Devolver o Salário Não É Virtude. É o Mínimo
Romário abriu mão do salário de senador para comentar a Copa a partir dos Estados Unidos. O presidente do Senado chamou isso de honra. Para o trabalhador que só aparece dois meses no ano no emprego, o nome de costume é outro.
Iris de Oliveira · 13 de jul. de 2026
Dois meses.
Foi o tempo de trabalho efetivo do senador Romário (PL-RJ) no Senado desde o início do calendário legislativo de 2026, em fevereiro. O resto do período foi consumido por uma licença de 120 dias iniciada em dezembro do ano passado — o limite máximo de afastamento permitido a um parlamentar em um único ano.
Não é férias. É o próprio mandato, tirando férias de si mesmo.
Em 10 de junho, antes mesmo de completar três meses de volta ao plenário, Romário embarcou para os Estados Unidos. Foi comentar a Copa do Mundo pela CazéTV e pelo seu canal, a RomárioTV. Não pediu licença — porque já tinha esgotado a cota do ano — e afirmou que continuaria votando remotamente, sobretudo na PEC que acaba com a escala de trabalho 6x1. Cada voto conta, disse ele. E é verdade: cada voto conta. A pergunta que ficou sem resposta é onde, exatamente, esse voto estava sendo exercido enquanto o senador narrava lances de escanteio para outro empregador.
A pressão nas redes e no próprio Congresso foi grande o bastante para produzir um ofício. No dia 30 de junho, Romário anunciou que abriria mão do salário durante todo o período da Copa — de 11 de junho a 19 de julho — e que qualquer valor eventualmente pago seria devolvido aos cofres públicos. Gesto correto. Também gesto mínimo: é o que se espera de qualquer funcionário que decide, por conta própria, redirecionar sua rotina de trabalho para outra atividade remunerada em outro país.
O que a estrutura chamou de honra
Foi nesse momento que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), decidiu falar. Chamou Romário de ídolo. Disse que ele estava "honrando o Brasil" como sempre honrou — "campeão da Copa do Mundo" e, agora, "senador da República reeleito". Foi além: afirmou que as críticas ao colega estavam "apequenando" a política, e atribuiu o desconforto público à polarização do momento.
Aqui está o diagnóstico que o episódio revela e que ninguém formulou com essas palavras: no Brasil, devolver o que não se trabalhou virou favor. Para quem não tem mandato, isso tem outro nome: desconto de ponto.
Não existe elogio institucional quando um caixa de supermercado devolve o dia de trabalho que não cumpriu. Existe apenas o registro no ponto eletrônico, e talvez uma conversa com o RH. Quando quem devolve é um senador da República, a mesma operação aritmética — trabalhar menos, receber menos — é reformulada como gesto de grandeza, cercada de adjetivos que nenhum trabalhador comum jamais ouviu sobre sua própria ausência.
O que a tecnologia permite — e o que ela não resolve
É justo reconhecer o que há de real nesse episódio antes de apontar o que incomoda. A sessão semipresencial e o voto remoto no Senado não são artifício: são ferramentas legítimas, usadas por outros parlamentares em situações de saúde, licença-maternidade ou força maior, e sua existência é um avanço institucional genuíno. O compromisso de Romário com o fim da escala 6×1 também é verificável — ele reafirmou o voto favorável em pronunciamento formal, e a matéria de fato ainda não foi pautada. Nada disso é encenação.
O problema não está na tecnologia que permite votar de longe. Está na distância entre o que essa tecnologia deveria viabilizar — a continuidade do mandato em situações excepcionais — e o uso que se fez dela: sustentar, ao mesmo tempo, um contrato de trabalho remunerado com uma emissora de televisão e a alegação de que a representação do eleitorado fluminense continua intacta.
A tradução em real, em sala de aula
Um senador recebe hoje pouco mais de R$ 46 mil de subsídio bruto mensal, além de auxílio-moradia, verba de gabinete e reembolso integral de saúde — um valor fixo, garantido, independente de quantos dias o parlamentar de fato ocupou a cadeira. Romário abriu mão de uma fração dessa remuneração por cerca de cinco semanas. É dinheiro real devolvido ao Estado. Também é uma fração pequena diante do que continuou intacto: o cargo, o gabinete funcionando normalmente em Brasília e no Rio, e o prestígio de quem chega no ano que vem para disputar reeleição como o senador que "honrou o Brasil" duas vezes — como jogador e como parlamentar.
Agora traduza isso para quem não tem gabinete. Dona Márcia, professora, não pode avisar à direção da escola que vai passar cinco semanas comentando futebol em outro país e que vai continuar "lecionando remotamente" nos dias de prova. Se fizesse isso, não seria chamada de ídolo por honrar a profissão. Seria substituída — e, dependendo do contrato, descontada, advertida ou demitida por justa causa. A diferença entre os dois casos não é a natureza do gesto. É o tamanho do poder de quem o pratica.
No Brasil, devolver o que não se trabalhou virou favor. Para quem não tem mandato, isso tem outro nome: desconto de ponto.
No Brasil, devolver o que não se trabalhou virou favor. Para quem não tem mandato, isso tem outro nome: desconto de ponto.
Polarização é a palavra que se usa quando falta argumento
Chamar a crítica de "polarização" é a manobra retórica mais eficiente que a política brasileira desenvolveu na última década. Ela não responde ao problema — dissolve o problema numa categoria maior, onde toda cobrança perde nome próprio e vira sintoma de um clima geral de agressividade. Funciona porque, em algum grau, é verdade: o debate público brasileiro é mesmo mais áspero do que deveria ser. Mas usar essa verdade parcial para blindar uma ausência específica de dois meses é transformar um diagnóstico real do país em escudo para um caso particular.
Ninguém está cobrando de Romário que deixe de ser comentarista. A CazéTV contratou um profissional que entende de futebol como poucos, e não há nada de errado nisso. O que se cobra é a coerência entre o cargo que se ocupa e a presença que ele exige — e, sobretudo, que a estrutura que administra o Senado não trate o cumprimento do mínimo como se fosse extraordinário. Quando o mínimo é aplaudido como excepcional, o que fica implícito é que o padrão de referência já não é o trabalho — é a ausência dele.
O eleitor do Rio de Janeiro pagou por um mandato de tempo integral. Recebeu, em troca, dois meses de trabalho, um ofício pedindo para não ser pago, e um discurso do presidente do Senado explicando por que isso deveria ser motivo de orgulho.
Fontes: CNN Brasil — "Romário diz que abriu mão do salário de senador durante jogos da Copa" (30/06/2026); Poder360 — "Após críticas, Romário abre mão do salário de senador durante Copa" (30/06/2026); Correio Braziliense — "Romário abre mão do salário durante a Copa, diz assessoria" (01/07/2026); Revista Oeste — "Romário abre mão do salário para acompanhar a Copa do Mundo nos EUA" (2026); Tribuna do Planalto — "Romário desiste do salário de senador enquanto comenta a Copa nos Estados Unidos" (01/07/2026); Decreto Legislativo nº 172/2022 — subsídio parlamentar de R$ 46.366,19 a partir de fev/2025.