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Iris de Oliveira
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POLÍTICA & DINHEIRO PÚBLICO

R$ 5 Bilhões Para Campanha. O Que Esse Dinheiro Faria na Sua Vida?

Em dezembro de 2025, o Congresso aprovou R$ 5 bilhões do seu imposto para financiar campanhas eleitorais em 2026. O governo tinha proposto R$ 1 bilhão. Os parlamentares — de todos os partidos — aumentaram quase cinco vezes. Isso tem nome: fundo eleitoral. E tem endereço: o seu salário.

Iris de Oliveira · 02 de abr. de 2026

Quanto vale R$ 5 bilhões? Para quem vive de salário e paga imposto todo mês, esse número é abstrato demais para doer. Mas ele dói. E entender onde esse dinheiro poderia ter ido é a única forma honesta de avaliar o que o Congresso decidiu em dezembro do ano passado.

Em 19 de dezembro de 2025, o Congresso Nacional aprovou o Orçamento de 2026. Dentro do pacote, estava aprovado o Fundo Especial de Financiamento de Campanha — o chamado fundo eleitoral — no valor de R$ 5 bilhões. Esse dinheiro vai para os partidos políticos para pagar cabos eleitorais, material gráfico, propaganda, assessores, aplicativos de campanha, posts patrocinados e toda a estrutura de uma eleição. A proposta original do governo era de R$ 1 bilhão. Os parlamentares aumentaram para quase cinco vezes mais — e aprovaram sem resistência, de forma simbólica, sem votação nominal, sem que cada deputado e senador tivesse que registrar publicamente seu voto.

O mais revelador não foi o valor. Foi quem votou a favor. Governo e oposição, PT e PL, lulistas e bolsonaristas — todos do mesmo lado quando o assunto era turbinar o fundo que financia as campanhas deles. Os que passam o ano inteiro se atacando nas redes chegaram a um acordo rápido quando o benefício era deles.

De onde vem esse dinheiro

Fundo eleitoral não é dinheiro que cai do céu. É dinheiro do Orçamento federal — o mesmo que paga o posto de saúde da sua rua, a escola pública do seu bairro, o policial que deveria patrulhar a sua cidade. Para acomodar os R$ 5 bilhões, o Congresso retirou R$ 2,9 bilhões das emendas parlamentares que seriam destinadas a obras nos estados, e cortou mais R$ 1 bilhão de despesas do governo federal — incluindo programas como o Farmácia Popular, o Fies, que ajuda estudantes a pagar a faculdade, e verbas para universidades federais.

Traduzindo: para que cada partido tenha mais dinheiro para fazer campanha em 2026, o governo corta o remédio barato na farmácia, corta o crédito do universitário de baixa renda e corta verba de hospital e escola. Não é uma hipótese. É o que os documentos do Orçamento registram.

Para que os partidos tenham mais dinheiro para fazer campanha, o governo cortou remédio barato, crédito universitário e verba de hospital. Isso está registrado no Orçamento.

O que R$ 5 bilhões fariam na saúde

O governo federal investiu, em 2025, R$ 4,4 bilhões na reestruturação de todos os hospitais universitários federais do Brasil — 100% de aumento em relação a 2022. O fundo eleitoral aprovado em dezembro supera esse valor.

Com R$ 5 bilhões, o governo poderia financiar a construção ou reforma de centenas de Unidades de Pronto Atendimento — as UPAs que funcionam 24 horas e que em muitas cidades do interior não existem ou estão sucateadas. Para efeito de comparação, o governo federal investiu R$ 4,4 bilhões em 2025 para reestruturar todos os hospitais universitários federais do Brasil — e o fundo eleitoral aprovado supera esse valor. São municípios inteiros sem atendimento de emergência adequado que poderiam ter uma unidade de saúde funcionando 24 horas com parte desse dinheiro.

Ou, com o mesmo valor, seria possível ampliar o Farmácia Popular e garantir remédios gratuitos ou com desconto de até 90% para dezenas de milhões de brasileiros adicionais. O programa, que já beneficiou mais de 38 milhões de pessoas em dez anos, tem custeio anual na casa de R$ 3 bilhões. R$ 5 bilhões ampliariam o acesso ao remédio barato por mais de um ano e meio para toda a população atual do programa — e ainda sobraria dinheiro.

O que R$ 5 bilhões fariam na educação

O governo do estado de São Paulo previu, em 2024, R$ 1,6 bilhão para construir 33 novas escolas estaduais em regime de parceria. Com R$ 5 bilhões, seria possível construir mais de cem escolas públicas novas, com infraestrutura completa, laboratórios, quadras e refeitórios — nas regiões onde as crianças estudam em salas improvisadas, sem ventilação adequada e sem livro suficiente para todo mundo.

