Arrecadou Tudo. Gastou Mais.
O Brasil encerrou 2025 com arrecadação recorde de R$ 3,98 trilhões em impostos — e ainda assim terminou o ano no vermelho. Essa frase deveria perturbar mais do que perturba.
Iris de Oliveira · 18 de mar. de 2026Vou colocar dois números na mesma frase e pedir que você não passe por eles depressa. O Brasil arrecadou R$ 3,98 trilhões em impostos em 2025 — o maior valor da história do país. No mesmo ano, o governo federal terminou com déficit de R$ 61,7 bilhões. Arrecadação recorde. Déficit crescente. Os dois ao mesmo tempo, no mesmo ano, no mesmo país. Se isso não soa como contradição, é porque já nos acostumamos a não esperar que a conta feche.
Ela não fecha. E vale a pena entender por quê.
Antes de tudo: o que esses números significam de verdade
R$ 3,98 trilhões é um número grande demais para ter dimensão intuitiva. Para ter noção: é mais do que o PIB de países como Argentina, Suíça ou Suécia. É o equivalente a R$ 18.700 por brasileiro — homem, mulher, criança, aposentado. Todo mundo, em média, pagou quase R$ 19 mil em impostos ao longo de 2025 — direta ou indiretamente, embutido no preço do feijão, da gasolina, do plano de saúde, do boleto do aluguel. Vale uma precisão técnica importante: esse valor de R$ 3,98 trilhões representa a arrecadação consolidada de todos os entes — União, estados e municípios juntos. Já o déficit de R$ 61,7 bilhões refere-se especificamente ao governo federal. Não são grandezas diretamente comparáveis, mas a contradição permanece intacta: mesmo a União, sozinha, arrecadou mais do que nunca — e ainda assim terminou no vermelho.
Esse número engloba tributos federais, estaduais e municipais — IRPF, IRPJ, ICMS, ISS, IOF, PIS, Cofins, CSLL, contribuições previdenciárias e por aí vai. É a soma de tudo que o Estado brasileiro cobrou em 2025 de pessoas e empresas. Recorde absoluto. Crescimento real de 3,75% em relação a 2024, já descontada a inflação.
Agora o déficit. R$ 61,7 bilhões negativos significa que o governo gastou R$ 61,7 bilhões a mais do que arrecadou — considerando receitas e despesas primárias, sem contar os juros da dívida. Em relação a 2024, o déficit cresceu 32,3% em termos reais. O governo arrecadou mais e gastou proporcionalmente ainda mais.
O Brasil nunca arrecadou tanto. E ainda assim gastou mais do que tinha. Em algum momento, essa frase precisa parar de soar normal.
Como se gasta mais do que se arrecada um recorde
A resposta está num sistema de despesas altamente rigidizado — e a Previdência Social é o principal motor, mas não o único. O Regime Geral de Previdência Social — o INSS — terminou 2025 com déficit de R$ 317,2 bilhões. Sozinho. Enquanto o Tesouro Nacional e o Banco Central tiveram superávit de R$ 255,5 bilhões, a Previdência consumiu tudo isso e ainda gerou um rombo de mais de R$ 60 bilhões. Em outras palavras: o resto do governo até equilibrou as contas. A previdência desequilibrou tudo. Mas há outros fatores que agravam o quadro. As despesas obrigatórias — aquelas que o governo é legalmente obrigado a pagar e que não podem ser cortadas sem mudança de lei — respondem por mais de 90% do orçamento federal. Benefícios assistenciais como BPC e Bolsa Família cresceram expressivamente nos últimos anos. Salários e aposentadorias do funcionalismo são indexados a regras que garantem reajustes automáticos. E emendas parlamentares impositivas, constitucionalizadas em 2023, adicionaram uma camada de gasto que o Executivo não controla. O resultado é um orçamento onde quase não há gordura para cortar — e onde qualquer desaceleração de receita vira déficit quase que automaticamente.
O segundo lugar é o que os economistas chamam de despesas obrigatórias — gastos que o governo é constitucionalmente ou legalmente obrigado a fazer e que não podem ser cortados sem mudança de lei. BPC, salário mínimo vinculado a benefícios, emendas parlamentares impositivas, precatórios. Em 2025, a receita líquida cresceu R$ 64,3 bilhões em termos reais. A despesa cresceu R$ 79,1 bilhões. O gasto correu mais rápido do que a arrecadação. E isso aconteceu num ano de arrecadação recorde.
