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Iris de Oliveira
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GESTÃO PÚBLICA & POLÍTICAS DE ESTADO

O Brasil Não Tem Plano. Tem Eleição.

Metade das obras públicas federais estão paradas. R$ 15,9 bilhões já foram gastos em construções que não constroem nada. E o próximo governo vai começar tudo de novo.

Iris de Oliveira · 13 de abr. de 2026

Em algum lugar do Brasil há uma escola de concreto sem telhado. Ao lado, mato. Um pouco mais adiante, uma placa desbotada com o nome de um programa que já não existe, o logo de um governo que passou e a promessa de uma data de entrega que ficou para trás há anos. A criança que deveria estudar ali cresce. A obra não.

Esse não é um caso isolado. É a regra.

Os números que ninguém quer ver

O Tribunal de Contas da União monitora obras públicas financiadas com recursos federais desde 2019. Os dados mais recentes, de abril de 2025, mostram uma realidade que deveria parar o país — e não para.

Das 22.621 obras mapeadas pelo TCU, 11.469 estão paralisadas. Isso é 50,7% do total — mais da metade. Já foram investidos R$ 15,9 bilhões nessas obras que estão paradas. Para concluir todas seria necessário mais R$ 110,5 bilhões adicionais. As áreas mais afetadas são saúde e educação, que concentram 70% das paralisações — mais de 8 mil obras inacabadas em escolas, creches, postos de saúde e hospitais.

São R$ 15,9 bilhões gastos em obras que não entregaram uma sala de aula, um leito de hospital ou um metro de calçada. É dinheiro do contribuinte que virou mato, ferrugem e concreto exposto à chuva.

O dado mais cruel está nas obras novas. Das 5.505 iniciadas entre abril de 2024 e abril de 2025, aproximadamente 1.200 já estão paralisadas — 22% do total. Obras que começaram há menos de um ano e já pararam. O sistema não está falhando na execução. Está falhando antes disso, no próprio planejamento.

E o TCU identificou por quê: mau planejamento dos empreendimentos é o principal fator de paralisação — tanto em obras de baixo quanto de alto valor.

Não é problema de governo. É problema de sistema.

A narrativa mais conveniente é atribuir as obras paradas ao governo anterior. Toda gestão faz isso. O governo Lula criou o programa Mãos à Obra para retomar o que ficou parado na gestão Bolsonaro. O governo Bolsonaro herdou paralisações do governo Temer. O governo Temer das obras de Dilma. Dilma das obras de Lula 1 e 2. E assim por diante, numa cadeia de culpas que atravessa décadas sem que ninguém resolva o problema central.

Em 2022, o TCU identificou 8.674 obras paralisadas. Em 2023, o número caiu levemente para 8.603 — primeiro ano do governo Lula, com programa de retomada em vigor. Em 2024, subiu 40%, chegando a 11.941. Não porque um governo é mais incompetente que outro. Mas porque o sistema nunca muda: a cada eleição, as prioridades mudam, os contratos são revistos, os convênios com municípios e estados travam, e as obras ficam para trás.

72,6% das obras paradas em 2024 não tinham previsão de retomada ou conclusão.

Não há data. Não há responsável. Não há consequência.

A diferença entre plano de governo e plano de Estado

Plano de governo é o que cada candidato apresenta de quatro em quatro anos. Muda com o voto. Depende da ideologia, das alianças, das promessas de campanha e do humor do eleitorado. É legítimo que seja assim — democracia funciona por alternância.

Plano de Estado é diferente. É o conjunto de políticas, investimentos e metas que transcendem mandatos porque servem à nação, não ao partido. É o que garante que uma escola iniciada numa gestão seja concluída na seguinte, independentemente de quem ganhou a eleição. É o que separa países que se desenvolvem de países que ficam eternamente recomeçando.

O Brasil nunca construiu essa separação de forma efetiva. Cada governo chega com seu programa, seus slogans e seus projetos prioritários. O que o antecessor deixou fica em segundo plano — quando não é diretamente cancelado ou deixado morrer por falta de repasse. A continuidade não é um valor institucional no Brasil. É uma exceção, quando acontece, e quase sempre por acidente.

