Quem Está Quebrando os Gravetos?
A parábola é antiga. O Brasil está ignorando a lição há anos. E alguém, do outro lado dessa divisão, está lucrando com isso.
Iris de Oliveira · 07 de abr. de 2026Um pai moribundo chama os filhos ao redor do leito. Coloca um feixe de gravetos nas mãos do mais velho e pede que o quebre. O filho tenta. Não consegue. O pai então desfaz o feixe, distribui um graveto para cada filho e diz: agora quebrem. Em segundos, cada galho vira dois pedaços. A lição é dada sem mais palavras.
A parábola tem variações — atribuída a Esopo, a Plutarco, às tribos africanas, ao chefe indígena norte-americano Aupumut. Não importa a autoria. Importa que ela sobreviveu milênios porque toca algo que toda civilização reconhece como verdade fundamental: unidos, resistimos. Divididos, quebramos.
O Brasil de 2026 está ignorando essa lição com uma dedicação que impressiona.
O feixe se desfez
Não existe uma ruptura com data marcada — uma única crise que espalhou os gravetos pelo chão. A divisão foi sendo construída aos poucos, ao longo de mais de uma década, com a habilidade de quem sabe exatamente o que está fazendo. Primeiro virou normal ter um lado. Depois virou obrigatório. Hoje, quem não escolhe um time é suspeito para os dois.
Os dados confirmam o que qualquer brasileiro já sente na própria casa. Uma pesquisa da Ipsos-Ipec mostra que 72% dos brasileiros se sentem incomodados com a radicalização e a polarização política, 67% relatam ter vivido experiências negativas por causa dela — afastamento de familiares, abandono de redes sociais, medo de expressar opiniões — e 57% acreditam que essa divisão traz mais prejuízo do que benefício ao país. Outro levantamento aponta que para 78% o Brasil está mais dividido ideologicamente do que no passado — percentual maior do que o encontrado nos Estados Unidos, na Argentina e na Itália.
São dados de um país que reconhece o problema, sente o peso dele no cotidiano, e mesmo assim continua desfazendo o feixe.
Setenta e dois por cento se dizem incomodados com a polarização. E no dia seguinte voltam às redes sociais para alimentar exatamente o que os incomoda. Essa é a definição de um sistema que funciona contra quem participa dele.
A polarização que não é ideológica
Aqui está o diagnóstico que a maioria das análises evita enunciar com clareza: a polarização brasileira não é, em sua essência, um conflito de ideias. É um conflito de identidades. E identidades são muito mais difíceis de negociar do que posições.
Pesquisas acadêmicas sobre o comportamento político do eleitorado brasileiro mostram que a divisão predominante não é ideológica — não existe um alinhamento consistente entre se identificar como esquerda ou direita e ter opiniões coerentes sobre temas econômicos, sociais ou de políticas públicas. O que existe é polarização afetiva: a hostilidade não nasce do que o outro pensa, mas de quem o outro é. Ou melhor, de qual time o outro veste. Lula e Bolsonaro se tornaram identidades sociais antes de serem projetos de governo. E identidade social não se discute — ela se defende.
Não é que os brasileiros não saibam conviver com a diferença. É que alguém passou anos ensinando que diferença é ameaça.
O resultado prático é que dois grupos que concordam em 80% das coisas que realmente importam no dia a dia — segurança, emprego, saúde, o preço da cesta básica — passam o tempo brigando pelos 20% que os separam, enquanto nenhum dos dois resolve os 80% que os unem.
Quem tem interesse no feixe desmanchado
Esta é a pergunta que a parábola obriga a fazer — e que o debate político brasileiro raramente faz com honestidade: quem se beneficia quando o país está partido assim?
A resposta não é abstrata. Um eleitorado fragmentado é mais fácil de quebrar — e também de comprar, de cooptar, de ignorar. Cada lado gasta sua energia atacando o outro, e enquanto isso, as questões que afetam os dois — o custo de vida, a insegurança pública, a qualidade dos serviços públicos, a corrupção que atravessa todos os espectros políticos — seguem sem resposta.
As lideranças que sobrevivem politicamente à base da polarização têm todo o incentivo do mundo para mantê-la. A polarização afetiva é uma máquina eleitoral perfeita: ela garante base cativa, elimina a necessidade de desempenho real e transforma qualquer crítica em ataque do inimigo. Não é coincidência que os extremos dos dois lados sejam os maiores beneficiários do ódio mútuo — e os mais resistentes a qualquer tentativa de diálogo.
As redes sociais completam o mecanismo. Pesquisa da More in Common e Quaest de 2025 mostra que os chamados 'progressistas militantes' — aquele segmento mais vocal e organizado da esquerda nas redes — representam apenas 5% do eleitorado brasileiro. O bolsonarismo mais radical ocupa uma fatia semelhante no outro extremo. São minorias ruidosas que dominam o debate público digital e definem o tom de uma conversa da qual a maioria preferiria não participar. Os 54% que a pesquisa identifica como 'invisíveis' — com preocupações pragmáticas sobre segurança econômica, saúde e custo de vida — simplesmente saem da sala.
Quando os que mais gritam são minoria e os que mais sofrem ficam em silêncio, o problema não é a polarização em si. É quem está com o microfone.
O graveto que ninguém quer segurar
A maioria silenciosa brasileira — aquela que 72% das pesquisas conseguem identificar como incomodada, pragmática, desinteressada na guerra cultural — é o graveto que ninguém quer incluir no feixe. Ela não tem liderança que a organize, não tem plataforma que a amplifique, não tem partido que a represente de fato. Ela tem apenas o voto — e mesmo esse está sendo disputado por quem a ignora no dia a dia e a corteja nos seis meses que antecedem a eleição.
A parábola do pai moribundo não diz que os filhos precisavam concordar em tudo. Diz que precisavam ficar juntos para resistir. A união não elimina a diferença — ela a protege. Um feixe funciona exatamente porque cada graveto é distinto: a soma das diferenças é o que cria a resistência.
O Brasil tem diferenças que valem a pena defender. Tem pluralidade regional, cultural, política e econômica que nenhum discurso homogeneizante — de direita ou de esquerda — consegue capturar. O problema não é essa pluralidade. O problema é que ela foi sequestrada por uma lógica binária que força cada brasileiro a escolher entre dois extremos que representam, juntos, menos de 15% do eleitorado.
O pai da parábola já morreu. Ninguém mais está reunindo os filhos ao redor do leito para mostrar que sozinhos eles quebram. Essa demonstração está sendo feita ao vivo, no país inteiro, todo dia. A questão é quanto tempo vai levar até que alguém perceba que o espetáculo da divisão tem ingressos caros — e que quem vende os ingressos não está assistindo à peça junto com a plateia.
Fontes: Ipsos-Ipec — Pesquisa sobre polarização e radicalização política no Brasil (2023, citada em Ipsos 2026); More in Common/Quaest — Pesquisa sobre segmentos do eleitorado brasileiro (2025); CNN Brasil — Pesquisa sobre divisão ideológica e civilidade (2023); SciELO — Polarização e contexto: medindo e explicando a polarização política no Brasil (Opinião Pública, UNICAMP); Ipsos Global Advisor 2025 — Principais preocupações do eleitor brasileiro.