O truque do arcabouço — e o que ele esconde
Aqui vem um detalhe que merece atenção. O governo anunciou que cumpriu a meta fiscal de 2025. E formalmente cumpriu — o déficit de R$ 61,7 bilhões ficou dentro da banda de tolerância prevista no arcabouço fiscal. Mas para chegar a esse resultado, R$ 48,7 bilhões em despesas foram excluídos do cálculo por categorias que o próprio arcabouço permite desconsiderar: precatórios, ressarcimentos aos aposentados vítimas da fraude do INSS, projetos de defesa, gastos com educação. São exclusões tecnicamente previstas na regra — não arbitrárias. Mas são despesas reais, pagas com dinheiro real. E dinheiro real que sai do caixa, independente de como a regra o classifica.
Descontadas essas exclusões, o déficit efetivo ficaria em torno de R$ 13 bilhões — mais perto do equilíbrio. Mas os R$ 48,7 bilhões excluídos não somem. Eles pesam na dívida pública, que encerrou 2025 em R$ 10 trilhões — 78,7% do PIB. Para ter referência: em 2022, antes do atual governo, era de 73,7%. Em três anos, a dívida bruta cresceu 5 pontos percentuais do PIB.
A IFI — Instituição Fiscal Independente do Senado, que não tem lado político — foi direta: o Brasil caminha para um estrangulamento fiscal. As principais fontes de financiamento das ações públicas — aumento de carga tributária e endividamento — estão dando sinais de esgotamento simultâneo.
O que isso tem a ver com a sua vida
Tudo. Dívida pública elevada aumenta a pressão por juros mais altos — não de forma automática, mas porque deteriora a credibilidade fiscal, eleva as expectativas de inflação e reduz a margem do Banco Central para cortar a Selic. Juros altos por mais tempo significam crédito caro para você, para a empresa que te emprega, para o empreendedor que queria abrir um negócio. É uma corrente: o número abstrato da dívida pública chega, com o tempo, ao valor concreto da sua prestação.
Tem mais. A Warren Investimentos projeta que a dívida bruta chegará a 84,5% do PIB em 2026. Quanto mais a dívida cresce, mais o governo gasta pagando juros sobre ela — e menos sobra para investimento em saúde, infraestrutura, educação. Em 2025, o déficit previdenciário total — considerando INSS, servidores civis e militares — foi de R$ 442 bilhões. Só de previdência. Esse é o buraco que a arrecadação recorde não conseguiu tapar.
O que ninguém quer dizer em ano eleitoral
Estamos em 2026. Ano de eleição presidencial. Isso significa que qualquer conversa séria sobre reforma da previdência, corte de gastos obrigatórios ou revisão de benefícios vai ser tratada como tabu pelos dois lados. A direita vai usar os números para atacar Lula — sem propor nada concreto. A esquerda vai defender os gastos sociais — sem explicar de onde vem o dinheiro para sustentá-los quando a dívida chegar a 90% do PIB.
E o brasileiro vai continuar pagando a maior carga tributária entre países emergentes comparáveis, recebendo serviços públicos abaixo do que esse nível de arrecadação deveria garantir, sem que ninguém no debate eleitoral seja obrigado a explicar por que o país que mais arrecada não consegue fechar as contas.
R$ 3,98 trilhões arrecadados. R$ 61,7 bilhões de déficit. R$ 10 trilhões de dívida. Esses números não são problema do governo atual nem do anterior. São o retrato de um Estado que cresceu além do que a economia sustenta — e que sucessivos governos, de todos os partidos, têm evitado redimensionar.
Fontes: Receita Federal — Relatório de Arrecadação 2025 (jan/2026); Tesouro Nacional — Resultado Primário do Governo Central 2025 (jan/2026); Banco Central do Brasil — DBGG dez/2025; IFI/Senado Federal; Warren Investimentos; XP Macro; ASA Investimentos; Poder360; Agência Brasil; CNN Brasil; Gazeta do Povo.