Por Que Trabalhar Mais Não Está Deixando Ninguém Mais Rico?
O Brasil tem o menor desemprego da história, a maior massa salarial da série histórica e 80% das famílias endividadas. As três coisas são verdade ao mesmo tempo. Entender por quê é entender o país.
Iris de Oliveira · 31 de mar. de 2026Por que trabalhar mais não está deixando ninguém mais rico? Não é uma pergunta retórica. É a pergunta que a maioria dos brasileiros faz internamente toda vez que olha para o saldo bancário no fim do mês e não entende onde foi o dinheiro — porque trabalhou. Porque não gastou à toa. Porque fez tudo certo. E ainda assim sobrou menos do que no mês passado.
Os números dão razão à sensação. O Brasil fechou 2025 com desemprego de 5,1%, a menor taxa da série histórica do IBGE. A massa salarial bateu recorde: R$ 328,6 bilhões mensais, crescimento real de 6,5% em relação a 2023. O mercado de trabalho, em tese, nunca esteve tão aquecido. E ao mesmo tempo, segundo a Pesquisa de Endividamento da Confederação Nacional do Comércio, 80,2% das famílias brasileiras terminaram fevereiro de 2026 endividadas — o maior percentual de toda a série histórica, iniciada em 2010. Trabalho recorde. Renda recorde. Dívida recorde. As três coisas são verdade ao mesmo tempo. Entender por quê é entender o país.
O que a renda compra — e o que ela parou de comprar
O primeiro problema é a inflação que não aparece no IPCA oficial mas aparece no supermercado. Enquanto o índice geral acumulou cerca de 4,8% em 2024-2025, o preço da alimentação no domicílio subiu 7,69% no mesmo período, segundo o IBGE. O café moído encareciou quase 40%. Carnes subiram acima de 20%. O aluguel subiu mais de 32% acima da inflação em períodos recentes.
A inflação
oficial mede uma cesta ampla de produtos e serviços. O trabalhador de renda
média não compra essa cesta — ele compra comida, paga aluguel, paga escola e
plano de saúde. Esses itens subiram mais do que o índice geral. O aumento
nominal de salário que aparece no contracheque é comido, na prática, pela
inflação específica de quem precisa viver.
O salário subiu no papel. O supermercado não leu o papel.
A armadilha do crédito — trabalha mais para pagar dívida
O segundo problema é estrutural e mais perverso. O acesso ao crédito cresceu junto com o emprego. Quem formalizou o trabalho passou a ter renda comprovada — e renda comprovada aumenta limite de cartão. Segundo especialistas ouvidos pelo InfoMoney, quem tinha R$ 2.000 de limite passou a ter R$ 5.000. E usou. Não por irresponsabilidade, mas porque o custo de vida subiu e o crédito pareceu a solução mais acessível para manter o padrão.
O problema é que o crédito no Brasil tem um preço que poucos países do mundo praticam. A taxa média do rotativo do cartão encerrou 2025 em 438% ao ano — quem parcelou R$ 1.000 e pagou o mínimo durante um ano deve, ao final, mais de R$ 5.380. A Selic está em 15% e as taxas ao consumidor giram em torno de 59% ao ano. A dívida cresce mais rápido do que qualquer aumento de salário poderia acompanhar.
O resultado está nos dados do Banco Central: as famílias comprometem cerca de 30% da renda com dívidas. A inadimplência no rotativo chegou a 64,7% em dezembro de 2025 — recorde histórico desde que a série começou em 2011. O trabalhador brasileiro, em boa parte dos casos, não está ficando mais rico com o emprego. Está pagando, com juros de 438% ao ano, a diferença entre o que ganha e o que a vida custa.
