Em Guerra, os Dois Lados Perdem
Numa série, vi soldados americanos entrarem num campo de concentração pela primeira vez. Nenhum deles saiu o mesmo. Fiquei me perguntando: quem sai diferente dos campos de guerra de hoje?
Iris de Oliveira · 30 de mar. de 2026Estava assistindo à série Irmão de Guerra — Band of Brothers — numa tarde comum, sem esperar muito além de uma boa produção histórica. Então chegou o episódio em que soldados da Easy Company, a companhia de paraquedistas americanos que atravessou a Europa na Segunda Guerra Mundial, entram num campo de concentração alemão pela primeira vez. Ali estavam eles: homens que tinham visto combate, morte, destruição — e que ficaram paralisados diante daquilo. Sem palavras. Alguns choraram. O comandante não conseguiu terminar o discurso que tentou fazer.
Fiquei emocionado. E fiquei com uma pergunta que não me saiu da cabeça por dias: o que aqueles homens foram buscar naquela guerra? Foram buscar aquilo? Sabiam que era possível chegar a esse nível? E quem ordenou que chegassem a esse nível — onde estava, naquele momento?
A resposta para a última pergunta é sempre a mesma, em toda guerra, em todo século: numa sala confortável. Longe do campo. Longe do cheiro, do barulho, do peso de um corpo que não volta mais.
O que a ficção mostra que o noticiário esquece
Existe uma verdade sobre a guerra que os boletins militares, os pronunciamentos presidenciais e as análises geopolíticas raramente enunciam com clareza: em qualquer conflito armado, os que mais sofrem são os que menos decidiram. O soldado de 19 anos que entrou no campo de concentração em 1945 não tinha declarado aquela guerra. O soldado alemão que guardava o campo também não era o arquiteto do horror que criou. Os prisioneiros dentro das grades definitivamente não eram. As vítimas de toda guerra — de todos os lados, de todos os tempos — são, em sua esmagadora maioria, pessoas que foram colocadas dentro de uma decisão que outra pessoa tomou.
Isso não equaliza os lados — mas mostra uma coisa: quem paga a guerra quase nunca escolheu estar nela. A guerra não tem vencedores. Tem sobreviventes. E tem um número muito maior de pessoas que não sobrevivem — de ambos os lados.
Os que decidem a guerra raramente são os que a travam. Os que a travam raramente são os que escolheram travá-la. E os que morrem nela quase nunca são os que poderiam tê-la evitado.
O mundo de 2026 — 120 conflitos, uma única conta
Assistir a Band of Brothers em 2026 tem um peso diferente de assistir em 2001, quando a série foi lançada. Porque em 2026, segundo o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, há 120 conflitos armados ativos no mundo simultaneamente. Não são escaramuças isoladas. São guerras — com mortos, com feridos, com civis deslocados, com crianças que crescem sem ver seus pais voltarem.
Em linguagem concreta: enquanto você lê este texto, há pessoas morrendo em conflitos armados em todos os continentes habitados do planeta. No leste europeu, a guerra entre Rússia e Ucrânia completou mais de quatro anos e acumula cerca de 350 mil mortos — entre soldados e civis. Mais de 5 milhões de ucranianos estão refugiados em outros países. Quase 4 milhões estão deslocados dentro do próprio país. Do lado russo, segundo estimativas independentes, centenas de milhares de jovens morreram ou ficaram permanentemente incapacitados numa guerra que Putin decidiu numa reunião do Kremlin.
Em Gaza, segundo dados do Ministério da Saúde local considerados confiáveis pela ONU, mais de 70 mil palestinos morreram desde outubro de 2023 — incluindo mais de 30 mil mulheres e crianças. Do outro lado, cerca de 1.200 israelenses morreram no ataque do Hamas que iniciou o ciclo mais recente. Do lado palestino, do lado israelense — os mortos eram pais, mães, filhos, professores, padeiros, estudantes. Nenhum deles declarou aquela guerra.
No Sudão, uma guerra civil entre duas facções militares produziu, em dois anos, mais de 150 mil mortos e 12 milhões de deslocados — a maior crise de deslocamento interno do mundo em 2025, segundo a ONU. No Sudão do Sul, na Etiópia, no Congo, no Iêmen, no Afeganistão — a lista continua. A maioria das pessoas que morre nessas guerras não tem nome nos noticiários ocidentais. Tem apenas o peso de uma vida que acabou numa decisão que outra pessoa tomou.
