Cuba Apaga — e Não é só a Luz
Na segunda-feira, 10 milhões de cubanos perderam a energia ao mesmo tempo. Foi o sexto apagão total em dezoito meses. O que está em colapso não é só a rede elétrica.
Iris de Oliveira · 20 de mar. de 2026Às 13h40 de segunda-feira, a rede elétrica de Cuba foi desconectada. Toda ela. Dez milhões de pessoas, ao mesmo tempo, no escuro. Hospitais operando na reserva de emergência. Vacinas em risco de temperatura. Lixo acumulado nas ruas porque os caminhões não têm combustível. E uma reformada de 64 anos no bairro do Vedado, em Havana, explicando à agência France-Presse com uma naturalidade que deveria perturbar qualquer um: "Deitamo-nos e levantamo-nos sem luz. A isso nos habituamos."
Cuba não colapsa por falta de energia. Colapsa por falta de capacidade estatal — agravada por pressão externa. Essa distinção muda tudo na análise.
O que está acontecendo — sem ideologia no caminho
A crise energética de Cuba tem duas causas que o debate político insiste em separar — mas que só fazem sentido juntas. A primeira é estrutural: nove das dezesseis usinas termelétricas do país estão fora de serviço. A rede foi construída há décadas, nunca recebeu investimento proporcional à sua deterioração, e hoje opera no limite técnico mesmo quando tem combustível. A segunda é geopolítica: desde a captura de Nicolás Maduro em janeiro, os Estados Unidos bloquearam o fornecimento de petróleo venezuelano à ilha e ameaçaram tarifar qualquer país que venda combustível a Cuba. O presidente Díaz-Canel confirmou na sexta-feira que nenhum petróleo chegou à ilha nos últimos três meses.
O embargo americano não criou a fragilidade da infraestrutura cubana — mas está sendo usado como gatilho para acelerar um colapso que décadas de subinvestimento já haviam preparado. Atribuir o problema apenas a um dos dois lados é escolher narrativa em vez de análise.
O que 15 horas sem luz significa na prática
Quinze horas de apagão por dia — o nível registrado em março nas províncias do leste — significa passar mais tempo sem energia do que com ela. Não é metáfora: é a aritmética do dia a dia de 10 milhões de pessoas. A ONU alertou que mais de 80% dos equipamentos de bombeamento de água em Cuba dependem de eletricidade — o que significa que sem luz, também falta água. Apagão e sede, ao mesmo tempo, todo dia.
Nos hospitais, unidades de terapia intensiva e salas de emergência estão operando com restrições. A produção, distribuição e armazenamento de vacinas e hemoderivados — todos sensíveis à temperatura — estão comprometidos. O sistema de racionamento alimentar, que garante a cesta básica regulamentada, foi interrompido. Asilos, maternidades e alimentação escolar — as redes que protegem os mais vulneráveis — estão sendo afetadas de forma desproporcional.
Para ter dimensão: Cuba importa praticamente todo o petróleo que consome para gerar eletricidade. Com o bloqueio, recebeu apenas dois pequenos carregamentos em todo o ano de 2026. Imagine abastecer uma cidade de 10 milhões de pessoas com o equivalente a dois postos de gasolina abertos no ano inteiro. A conta não fecha porque nunca foi para fechar.
O embargo americano não criou a fragilidade da infraestrutura cubana — mas está sendo usado como gatilho para acelerar um colapso que décadas de subinvestimento já haviam preparado.
O que Trump quer — e o que Havana está disposta a oferecer
A crise energética não acontece em vácuo político. Trump afirmou na semana passada que Cuba está "em sérios apuros" e que os EUA podem participar de uma "tomada amigável" da ilha — usando a palavra "tomada" sem aspas, com a desenvoltura de quem acabou de mandar capturar um presidente vizinho em Caracas.
Cuba respondeu de forma que seria impensável há dois anos: o ministro do Comércio Externo anunciou que cubanos residentes nos EUA e seus descendentes poderão investir na ilha, inclusive em infraestrutura e na rede elétrica. Díaz-Canel confirmou contatos com Washington para "identificar problemas bilaterais que precisam de solução". O governo que passou décadas recusando qualquer negociação com os Estados Unidos está, agora, pedindo socorro — ou pelo menos sinalizando que escuta.
Trump, por sua vez, disse que pode "fazer o que quiser" com Cuba — "libertando-os" ou "tomando-os". A frase tem a brutalidade retórica que caracteriza sua política externa, mas também uma lógica estratégica: um país à beira do colapso energético e social é um país sem poder de barganha. O bloqueio do petróleo não é apenas pressão econômica — é negociação por outros meios.
O que isso tem a ver com o Brasil
Mais do que parece. O Brasil é o maior parceiro comercial da China na América do Sul, mantém relações com a Rússia no âmbito do BRICS e — como vimos com o caso Vorcaro e o PCC — já está na mira de Washington como terreno de disputa geopolítica. O que está acontecendo em Cuba não é uma crise bilateral isolada. É a demonstração prática de como os EUA de Trump tratam países do hemisfério que consideram dentro de sua esfera de influência.
Capturaram Maduro. Bloquearam o petróleo cubano. Ameaçam tarifar quem fornece combustível à ilha. Classificam facções criminosas brasileiras como terroristas. A doutrina Monroe não estava em hiato — estava apenas esperando uma administração disposta a aplicá-la sem eufemismo.
O que vem a seguir
No fim de semana, manifestantes em Morón atearam fogo em frente à sede do Partido Comunista local — o primeiro episódio de violência política relevante desde os protestos de julho de 2021, que resultaram em mais de mil presos com penas de até 30 anos. Cinco pessoas foram detidas até agora. O governo reduziu o horário escolar, cancelou eventos esportivos e culturais e cortou serviços de transporte para preservar o que resta do sistema elétrico.
Companhias aéreas americanas e canadenses já suspenderam voos para a ilha. O tráfego de internet em Cuba caiu para um terço do volume normal. O país está, em todos os sentidos técnicos da palavra, se isolando — não por escolha, mas por colapso.
No fim, o colapso de Cuba não é ideológico nem geopolítico. É concreto — e acontece todas as noites, quando um país inteiro fica no escuro.
Fontes: Reuters (16/mar/2026); CNN Brasil (17/mar/2026); Observador Portugal (17/mar/2026); Euronews (17/mar/2026); Portal Mie; TN Sul; ICL Notícias; Canal Solar; Rádio Bandeirantes; ONU — alerta humanitário Cuba (mar/2026); France-Presse; LSEG — rastreamento de navios (mar/2026).