O Vício não é de Gastar. É de Sobreviver.
Na quinta-feira, o presidente disse que o brasileiro se endivida porque tem vício de gastar. Os dados dizem outra coisa: o brasileiro se endivida porque o salário não cobre o básico — e o cartão de crédito cobra 476% ao ano pelo privilégio de completar a diferença.
Iris de Oliveira · 29 de mar. de 2026Na quinta-feira, 26 de março, o presidente Lula visitou a fábrica da Caoa em Anápolis, Goiás, e fez uma declaração que vai render muito material para os marqueteiros da oposição nas eleições de outubro. Falando sobre o endividamento das famílias brasileiras — 78,9% delas, segundo a CNC, o maior percentual desde o início da série histórica —, Lula encontrou o diagnóstico: "Tem gente que tem vício de gastar. É bom gastar, né? É bom comprar coisa. Eu vou ver uma blusinha nova na internet. Ela é só R$ 50, ela é só R$ 80". E concluiu pedindo ao novo ministro da Fazenda, Dario Durigan, que apresente soluções — incluindo campanhas de educação financeira para ensinar o brasileiro a administrar o salário.
Há um problema nesse diagnóstico. Ele é errado.
Não completamente errado — compras impulsivas existem, o crédito digital facilita gastos não planejados e educação financeira nunca faz mal. Mas tratar o endividamento de 73,3 milhões de brasileiros inadimplentes como questão de comportamento individual, quando os dados mostram uma crise estrutural de renda e de custo do crédito, é inverter a causa e o efeito. É o mesmo raciocínio de culpar o paciente pela doença.
O que os números dizem — antes de qualquer opinião
O brasileiro não se endivida porque tem vício de comprar blusinha na internet. O brasileiro se endivida porque seu salário não cobre o custo de vida — e quando a diferença precisa ser financiada, o sistema financeiro cobra uma taxa que não existe em nenhum outro lugar do mundo.
Segundo dados do Banco Central compilados pela Infomoney, a taxa média de juros do cartão de crédito no Brasil chegou a 476% ao ano em janeiro de 2026. No rotativo — aquele que entra em vigor quando o consumidor não paga a fatura inteira — a inadimplência atingiu 64,7% em dezembro de 2025, recorde histórico da série iniciada em 2011. Em linguagem direta: quem não paga a fatura total do cartão entra numa espiral em que uma dívida de R$ 1.000 vira R$ 5.530 em um ano. Não por vício. Por matemática.
Segundo a professora Virgínia Oliveira, da Fundação Dom Cabral, "com juros de 435% em média, isso significa que uma dívida de R$ 1.000 gera um montante de R$ 5.530 em 1 ano. Não há nenhum investimento que remunere o dinheiro a essa taxa." A frase resume com precisão o que o discurso presidencial ignorou: o problema não é o consumidor que gasta — é o sistema que cobra.
Nos EUA, o juro máximo do cartão de crédito é de 24,99% ao ano. No Brasil, a média é de 476% — e o máximo encontrado chega a mais de 1.000%. O brasileiro não tem vício de gastar. Tem vício de sobreviver num sistema que cobra pela sobrevivência.
Quantos dias um trabalhador precisa trabalhar para comprar a mesma coisa
Para entender o que o endividamento brasileiro tem de estrutural, o comparativo com os Estados Unidos é revelador. O salário mínimo federal americano é de US$ 7,25 por hora — o que, em jornada padrão de 40 horas semanais, resulta em aproximadamente US$ 1.160 mensais. O salário mínimo brasileiro em 2026 é de R$ 1.621 — equivalente a cerca de US$ 290 na cotação atual. Em linguagem direta: o trabalhador americano ganha, no mínimo federal, quatro vezes mais do que o brasileiro.
O que isso significa na prática, em dias de trabalho para comprar os mesmos produtos? Segundo o Dieese, o salário mínimo ideal no Brasil — aquele que cobriria o custo real da cesta básica de uma família — deveria ser de R$ 7.075,83. O piso real é R$ 1.621. A diferença é paga de alguma forma. Frequentemente, com cartão de crédito.
