O Algoritmo Não Tem Dó
A Europa já viu isso acontecer uma vez. Agora está acontecendo de novo — mais rápido, mais silencioso e dentro do bolso de milhões de pessoas.
Iris de Oliveira · 08 de abr. de 2026Em 1774, Johann Wolfgang von Goethe publicou Os Sofrimentos do Jovem Werther. O romance conta a história de um jovem que, incapaz de lidar com um amor impossível, tira a própria vida. O impacto foi imediato — e inesperado. Relatos começaram a surgir por toda a Europa: jovens se vestindo como Werther, escrevendo como Werther, morrendo como Werther. Alguns países chegaram a proibir o livro.
Duzentos e cinquenta anos depois, o fenômeno tem nome científico — Efeito Werther — e uma nova forma de propagação: o feed de qualquer adolescente com um celular na mão.
O que é o Efeito Werther
O sociólogo americano David Phillips nomeou o fenômeno em 1974 ao estudar como a cobertura de suicídios na imprensa influenciava novos casos. A conclusão foi direta: quando um suicídio é exposto com destaque — especialmente com elementos de identificação ou romantização — o número de ocorrências aumenta.
Não é coincidência. É contágio.
Esse padrão já foi observado em diferentes países, culturas e décadas. Uma revisão de 2022, com 35 estudos internacionais, aponta o mesmo resultado: quanto mais o relato glorifica ou detalha, maior o risco para quem já está vulnerável.
O problema nunca foi falar sobre o tema. O problema sempre foi como se fala.
Da TV para o celular — e o que mudou
Por décadas, o Efeito Werther foi tratado como um problema de jornalismo. Redações criaram diretrizes, a Organização Mundial da Saúde publicou recomendações, e veículos responsáveis passaram a evitar detalhes, evitar romantização e evitar transformar tragédia em narrativa sedutora.
As redes sociais ignoraram esse aprendizado — e criaram um sistema que faz exatamente o contrário.
O algoritmo do TikTok — e, por extensão, do Instagram e do YouTube — funciona de forma simples: ele entrega mais do que prende sua atenção. Se alguém em sofrimento para alguns segundos em um vídeo sobre depressão, o sistema registra. Se assiste outro, registra de novo. Em pouco tempo, o feed se torna um espelho distorcido do próprio sofrimento.
Uma investigação do Centro de Combate ao Ódio Digital mostrou que isso pode acontecer em menos de três minutos.
O algoritmo não entende dor. Ele entende retenção.
A máquina não tem intenção — e isso não é desculpa
O sistema não foi projetado para causar dano. Foi projetado para maximizar tempo de tela. E conteúdo que provoca emoção intensa — tristeza, angústia, identificação — retém mais do que qualquer outro.
A máquina não sabe que está fazendo mal. Sabe apenas que está funcionando.
Mas a ausência de intenção não elimina a responsabilidade.
Quando empresas sabem — e sabem — que seus sistemas amplificam conteúdos prejudiciais para usuários vulneráveis, e ainda assim mantêm o modelo, isso deixa de ser um efeito colateral. Passa a ser uma escolha.
Dizer que o algoritmo não tem intenção é como dizer que um carro sem freio não foi feito para atropelar. Tecnicamente correto. Moralmente irrelevante.
Para uma pessoa em crise, atenção e dano passam a ser a mesma coisa.
O contraponto que existe — e quase não aparece
Existe um efeito oposto, menos conhecido: o Efeito Papageno. O nome vem de um personagem da ópera A Flauta Mágica, de Mozart, que desiste de tirar a própria vida ao encontrar uma razão para continuar.
Quando a mídia mostra histórias de superação, de busca por ajuda e de saída possível, o impacto pode ser protetor.
A diferença não está no tema. Está no enquadramento.
Conteúdos que romantizam o sofrimento aumentam o risco. Conteúdos que mostram caminhos reduzem. As plataformas poderiam amplificar isso. Mas a lógica atual privilegia o que prende — não o que protege.
O que isso tem a ver com o filho de alguém
O Brasil tem mais de 140 milhões de usuários de redes sociais. O crescimento mais acelerado está entre adolescentes. São jovens que passam horas por dia em plataformas desenhadas para capturar atenção — e que, diante do sofrimento, oferecem exatamente o tipo de conteúdo que a ciência identifica como fator de risco.
Não estamos falando de um problema abstrato.
Estamos falando de um sistema ativo, documentado, em escala massiva e sem regulação proporcional ao seu impacto.
Werther era um personagem de livro. E o livro foi proibido quando o risco ficou evidente.
Hoje, o Werther virou algoritmo.
E o algoritmo está no bolso de qualquer criança com acesso à internet.
Nós já vimos esse efeito antes. A diferença é que agora ele é automatizado.
A pergunta não é se sabemos do risco.
A pergunta é o que estamos dispostos a fazer com ele.
Se você ou alguém que você conhece está passando por um momento difícil, o CVV — Centro de Valorização da Vida — atende 24 horas pelo telefone 188 ou pelo chat em cvv.org.br.
Fontes: Phillips, David P. — The influence of suggestion on suicide (American Sociological Review, 1974); OMS — Preventing suicide: a resource for media professionals (2023); Revisão narrativa — Efeito Werther e tentativas de suicídio (RSD Journal, 2022); Schettino Lucas & Bonomo — Efeito Werther vs Efeito Papageno no Twitter (Revista FAMECOS, 2025); Amnistia Internacional — TikTok e saúde mental de jovens na França (out/2025 e mai/2025); Centro de Combate ao Ódio Digital — TikTok recomenda conteúdo em 3 minutos (2022); Euronews — TikTok e Instagram acusados de empurrar conteúdo suicida a adolescentes (ago/2025); Portal Afya — TikTok e saúde mental, EAPS 2024; Uniateneu — Redes sociais e comportamento suicida em adolescentes (2022).