A sala confortável — e quem a ocupa
O que me perturbou no episódio de Band of Brothers não foi apenas o horror do campo de concentração. Foi a pergunta que ele inevitavelmente levanta: quem arquitetou aquilo estava vivo naquele momento. Estava em algum lugar. Talvez já preso, talvez ainda fugindo. Mas estava. Enquanto as pilhas de corpos existiam, quem as havia ordenado existia em outro lugar, sob outras condições.
Essa assimetria é a constante de toda guerra em toda a história. Os que decidem os conflitos raramente habitam o mesmo espaço de risco que os que os executam. Putin assiste ao avanço das tropas russas em monitores. Netanyahu autoriza operações em Gaza a partir de Tel Aviv. Os líderes do Hamas que sobreviveram ao conflito estavam em Doha, Catar, enquanto Gaza era bombardeada. Os generais que comandaram as guerras da OTAN no Afeganistão por 20 anos se aposentaram com honras. Os soldados que voltaram carregam traumas que a aposentadoria não cura.
Não estou equalizando as responsabilidades morais de cada um desses líderes — elas são radicalmente diferentes. Estou apontando uma estrutura comum: a distância física e existencial entre quem decide a guerra e quem morre nela. Essa distância é o motor que permite que guerras continuem. Se os que as decidem tivessem que entrar no campo de batalha pessoalmente, a história dos conflitos humanos seria diferente.
O que se perde que não volta
Existe um inventário do que a guerra destrói que as estatísticas de mortos não cobrem. Um filho que não voltou deixa uma mãe que vai carregar esse peso até o fim da vida — não importa de qual lado da fronteira. Um pai morto em combate deixa filhos que crescerão sem aquela presença — não importa a bandeira. Uma criança que viu a própria casa bombardeada carregará isso na memória enquanto viver — não importa quem ordenou o bombardeio.
Segundo o Panorama Humanitário 2026 do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, as normas e os limites que deveriam proteger os civis na guerra estão sendo sistematicamente ignorados. Os civis são, cada vez mais, não o efeito colateral dos conflitos — são o alvo. Em 2025, 25 voluntários e funcionários da própria Cruz Vermelha foram mortos em zonas de conflito. Pessoas que foram ao campo de batalha para salvar vidas foram mortas por estarem nesse campo.
Os gastos globais com defesa chegaram a US$ 2,7 trilhões em 2024. O apelo humanitário de todo o sistema internacional para cuidar das vítimas dessas guerras foi de US$ 50 bilhões — e nem esse valor foi alcançado. O mundo gasta 54 vezes mais para fazer a guerra do que para cuidar de quem ela destroça.
De volta à série — e ao que ela me ensinou
Band of Brothers é uma série sobre soldados americanos. Sobre heróis, tecnicamente. Mas o episódio do campo de concentração não é sobre heroísmo — é sobre o que acontece quando um ser humano se depara, sem aviso, com a evidência física de até onde outro ser humano é capaz de chegar quando o poder não tem freio e o outro deixa de ser humano aos seus olhos.
Os soldados que entraram naquele campo em 1945 não encontraram inimigos. Encontraram o resultado de uma decisão que alguém havia tomado anos antes, em outra sala, sobre o valor de certas vidas. Esse é o mecanismo que toda guerra ativa em algum grau: a decisão, tomada por poucos em segurança, de que certas vidas valem menos do que um objetivo político, territorial ou ideológico.
Em 2026, esse mecanismo está funcionando em 120 lugares ao mesmo tempo. E em cada um deles, há uma Easy Company entrando num campo que nunca deveria ter existido — e ficando sem palavras diante do que encontra.
Toda guerra tem dois lados. Os dois perdem filhos, pais, casas e anos de vida que não voltam. A diferença é que quem declarou a guerra quase nunca está entre eles.
Fontes: CICV — Panorama Humanitário 2026 (jan/2026); A Referência — sete conflitos ativos (jan/2026); Poder360 — 30 possibilidades de conflito em 2026 (dez/2025); Mix Vale — conflitos globais (dez/2025); IHU Unisinos/PRIO — Relatório de Tendências de Conflitos 2025; Statista — conflitos globais 2025; ONU — dados de deslocamento e mortes em conflitos (2024–2025); Ministério da Saúde de Gaza (verificado pela ONU); Band of Brothers — série HBO/Amblin Entertainment (2001), episódio 9, "Why We Fight"; Stephen Ambrose — "Band of Brothers" (Simon & Schuster, 1992).