Dias de trabalho para comprar — Brasil x EUA (salário mínimo)
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Produto |
🇧🇷 Brasil |
🇺🇸 EUA |
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Cesta básica (família de 4) |
~20 dias |
~6 dias |
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Smartphone intermediário (R$ 1.500 / US$ 300) |
~28 dias |
~8 dias |
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Geladeira básica (R$ 2.000 / US$ 400) |
~37 dias |
~11 dias |
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Plano de saúde básico (mensal) |
~12 dias/mês |
Coberto por employer* |
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Mensalidade de faculdade pública |
Gratuita (mas há filas e cotas) |
~20 dias/mês (pública estadual) |
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Juro do cartão de crédito (rotativo/ano) |
476% ao ano |
~20% ao ano |
* Calculado com base no salário mínimo de cada país. Cotação dólar: R$ 5,60. | Fonte: Dieese, Banco Central do Brasil, U.S. Dept. of Labor, Bureau of Labor Statistics.
O governo que tem vício de gastar mais do que arrecada
Há uma ironia que o discurso presidencial de quinta-feira preferiu não enunciar. Enquanto Lula diagnosticava o vício de gastar do brasileiro comum, o governo federal encerrava 2025 com déficit de R$ 61,7 bilhões — gastando mais do que arrecadou, pelo terceiro ano consecutivo, com arrecadação recorde de R$ 3,98 trilhões. O Tesouro Nacional registrou endividamento público bruto equivalente a 78,7% do PIB.
Em linguagem direta: o presidente que pediu educação financeira para o cidadão administra um Estado que não consegue fechar as próprias contas. O cidadão que comprou a blusinha de R$ 50 pagará, via impostos, parte dos juros da dívida pública que financia o déficit do governo. E pagará com o dinheiro que sobrou — se sobrar — depois de pagar os 476% do rotativo do cartão.
O ponto não é que o governo não pode ter déficit — há momentos em que investimento público com déficit é política econômica legítima e necessária. O ponto é que o argumento da educação financeira soa diferente quando vem de um Estado que gasta estruturalmente mais do que arrecada e que transfere parte desse custo para os juros que o próprio cidadão paga no crédito.
O que explica o endividamento — para além do vício
Segundo a Revista Fórum, em análise publicada esta semana, o endividamento brasileiro tem três motores estruturais que independem do comportamento do consumidor. O primeiro é que o salário entra, mas não permanece: é rapidamente absorvido por parcelas, juros do cartão, crédito consignado e financiamentos. O segundo é que o custo de vida cresceu mais rápido do que a renda real — saúde, escola, serviços e mercado ficaram mais caros, forçando o uso do cartão como complemento de renda, não como luxo. O terceiro é que os juros do crédito operam, nas palavras da Revista Fórum, como "um imposto não declarado sobre o presente e sobre o futuro" — invisível na prateleira, devastador na fatura.
Segundo a FGV Ibre, quem tinha R$ 2.000 de limite no cartão passou a ter R$ 5.000 com a expansão do crédito digital. As pessoas usaram esse limite como extensão do salário — racionalmente, baseadas na confiança de que manteriam o emprego. Os juros compostos cresceram mais rápido do que os aumentos reais de renda. Quando a fatura ficou impagável, o rotativo entrou. Quando o rotativo entrou, a espiral começou. Não por vício. Por uma combinação de renda insuficiente, crédito caro e falta de alternativa.
O brasileiro não precisa de campanha de educação financeira para saber que 476% ao ano é caro demais. Precisa de um sistema financeiro que cobre o que o resto do mundo cobra — e de um salário que cubra o que a vida custa.
Fontes: Revista Oeste (26/mar/2026); Metrópoles (26/mar/2026); Poder360 (26/mar/2026); ND Mais (26/mar/2026); Jornal de Brasília (26/mar/2026); Fetec-PR (27/mar/2026); CNC — Pesquisa de Endividamento (dez/2025); CNDL/SPC — inadimplência (jan/2026); Banco Central do Brasil — taxa de juros cartão de crédito (jan/2026); Infomoney — endividamento 2026 (jan/2026); Infomoney — rotativo cartão (fev/2026); Revista Fórum (mar/2026); FGV Ibre — Silvia Matos e Flávio Ataliba; Fundação Dom Cabral — Virgínia Oliveira; Dieese — cesta básica ideal (set/2025); Exame — salário mínimo EUA (dez/2025); PROTESTE — comparativo juros cartão Brasil x mundo; Tesouro Nacional — resultado primário 2025.