quarta-feira, 27 de maio de 2026 ← Inicio
Iris de Oliveira
← Voltar aos artigos
Economia & Poder Público

A Toga de Ouro: os Supersalários que o Judiciário Não Quer que Você Saiba

Enquanto o Brasil corta gastos em saúde e educação, juízes e desembargadores recebem até R$ 3 milhões por ano — e a conta é paga pelo contribuinte

Iris de Oliveira · 10 de mar. de 2026

Imagine receber R$ 281 mil em um único mês. Não como CEO de uma multinacional, não como astro do futebol. Como servidor público aposentado. Pago com o dinheiro do contribuinte. Esse não é um cenário hipotético: é o que aconteceu em 2025 com magistrados inativos do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, conforme dados públicos do Conselho Nacional de Justiça.

O Brasil tem o Judiciário mais caro do mundo. Não é exagero retórico. É o que diz o próprio Tesouro Nacional, em estudo que comparou os gastos de 53 países. E o motor dessa máquina que devora o orçamento público tem nome: supersalários — remunerações que ultrapassam o teto constitucional de R$ 46,3 mil por meio de uma engenharia criativa de "penduricalhos" que a própria casta jurídica inventou para si mesma.

E o pior: enquanto o governo debate corte de gastos e a população vê hospitais sem remédio e escolas sem professor, essa conta bilionária segue crescendo — silenciosa, protegida pela toga e pela opacidade de quem tem o poder de se julgar.

Os números que o Judiciário prefere não mostrar

O relatório "Justiça em Números 2025", publicado pelo CNJ, revela que as despesas do Judiciário brasileiro bateram novo recorde em 2024: R$ 146,5 bilhões — um crescimento de 5,5% em relação ao ano anterior. Isso representa 1,2% do PIB nacional e 2,45% de todos os gastos públicos do país. A média internacional de gastos com justiça nos países desenvolvidos é de 0,3% do PIB. Nas economias emergentes, 0,5%. O Brasil gasta mais de quatro vezes a média dos países com renda semelhante.

Desse total, impressionantes 89,2% — ou R$ 130,6 bilhões — foram destinados a despesas com pessoal. Salários, bônus, penduricalhos e aposentadorias. Para funcionar como instituição — comprar equipamentos, manter prédios, investir em tecnologia —, sobrou menos de 11% do orçamento.

Gastos do Judiciário Brasileiro (2024) — Comparativo Internacional

Indicador

Valor

Gasto total do Judiciário (2024)

R$ 146,5 bilhões

% do PIB (Brasil)

1,2% – 1,3% do PIB

Média países desenvolvidos

0,3% do PIB

Média países emergentes

0,5% do PIB

Custo por habitante/ano

R$ 689,34

Gasto com pessoal (% do total)

89,2% (R$ 130,6 bi)

Supersalários acima do teto (ago/24–jul/25)

R$ 20 bilhões

Maior salário individual registrado (2025)

R$ 281 mil/mês

Maior remuneração anual registrada (2025)

R$ 2,66 milhões/ano

 

O mecanismo: como se cria um salário milionário "legalmente"

O teto constitucional existe no papel. Na prática, foi esvaziado por uma arquitetura criativa de adicionais classificados como "indenizatórios" — e que, por isso, escapam tanto do limite legal quanto do Imposto de Renda. São os chamados penduricalhos, que incluem: indenizações por férias não gozadas; licença-prêmio não usufruída; adicional por acúmulo de acervo de processos; adicional por acúmulo de função administrativa; auxílio-alimentação e auxílio-saúde acima da média do funcionalismo.

O resultado é que o rendimento líquido médio de juízes saltou de R$ 45 mil em 2023 para R$ 66,4 mil em fevereiro de 2025 — um aumento de quase 48% em dois anos. Uma alta que qualquer trabalhador brasileiro do setor privado olha com a boca aberta, enquanto luta para manter o salário acima da inflação.

E há um detalhe revelador: apenas 0,06% dos servidores públicos se beneficia dessas brechas. Uma elite minúscula — mas que drena R$ 20 bilhões anuais dos cofres públicos.

Ganhar mais, produzir menos

Se os supersalários ao menos garantissem uma justiça ágil e eficiente, a discussão seria outra. Não garantem. Os dados do Índice de Produtividade dos Magistrados do CNJ são implacáveis: os tribunais que mais pagam não são os mais produtivos. O Tribunal de Justiça de Mato Grosso lidera o ranking de remuneração, com média mensal de R$ 122,7 mil por magistrado — e ocupa apenas a 10ª posição em produtividade. O TJ do Acre, com uma das piores eficiências do país, ainda assim remunera seus magistrados acima do teto constitucional.

A conclusão é dura, mas inevitável: o Brasil paga mais por menos. E quem paga essa conta é o contribuinte comum — aquele que espera anos por uma sentença, que encontra o fórum fechado na sexta-feira, que não tem dinheiro para contratar um advogado. Enquanto isso, do outro lado do balcão, um desembargador aposentado desde 2020 recebe sua fatia mensal de seis dígitos.

O Brasil contra o mundo

A comparação internacional é constrangedora. Um juiz no Brasil pode receber até seis vezes mais do que as autoridades máximas do Judiciário português; quatro vezes mais do que ministros das cortes constitucionais da Alemanha, da França, da Argentina e dos Estados Unidos; e mais do que o dobro pago aos presidentes dos tribunais superiores do Reino Unido, da Itália e do México.

Países com democracias sólidas, judiciários respeitados e muito mais eficiência processual pagam uma fração do que o Brasil paga. A diferença não compra qualidade — compra privilégio.

O que esses R$ 20 bilhões poderiam fazer

Os R$ 20 bilhões gastos anualmente com supersalários acima do teto não são um número abstrato. São escolhas concretas que o país faz — e que deixa de fazer em outras frentes. Com esse valor seria possível construir e equipar mais de 4.000 Unidades Básicas de Saúde (UBS), ou financiar a merenda escolar de toda a rede pública por mais de dois anos.

Cada real que vai para o contracheque de um magistrado que já recebe acima do teto é um real que não vai para o posto de saúde da periferia, para o livro didático da escola pública, para o asfalto da estrada rural.

Conclusão: a toga não é escudo contra a transparência

O debate sobre supersalários no Judiciário não é um ataque à magistratura. É uma exigência democrática elementar. Toda instituição que se financia com dinheiro público precisa justificar cada centavo que gasta. E um sistema que concentra seus privilégios em 0,06% dos servidores, que cresce acima da inflação ano após ano, que tem o maior custo per capita do mundo — e ainda resiste a um código de ética e à tributação sobre seus "penduricalhos" — não está defendendo a independência judicial. Está defendendo a conta bancária.

O Brasil não pode se dar ao luxo de ter o Judiciário mais caro do mundo enquanto 33 milhões de pessoas passam fome. A toga impõe respeito. A conta paga pelo contribuinte exige responsabilidade.

Fontes: CNJ – Relatório "Justiça em Números 2025"; Tesouro Nacional; Folha de S. Paulo; Agência Brasil; Movimento Pessoas à Frente. Artigo de opinião com base em dados públicos verificados.