A Fila que Não Existe — Para Quem Não Está Nela
Mais de 3 milhões de brasileiros aguardam uma resposta do INSS. Alguns esperam perícia marcada para daqui a um ano. Para o ministro, porém, isso não é uma fila de verdade — porque não há ninguém na calçada. Depende do ponto de vista.
Iris de Oliveira · 28 de mar. de 2026Dona Maria tem 58 anos, trabalhou como doméstica por 34 anos com carteira assinada e sofreu um AVC em novembro do ano passado. Pediu o auxílio por incapacidade ao INSS em dezembro. A perícia foi marcada para fevereiro de 2027 — quatorze meses de espera. Nesse intervalo, ela não tem renda, não tem como trabalhar e depende da família para custear remédios e fisioterapia. Para o governo federal, Dona Maria não está numa fila. Está num sistema de agendamento virtual.
A distinção pode parecer semântica. Para Dona Maria, é a diferença entre existir e não existir para o Estado que ela financiou por mais de três décadas.
O tamanho do problema — em números verificáveis
Segundo dados oficiais do Ministério da Previdência Social, a fila do INSS ultrapassou 3 milhões de requerimentos pendentes no início de 2026 — o maior patamar desde o início da série histórica, em 2004, conforme registrou a Valor Econômico. Desse total, segundo o Ministério, 1,1 milhão aguarda especificamente a realização de perícia médica. Se somados os casos que exigem revisão pericial, o número sobe para 1,6 milhão de pessoas esperando um médico perito do governo para avaliar se têm direito ao benefício que solicitaram.
A lei é clara: o INSS tem até 45 dias para analisar qualquer pedido de benefício. Esse prazo vem sendo sistematicamente descumprido. Em muitos casos, segundo o portal Previdenciarista, o atraso já ultrapassa vários meses — e em casos de perícia médica, chega a mais de um ano em diversas regiões do país.
Em linguagem direta: 3 milhões de brasileiros protocolaram um pedido ao INSS, aguardam uma resposta dentro do prazo que a lei garante — e não receberam. São aposentadorias, pensões por morte, auxílios por incapacidade, salário-maternidade e BPC. São pessoas que adoeceram, enviuvaram, ficaram sem condições de trabalhar. E que esperam.
3 milhões de requerimentos pendentes. 1,1 milhão aguardando perícia. Prazo legal de 45 dias sistematicamente descumprido. Para quem está nessa fila, o problema não é virtual — é a única realidade que existe.
A frase que resume o problema de quem não está na fila
Em diferentes momentos, representantes do governo responsáveis pela Previdência Social utilizaram a distinção entre fila física e fila virtual para comunicar que a situação era gerenciável — que não havia aglomeração nas calçadas das agências como houve em outros períodos críticos da história do INSS. O ex-ministro Carlos Lupi, que comandou a pasta de janeiro de 2023 até maio de 2025 quando pediu demissão em meio ao escândalo de fraudes, adotou o argumento da fila virtual como linha de comunicação oficial sobre o tema.
O raciocínio tem uma lógica administrativa: a modernização do sistema, com atendimento digital pelo aplicativo Meu INSS, de fato eliminou as filas presenciais nas agências. Isso é real e representa um avanço. O problema é que a ausência de pessoa na calçada não significa ausência de pessoa em sofrimento. Significa apenas que o sofrimento migrou para dentro de casa — invisível, silencioso e sem prazo para acabar.
A distinção entre fila física e fila virtual funciona como argumento de gestão para quem olha o painel de indicadores. Não funciona como argumento de vida para quem está com a conta bancária zerada, esperando um benefício que a lei garante mas o sistema não entrega.
Por que a fila cresceu — as causas estruturais
A fila de 3 milhões não surgiu de uma crise isolada. Segundo o presidente do INSS, Gilberto Waller Júnior, o instituto tinha 36 mil funcionários em 2022 e passou para 18 mil em 2025 — uma redução de 50% no quadro de servidores em três anos. Ao mesmo tempo, a demanda cresceu: segundo o Ministério, chegam 1,3 milhão de novos pedidos por mês ao sistema. A matemática é simples e cruel: metade dos servidores tentando processar o mesmo volume de pedidos produz fila. Não há tecnologia que compense a ausência de gente.