Um país que recomeça a cada quatro anos não se desenvolve. Ele se move em círculos — gastando, parando, recomeçando — enquanto a população espera por uma escola, por um hospital, por uma estrada que nunca chega.

Quem paga a conta

O preço das obras paradas não é apenas financeiro. É o custo do concreto que apodrece, da ferragem que enferruja, das fundações que precisam ser refeitas porque ficaram expostas por anos. O TCU estima que obras paradas por tempo prolongado frequentemente não podem ser retomadas sem intervenções para recuperar os estragos do abandono — o que significa gastar de novo para poder gastar o que faltava.

Mas há um custo que não aparece em nenhum relatório: o custo humano. A criança que estudou em container porque a escola não ficou pronta. O paciente que percorreu horas até um hospital de referência porque o posto de saúde do bairro está com as paredes levantadas e sem cobertura há cinco anos. O trabalhador que leva duas horas no trânsito porque a obra viária foi paralisada no meio da duplicação.

Esses custos não estão no Painel de Obras Paralisadas do TCU.

Mas estão no cotidiano de quem vive longe dos centros de decisão.

O que seria diferente com um plano de Estado

Não se trata de tirar poder do governo eleito. O mandato democrático é inegociável. Trata-se de criar mecanismos que obriguem a continuidade de investimentos essenciais independentemente de quem governa. Países com infraestrutura consolidada fazem isso há décadas — por meio de fundos específicos, de leis de continuidade orçamentária, de contratos de longo prazo que não podem ser suspensos por mudança de gestão sem custo político e financeiro claro.

No Brasil, isso foi tentado em partes e nunca chegou a funcionar como sistema. O Programa de Aceleração do Crescimento — o PAC, em suas diversas versões — foi idealizado como um mecanismo de continuidade, mas virou marca de governo. Quando o governo mudou, a marca mudou junto, e parte das obras ficou no limbo entre o que foi do governo anterior e o que ainda não é do governo atual.

O TCU, em 2023, determinou à Casa Civil a elaboração de um plano de gestão da carteira federal de obras públicas. É um passo. Mas um plano de gestão dentro de um mandato ainda é plano de governo — não de Estado. A diferença está em quem está no poder quando o prazo vence.

Governar para o povo ou para a próxima eleição

A lógica eleitoral cria um incentivo perverso: é mais visível inaugurar uma obra nova do que concluir a que o antecessor deixou. A fita cortada gera foto, gera discurso, gera voto. A escola que ficou pronta porque alguém deu continuidade ao contrato anterior não dá manchete — não tem inauguração, não tem palanque, não tem aplauso.

Então os gestores públicos, racionalmente, preferem começar. Começar é visível. Concluir o que o outro começou é invisível — e ainda carrega o risco de ser associado à gestão anterior. O resultado é um país com 11.469 obras paradas e um sistema que, mesmo sabendo disso, continua produzindo novas paralisações a cada ano.

22% das obras iniciadas em 2024 já estavam paradas em 2025.

O sistema não aprendeu. O sistema não tem incentivo para aprender.

Uma nação não se constrói de quatro em quatro anos. Uma escola leva tempo para ficar pronta. Um hospital leva mais tempo ainda. Uma ferrovia, uma geração inteira. O Brasil tem os recursos, tem os projetos, tem as licitações e tem os contratos. O que falta não é dinheiro — é a decisão política de que obras públicas são compromissos com a população, não com a campanha. Essa decisão não depende de eleição. Depende de quem governa entender a diferença entre servir ao cargo e servir ao país.


 Fontes:TCU — Painel de Obras Paralisadas (portal.tcu.gov.br), atualização abril de 2025; Comunicação do Presidente do TCU, Ministro Vital do Rêgo, Sessão Plenária de 30/07/2025; TCU — Levantamento anual de obras paralisadas 2022, 2023 e 2024 (Gazeta do Povo, dez/2024); TCU — Acórdão 2.134/2023, determinação à Casa Civil sobre plano de gestão da carteira federal de obras públicas; Agência Brasil — Angra 3: obra parada gera custo anual de quase R$ 1 bilhão (out/2025); Câmara dos Deputados — Comissão Externa das Obras Inacabadas, relator Dep. Zé Silva; FNDE — Pacto Nacional pela Retomada de Obras da Educação Básica (2024).