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SAÚDE PÚBLICA & SOCIEDADE

O Infarto Não Espera Mais Você Envelhecer

Em fevereiro de 2025, um jogador de futebol de 26 anos morreu de infarto fulminante no alojamento do clube, horas antes de uma partida. Não era caso isolado. Era estatística.

Iris de Oliveira · 24 de mar. de 2026

Gabriel Popó tinha 26 anos, jogava no XV de Jaú e morreu no alojamento do clube em fevereiro de 2025, horas antes de uma partida pelo Campeonato Paulista. No mesmo mês, José Dyonizio Aquino de Araújo, de 18 anos, faleceu após sentir dores no peito dentro da escola em que estudava, em Teresina. Em janeiro de 2024, o personal trainer Danilo de Campos, 31 anos, que malha seis vezes por semana e seguia dieta orientada por nutricionista, morreu de infarto em Ponta Grossa sem que ninguém ao redor soubesse o que estava acontecendo.

Três casos, três idades, três perfis completamente diferentes. Um denominador comum: todos tinham menos de 35 anos. Todos morreram de infarto. E todos fazem parte de um fenômeno que os dados do Ministério da Saúde tornaram impossível de ignorar.

O número que mudou tudo

Segundo levantamento do Ministério da Saúde, o número de internações por infarto agudo do miocárdio em pessoas com menos de 40 anos passou de menos de dois casos por 100 mil habitantes no ano 2000 para quase cinco em 2024 — um crescimento de 180% em duas décadas. Na faixa entre 35 e 39 anos, segundo o cardiologista Fernando Figueira, o número saltou de 9,3 para 18 casos por 100 mil habitantes — quase o dobro.

Em termos concretos: de 2022 a 2024, segundo dados do Ministério da Saúde compilados pelo portal Metrópoles, foram mais de 234 mil atendimentos relacionados a infarto em pessoas com menos de 40 anos no Brasil em apenas três anos. Nos mesmos três anos, o infarto matou mais de 7,8 mil jovens — 2.720 em 2022, 2.609 em 2023 e ao menos 2.536 em 2024.

O diagnóstico que reorganiza tudo o que sabíamos sobre doenças cardíacas é este: o infarto deixou de ser uma doença do envelhecimento. Tornou-se uma doença do estilo de vida — e o estilo de vida piorou mais rapidamente entre jovens do que em qualquer outra faixa etária.

 

De 2022 a 2024, o infarto matou mais de 7,8 mil brasileiros com menos de 40 anos. São quase três mil por ano — mais de oito por dia. Uma faixa etária que até pouco tempo atrás raramente aparecia nas estatísticas cardíacas.

Embora os dados sejam nacionais, a realidade não é diferente no nosso estado e na nossa cidade.

 

 

Por que o jovem infarta diferente — e por que é mais perigoso

Para entender por que o infarto em jovens é mais letal, é preciso entender o que o coração faz para se proteger com o envelhecimento. Ao longo dos anos, quando uma artéria começa a ser obstruída lentamente por placas de gordura, o coração cria rotas alternativas de circulação — vasos menores que desviam o fluxo de sangue e compensam parcialmente a obstrução. Em linguagem direta: o coração velho aprende a se virar com menos espaço.

O jovem ainda não teve tempo de desenvolver esse mecanismo. Quando uma artéria entope, entope de vez — e o infarto costuma ser fulminante. Segundo o professor Miguel Ângelo Noronha, do Centro Universitário UniBH, o risco de infarto fatal é especialmente maior em pessoas abaixo dos 40 anos exatamente por essa razão. O coração jovem, sem rotas alternativas desenvolvidas, tem menos margem de segurança do que o coração que passou décadas sendo desafiado.

Há ainda outro elemento que os especialistas identificam como particularmente preocupante: cerca de metade dos infartos em jovens são silenciosos — ou seja, não apresentam o sintoma clássico da dor no peito intensa. Segundo o cardiologista Leopoldo Piegas, do HCor, os sintomas podem se manifestar como fadiga, náusea, falta de ar ou desconforto difuso — sensações que, num corpo jovem e saudável, são facilmente confundidas com estresse, ansiedade ou cansaço. A vítima espera. O infarto, não.

As causas — velhas e novas

Os fatores de risco clássicos continuam presentes: tabagismo, sedentarismo, alimentação rica em gorduras saturadas, hipertensão arterial, diabetes, colesterol alto e histórico familiar. Segundo o cardiologista Rafael Côrtes, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, a maioria dos jovens que sofre infarto já apresenta ao menos um desses fatores — e o cigarro continua sendo o maior vilão isolado nessa faixa etária.