O ganho que não virou salário — quem ficou com a produtividade
O terceiro problema é o mais silencioso — e o mais estrutural. Entre 2019 e 2024, a produtividade por hora trabalhada no Brasil cresceu em média 0,28% ao ano, segundo o Observatório da Produtividade Regis Bonelli, da FGV. Em 2024, cresceu 0,1%. No ranking da OIT com 131 países, o Brasil ocupa o 78º lugar — atrás de Argentina, Chile e Uruguai.
Há uma consequência direta disso que raramente é nomeada: quando a produtividade não cresce, o salário real também não cresce de forma sustentável. O aumento de renda dos últimos anos veio, em boa parte, da expansão do emprego — mais gente trabalhando, não cada trabalhador produzindo mais. E esse modelo tem limite. O desemprego já está nas mínimas históricas. Não há muito mais espaço para crescer pelo volume. O próximo passo, que o Brasil ainda não deu, seria crescer pela eficiência — e isso exige investimento em tecnologia, educação e infraestrutura que não aparecem em discurso nenhum como prioridade real.
O dado do Caged é revelador: os empregados formais admitidos em janeiro de 2026 começaram com salário médio de R$ 2.389,50. Em janeiro de 2020, esse valor era de R$ 2.424,47, já corrigido pela inflação. Houve queda de 1,8% no salário de entrada das vagas formais em seis anos. O mercado de trabalho cresceu — mas em postos de menor valor, em setores de baixa produtividade, com salários que não acompanham nem a inflação específica de quem precisa comer, morar e viver.
Brasil cresceu pelo volume de trabalhadores, não pela qualidade do que cada um produz. Esse modelo chegou ao teto. O próximo passo exige o que ninguém ainda fez.
O paradoxo que os indicadores não mostram
Há uma ilusão estatística no centro desse problema. O IBGE considera como 'ocupada' qualquer pessoa que tenha trabalhado pelo menos uma hora na semana de referência — incluindo informais e bicos. Desemprego baixo não é sinônimo de emprego suficiente.
O resultado é um país onde os indicadores macroeconômicos estão nos melhores níveis históricos e a sensação de sufoco financeiro também está nos piores níveis históricos — e ambas as coisas são verdade. Não porque os números mentem. Porque medem coisas diferentes do que as famílias vivem. A massa salarial bateu recorde. A inadimplência também. A renda média subiu. O preço da cesta básica também. O emprego está no piso histórico. E 80,2% das famílias estão endividadas.
O economista João Mário Santos de França, da FGV Ibre, chamou o modelo atual de potencial 'bomba-relógio': o emprego está crescendo em ocupações de baixo valor agregado e baixa produtividade. Sustentado por estímulos fiscais que têm limite. Quando esse limite chegar, o país vai precisar de uma resposta que não depende de baixar juros nem de expandir crédito — vai precisar de produtividade real, que leva anos para ser construída e que exige escolhas políticas que nenhum governo ainda fez de forma consistente.
O brasileiro trabalha mais do que antes. Ganha mais do que antes, em termos nominais. E tem menos do que antes, em termos reais — porque a inflação come a diferença, o juro devora o crédito que tentou cobrir essa diferença, e o salário de entrada nas vagas disponíveis não acompanha nem uma coisa nem outra. No fim, o brasileiro não está trabalhando para enriquecer — está trabalhando para não ficar mais pobre.
Fontes: IBGE — PNAD Contínua 2024/2025; Caged — janeiro 2026 (via Poder360, mar/2026); FGV Ibre — Observatório da Produtividade Regis Bonelli (mar/2025); CNI — produtividade industrial 2024; Banco Central do Brasil — nota de crédito nov/2025; CNC — Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (fev/2026); InfoMoney — inadimplência rotativo cartão 2025 (fev/2026); Jornal da USP/FEA-USP — Daniel Bergmann (set/2025); FGV Ibre/Blog IBRE — endividamento familiar (out/2025); OIT — ranking produtividade 131 países, via Sindilojas-SP (mar/2025); IPCA/IBGE — inflação alimentação no domicílio 2024-2025.