.
Fontes IBGE — Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), Rendimento de Todas as Fontes, 2024 (maio de 2025); Oxfam Brasil — "A Distância Que Nos Une" e Relatório Global 2025; CNN Brasil — "Desigualdade: 63% da riqueza do Brasil está nas mãos de 1% da população" (jan/2024); Câmara dos Deputados — portal.camara.leg.br (2025); Decreto Legislativo nº 172/2022 — subsídio parlamentar R$ 46.366,19 a partir de fev/2025; Pesquisa UnB, USC e IMPA — Brasil é o país que mais gasta por parlamentar em relação à renda média, entre 33 democracias (2021)..