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Iris de Oliveira
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TRABALHO & SOCIEDADE

O Loop que Adoece — e a Empresa que Descarta

Todo dia 1º do mês, o contador zera. A meta recomeça. O ciclo se repete. Para centenas de milhares de trabalhadores brasileiros, esse loop não é rotina — é adoecimento programado.

Iris de Oliveira · 27 de mar. de 2026

Você bateu a meta de janeiro. Em fevereiro, a meta é maior. Você bateu a de fevereiro. Em março, maior ainda. No dia 31, às 23h59, o sistema registra o último número do mês. À meia-noite, tudo zera. O esforço de trinta dias vira zero no painel. E no dia 1º, o ciclo começa de novo — com uma meta que nunca é menor do que a do mês anterior, porque crescimento é o único resultado que o sistema aceita.

Quem trabalhou ou trabalha no varejo brasileiro sabe exatamente do que estou falando. Não como conceito. Como experiência física — o aperto no peito na reunião de segunda-feira, a sensação de nunca ser suficiente, o domingo à noite que já não é descanso porque a cabeça está na abertura de amanhã.

Eu sei disso porque vivi. Por quase 16 anos, trabalhei no setor de varejo. E o que esse sistema produziu em mim não foi superação. Foi adoecimento.

O que os números escondem sobre quem trabalha neles

O problema não é a meta. O problema é o sistema que usa a meta como instrumento de pressão permanente — sem teto, sem pausa, sem reconhecimento acumulado. Um sistema onde bater 120% do objetivo num mês não garante nada no mês seguinte, porque o ponto de partida foi recalibrado para cima. Em linguagem direta: você nunca está ganhando. Você está apenas atrasando a próxima cobrança.

Segundo o Ministério da Previdência Social, o Brasil registrou 546 mil afastamentos por transtornos mentais em 2025 — o maior número da série histórica, 67% acima do ano anterior. Os diagnósticos mais comuns foram ansiedade com episódios depressivos, depressão e burnout. E segundo levantamento da Gupy publicado esta semana, o varejo e atacado lidera o ranking setorial de trabalhadores em faixa de risco para burnout — com 10,79% dos profissionais do setor nessa condição. Não é o setor mais perigoso fisicamente. É o mais perigoso mentalmente.

Entre 2022 e 2024, segundo o Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, os gastos do INSS com auxílios-doença por transtornos mentais saltaram de R$ 18,9 bilhões para R$ 31,8 bilhões. Em dois anos, quase dobrou. Esse dinheiro sai do caixa público. Mas o adoecimento que o gerou saiu de dentro de pessoas reais — que foram pressionadas, esgotadas e, em muitos casos, descartadas quando o corpo não aguentou mais.

O sistema não quer saber se você está bem. Quer saber se você bateu a meta. Quando você não consegue mais fazer as duas coisas ao mesmo tempo, o sistema resolve o problema — e você não é a solução escolhida.


Como o loop funciona — por dentro

Quem nunca trabalhou sob esse modelo tem dificuldade de entender por que é tão destrutivo. Não é a pressão de um mês difícil. É a pressão acumulada de anos sem pausa real, porque mesmo quando o mês foi bom, o alívio dura 48 horas — até a próxima reunião de planejamento mostrar que o mês seguinte vai exigir mais.

O sistema funciona assim: você é avaliado pelo que produziu, não pelo que é. Seu valor para a empresa é renovado mensalmente — e pode ser revogado da mesma forma. A pressão não vem de um chefe mal-intencionado, na maioria das vezes. Vem de uma estrutura que transforma pessoas em indicadores. O gestor que pressiona também é pressionado. O gerente regional que cobra também é cobrado. É uma cadeia de transmissão de ansiedade de cima para baixo — e quem está na base recebe toda a carga sem ter para onde repassar.

Com o tempo, o trabalhador desenvolve o que os especialistas chamam de hipervigilância crônica — um estado permanente de alerta que o corpo mantém mesmo fora do trabalho. O domingo começa a ter sabor de segunda-feira desde o sábado à tarde. O sono fragmenta. A irritabilidade aumenta. A capacidade de concentração cai. E o próprio trabalhador interpreta esses sinais como fraqueza pessoal — não como consequência de um ambiente estruturalmente adoecedor.

O descarte — o que a empresa não diz quando dispensa quem adoeceu

Escrevo isso com conhecimento de causa. Depois de quase 16 anos dedicados a uma empresa do setor varejista — 16 anos de metas batidas, de domingos trabalhados, de férias interrompidas, de saúde comprometida em nome de resultados —, adoeci. E a empresa simplesmente me descartou.

Não houve reconhecimento pelos anos entregues. Não houve cuidado com o processo. Houve uma decisão administrativa, um papel assinado e uma saída. É o que acontece quando um ser humano passa a ser encarado como uma peça — e a peça apresenta defeito.

Não sou caso isolado. Segundo levantamento do escritório Trench Rossi Watanabe divulgado pela Folha de S.Paulo, foram 16.670 ações trabalhistas ligadas a burnout em 2024 — um número quase 22 vezes maior do que o registrado dez anos antes. Em 2025, só nos primeiros quatro meses, já eram 5.248 novos processos — alta de 14,5% sobre o mesmo período do ano anterior. Esses números têm rosto. São pessoas que trabalharam anos, adoeceram no processo e descobriram, quando mais precisavam, que a empresa que as havia consumido não tinha nenhuma obrigação de cuidar.

Existe uma palavra para o que acontece quando uma empresa demite o trabalhador que adoeceu por causa dela: descarte. É a mesma lógica de quem usa o produto até o fim e joga fora a embalagem. A empresa que não investe em ambiente saudável, que normaliza metas inatingíveis, que não reconhece os sinais de esgotamento dos seus trabalhadores — essa empresa não perde um colaborador quando o demite. Ela descarta um custo que deixou de ser produtivo. E parte para o próximo.

Para quem ainda está dentro

Escrevo esta coluna para quem ainda está nesse loop — e que talvez esteja lendo isso num domingo à noite, com o aperto no peito que já virou familiar. Não para dizer que você deve sair amanhã, nem que sua empresa é má. Escrevo para nomear o que você sente — porque dar nome ao problema é o primeiro passo para não deixar que ele seja tratado como fraqueza sua.

O que você sente não é falta de garra. Não é falta de comprometimento. É a resposta normal de um corpo humano a um sistema que foi projetado para extrair o máximo sem se preocupar com o que fica. Segundo a psicóloga Rayane Lima, do Observatório de Saúde no Trabalho, "diante da necessidade de sobrevivência no mercado, muitos trabalhadores colocam suas questões emocionais em segundo plano, administrando os conflitos de forma automática até que o corpo e a mente não suportam mais." Quando esse ponto chega, não é falha do trabalhador. É o resultado esperado de um sistema que nunca foi projetado para ele durar.

A empresa que descarta quem adoece por causa dela não perdeu um funcionário. Perdeu a prova mais concreta de que o sistema que ela construiu é insustentável para quem vive dentro dele.

Fontes: Ministério da Previdência Social — afastamentos por transtornos mentais (2024–2025); Gupy — pesquisa saúde mental no trabalho (mar/2026); Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho; INSS — auxílios-doença por transtornos mentais; Trench Rossi Watanabe/Folha de S.Paulo — processos trabalhistas por burnout (2025); Instituto Suassuna — Dr. Danilo Suassuna; ISMA-BR (International Stress Management Association); OMS — Organização Mundial da Saúde.