Há ainda outro fator que raramente aparece na comunicação oficial. O Atestmed — sistema criado na pandemia para concessão de auxílio-doença sem perícia presencial — foi amplamente expandido em 2023 e 2024 como estratégia para reduzir a fila. Funcionou no curto prazo: os pedidos presenciais caíram. No médio prazo, segundo análise do TCU, gerou um aumento expressivo de concessões indevidas — R$ 18,4 bilhões analisados entre 2023 e 2025. O sistema que devia desafogar a fila criou um novo problema: benefícios concedidos sem a análise adequada, que depois precisam ser revisados, gerando nova demanda sobre o mesmo sistema já sobrecarregado.
O que o governo está fazendo — e o que ainda não é suficiente
O governo não está parado diante do problema. Segundo o Ministério da Previdência, 500 novos médicos peritos foram convocados em setembro de 2025 após concurso público. Este fim de semana — 28 e 29 de março — o Ministério realiza mutirão de perícias em 132 agências de todas as regiões do país, com previsão de 37 mil atendimentos presenciais e por teleperícia. A Lei nº 15.201/2025, sancionada pelo presidente Lula, criou o Programa de Gerenciamento de Benefícios, que paga bônus de R$ 68 por processo analisado e R$ 75 por perícia realizada para acelerar o fluxo.
Os números do mutirão deste fim de semana ilustram tanto o esforço quanto a escala do desafio: 37 mil atendimentos em dois dias. A fila de perícia tem 1,1 milhão de pessoas. Em linguagem direta: o mutirão de fim de semana atende 3,4% da fila de perícia. São 37 mil histórias como a de Dona Maria que terão uma resposta antes dos outros. As demais continuam esperando.
Segundo técnicos ouvidos pelo portal Previdenciarista, o desafio é estrutural e não deve ser resolvido no curto prazo. A meta do governo, segundo o ministro Wolney Queiroz, é reduzir a fila ao longo de 2026 — ano eleitoral, o que adiciona urgência política ao problema. "Continuaremos vendo a fila de maneira prioritária", afirmou o ministro. "São pessoas vulneráveis, que precisam do apoio do Estado e merecem receber uma resposta o mais rápido possível."
O que a fila representa além do número
Por trás de cada um dos 3 milhões de requerimentos pendentes há uma história que o painel de indicadores não mostra. Há o idoso que pediu a aposentadoria e não sabe se vai receber a tempo de ver o processo concluído. Há a viúva que aguarda a pensão por morte e pagou o aluguel com o dinheiro que guardava para emergência. Há o trabalhador afastado por doença que esgotou o período pago pelo empregador e ainda não tem resposta do INSS.
Quem acompanha o cotidiano das agências de previdência e dos escritórios de advocacia previdenciária percebe o que as estatísticas não capturam: a degradação da dignidade que acontece na espera. A pessoa que vai à agência com seus documentos, recebe um número de protocolo, é instruída a aguardar — e aguarda. Meses. Às vezes mais de um ano. Sem certeza, sem previsão, sem interlocutor que responda com clareza o que está acontecendo com o seu processo.
Chamar de virtual uma fila de 3 milhões de pessoas é um privilégio de quem não está nela. Para quem está, a espera é real, o sofrimento é concreto e o prazo legal que o Estado descumpre todos os dias não tem nada de virtual. Para quem está nela, não existe sistema — existe espera.
Fontes: Ministério da Previdência Social — nota oficial (jan/2026 e mar/2026); Previdenciarista.com (fev/2026); Jornal de Brasília (25/mar/2026); ND Mais — mutirão INSS (26/mar/2026); Sitepd.org.br — Atestmed novas regras (25/mar/2026); TCU — análise Atestmed (2025); Lei nº 15.201/2025; Valor Econômico (apud Previdenciarista); Agência Brasil — entrevista Carlos Lupi (mai/2023); Brasil de Fato — Wolney Queiroz (mai/2025).