O que mudou são os fatores emergentes — que se somam aos riscos já conhecidos.

O primeiro é o cigarro eletrônico, o vape. Segundo o cardiologista Arthur Rente, da Rede D'Or São Luiz, o vape tem efeito negativo comprovado sobre o sistema cardiovascular — e é amplamente consumido por adolescentes e adultos jovens que o consideram inofensivo por não produzir fumaça visível. Não é.

O segundo é o uso de esteroides anabolizantes — substâncias que alteram o metabolismo do colesterol, provocam hipertrofia assimétrica do músculo cardíaco e aumentam o risco de trombose. Segundo especialistas ouvidos pelo portal Metrópoles, o uso de anabolizantes entre jovens que buscam ganhos estéticos em academias cresceu de forma expressiva na última década — frequentemente sem acompanhamento médico e em doses acima das indicações terapêuticas.

O terceiro fator emergente é a pandemia de Covid-19. Segundo o cardiologista Côrtes, citado pelo Metrópoles, a média de tempo sentado aumentou duas horas por dia durante a pandemia, a atividade física despencou e houve piora generalizada na alimentação, no sono e nos níveis de estresse. "Essas mudanças favoreceram o acúmulo de gordura visceral, a mais inflamatória, associada a infarto precoce", explicou o especialista. Além disso, segundo o cardiologista Arthur Rente, estudos internacionais mostraram aumento de eventos cardíacos em pessoas jovens e sem doenças prévias após infecção pelo coronavírus — um efeito ainda em investigação pela comunidade científica.

O que os casos concretos revelam sobre o padrão

A análise dos casos documentados pelo portal O São Gonçalo e pelo Metrópoles revela um padrão que os números agregados não mostram com clareza: muitas vítimas jovens relatam sintomas nos dias ou semanas anteriores ao infarto — e os ignoram. A musa carnavalesca Aline Bianca, 38 anos, sentia dores no peito há um mês e meio antes de morrer de infarto em fevereiro de 2025. Danilo de Campos, o personal trainer de 31 anos, relatou mal-estar no estômago horas antes — e foi dispensado de um hospital sem o diagnóstico correto.

O padrão é consistente: o jovem sente algo, interpreta como ansiedade ou cansaço, espera passar. O sistema de saúde, treinado historicamente para associar infarto a pessoas mais velhas, frequentemente demora a cogitar o diagnóstico em pacientes jovens. Segundo o cardiologista Leopoldo Piegas, do HCor, essa falha de reconhecimento — tanto do paciente quanto do sistema — é um dos principais fatores que tornam o infarto precoce mais letal do que deveria ser.

Um problema de saúde pública que ainda não foi tratado como tal

Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia, as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no Brasil — responsáveis por cerca de 400 mil óbitos por ano, segundo a CNN Brasil. Isso equivale a uma morte a cada 90 segundos. O dobro de todas as mortes por câncer somadas. Dois anos e meio a mais do que todas as mortes por acidentes de trânsito.

O que os dados de infarto em jovens acrescentam a esse quadro é uma dimensão que não estava prevista nas projeções epidemiológicas das décadas anteriores: a doença cardiovascular antecipou sua chegada em pelo menos uma geração. O que era esperado para os 60 anos está chegando aos 30. E as políticas de saúde pública — voltadas historicamente para triagem e prevenção na meia-idade — ainda não acompanharam essa mudança de perfil.

Profissionais que atuam em salas de emergência nos últimos anos percebem a mudança sem precisar de estatística: o perfil do paciente de infarto ficou mais jovem, mais masculino entre 30 e 40 anos, e com histórico de pelo menos um fator de risco que estava presente anos antes do evento — mas que não foi tratado porque ninguém, nem o médico nem o paciente, levou a sério naquela idade.

O infarto continua sendo, em sua maioria, evitável. O que mudou não é a doença — é a idade em que ela decide aparecer. E o sistema de saúde, assim como a percepção coletiva sobre o risco cardíaco, ainda não atualizou o calendário.

Este artigo é de natureza informativa e não substitui orientação médica especializada.

Fontes: Ministério da Saúde — levantamento de internações por infarto (2000–2024); Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC); CNN Brasil (fev/2025); Metrópoles (jul/2025); O São Gonçalo (mai/2025); O Tempo/UniBH — prof. Miguel Ângelo Noronha (jul/2025); HCor — dr. Leopoldo Piegas; Rede D'Or São Luiz — dr. Arthur Rente; Hospital Sírio-Libanês — dr. Rafael Côrtes (SBC); Policlínica Neurocor (jun/2025); Dr. Fernando Figueira (mai/2025); Band.com.br (mar/2025).