Ou o dinheiro poderia ir para o Fies — o programa que empresta dinheiro a estudantes de baixa renda para pagar a faculdade. Em 2025, o Congresso aprovou cortes exatamente nesse programa para liberar espaço no Orçamento para o fundo eleitoral. São jovens que vão deixar de ter acesso ao ensino superior para que deputados e senadores tenham mais verba de campanha.

O que R$ 5 bilhões fariam na segurança

R$ 5 bilhões também poderiam renovar frotas de viaturas policiais em vários estados brasileiros que hoje patrulham com carros sucateados, sem ar-condicionado e sem equipamento de comunicação adequado. A defasagem de efetivo e equipamento nas polícias estaduais é apontada como um dos principais gargalos da segurança pública — e parte desse valor poderia custear tanto a compra de viaturas quanto o treinamento e a contratação de novos agentes nas cidades onde uma chamada de emergência demora mais de uma hora para ser atendida porque simplesmente não há viatura disponível.

Ou o dinheiro poderia ir para contratar e treinar policiais. A defasagem no efetivo das polícias estaduais é estimada em dezenas de milhares de agentes em todo o país. Com R$ 5 bilhões, seria possível custear salários, treinamento e equipamento de uma geração inteira de novos policiais por mais de um ano — nas cidades onde a resposta a uma chamada de emergência demora mais de uma hora porque simplesmente não há viatura disponível.

R$ 5 bilhões é o mesmo valor que o governo investiu para reestruturar todos os hospitais universitários federais do Brasil em 2025. É mais de um ano e meio de cobertura ampliada do programa Farmácia Popular para toda sua base atual. É dinheiro que poderia renovar frotas policiais sucateadas em vários estados, construir UPAs em municípios sem atendimento de emergência, contratar professores, reformar escolas. O Congresso escolheu financiar campanha

O argumento que você vai ouvir — e o que ele omite

Os parlamentares que votaram a favor do fundo eleitoral têm um argumento pronto: democracia custa dinheiro, eleição precisa de financiamento, e R$ 5 bilhões representa apenas 0,2% da receita total do governo. O líder do PT na Câmara disse exatamente isso em plenário — que o valor é pequeno perto do orçamento total.

O argumento não é tecnicamente errado. Mas omite o que importa. Primeiro: o governo propôs R$ 1 bilhão, não R$ 5 bilhões. O aumento de R$ 4 bilhões foi uma escolha do Congresso — não uma necessidade técnica. Segundo: os cortes feitos para acomodar esse aumento foram em programas reais, com beneficiários reais, que vão sentir a diferença na farmácia, na sala de aula e no pronto-socorro. Terceiro: 0,2% do orçamento é uma fração pequena em percentual — mas é uma quantia enorme quando traduzida em serviços públicos que faltam para quem não tem plano de saúde, escola particular ou segurança privada.

Eleição precisa de financiamento. Isso é verdade. A democracia tem custo. Também é verdade. Mas há uma diferença entre financiar uma eleição com o mínimo necessário para que ela aconteça e turbinar o fundo em quase cinco vezes para que cada partido entre na campanha com mais dinheiro do contribuinte do que qualquer outro país do mundo gasta com financiamento público de eleição.

Quem vota para eleger esses parlamentares é o mesmo que paga o imposto que financia a campanha deles. Esse não é um paradoxo da democracia — é uma escolha que o Congresso faz toda vez que aumenta o fundo. E que o eleitor pode mudar toda vez que vai às urnas. Se souber exatamente o que está financiando com o próprio voto.

Fontes: Portal da Câmara dos Deputados — aprovação LOA 2026 (19/12/2025); Senado Federal — Agência Senado, LOA 2026 (19/12/2025); Comissão Mista de Orçamento — PIN 1/2025, ampliação fundo eleitoral (30/09/2025); Gazeta do Povo — governo e oposição unidos pelo fundo eleitoral; Muita Informação — fundo eleitoral retira recursos de saúde e educação; Ministério da Saúde — PRHOSUS, investimento em hospitais universitários 2025; Governo do Estado de São Paulo — PPP Educação Novas Escolas (2024); Prefeitura de São Paulo — UPAs e investimento em saúde 2025; Partido dos Trabalhadores — UPAs e UBSs construídas (dados históricos); TSE — Fundo Eleitoral: 6 pontos essenciais (2024).