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COLUNA | POLÍTICA & PODER

A Dinastia Descobriu que Não Tem Lei de Sucessão

O bolsonarismo nunca foi um partido. Era uma monarquia. E toda monarquia que perde o rei sem regra de sucessão termina do mesmo jeito: com os herdeiros brigando pelo trono em praça pública.

Iris de Oliveira · 26 de jun. de 2026
A Dinastia Descobriu que Não Tem Lei de Sucessão

Dois milhões e trezentas mil interações em pouco mais de vinte e quatro horas. Foi o tamanho do incêndio digital que um vídeo de vinte e seis minutos provocou entre 24 e 25 de junho, segundo levantamento do Data Fórum.

O vídeo era de Michelle Bolsonaro. E ela escolheu, para soltá-lo, o dia do jogo do Brasil contra a Escócia na Copa do Mundo — o momento em que o país inteiro estava olhando para a mesma tela.

Nele, a ex-primeira-dama expõe uma desavença pública com o enteado Flávio Bolsonaro, senador e pré-candidato à Presidência. Fala em “punhalada”. Relata que foi tratada com rispidez ao telefone, que o senador teria dito que ela deveria ficar fora das decisões do partido, que “havia chegado ontem” e “não entendia nada de política”. Horas depois, numa live antes do jogo, Flávio respondeu sem citar o nome dela: “Hoje é dia de jogo, nada nem ninguém me aborrece.” No dia seguinte, pediu desculpas.

A leitura fácil já está pronta, e meio Brasil já a fez: olha a família que prega união e vive brigando. É irônico, é cômodo, e é raso. Porque o que esse episódio mostra não é uma família mal-educada. É uma instituição que nunca existiu.

O que o bolsonarismo sempre foi

Desde 2018, a família foi o argumento central do projeto. “Deus, Pátria, Família” não era enfeite — era a estrutura. No governo, a família virou política de Estado, com ministério, secretaria e observatório próprios. E é justo reconhecer: essa aposta tocou numa angústia real. Milhões de brasileiros que veem escola, hospital e segurança falharem enxergam na própria casa o último território de ordem que sobrou. Quem leu isso, leu o país com precisão. Por isso funcionou.

Mas há uma coisa que esse projeto nunca teve, e que todo partido de verdade tem: um mecanismo para decidir quem manda quando o líder sai de cena. Convenção, prévia, estatuto, sucessão regrada. O bolsonarismo substituiu tudo isso por uma única coisa — o sobrenome. E sobrenome não é instituição. É linhagem.

Um partido tem regras de sucessão. Uma dinastia tem só o sangue. E o sangue, sozinho, nunca decidiu quem herda o trono sem briga.

A história já escreveu esse roteiro

A humanidade levou séculos para aprender uma lição que parece óbvia: quando o poder se concentra numa pessoa e passa por herança, a morte ou a saída dessa pessoa não produz transição — produz guerra. As monarquias europeias só pararam de se estraçalhar a cada troca de rei quando criaram leis de sucessão claras: primogenitura, linha de herança, regra escrita acima da vontade dos herdeiros. Antes disso, cada vacância no trono era uma temporada de irmãos, tios e madrastas se digladiando pela coroa.

O Brasil conhece a versão tupiniquim disso de perto. Chamou-se coronelismo, oligarquia, política de família. Estados inteiros do Norte e do Nordeste foram governados por sobrenomes que se passavam de pai para filho como se passa uma fazenda. Não eram projetos políticos — eram heranças. E quando o patriarca enfraquecia, os herdeiros faziam exatamente o que Michelle e Flávio fazem agora: disputavam o espólio à vista de todos.

É aqui que o episódio deixa de ser sobre os Bolsonaro. Porque a dinastia familiar como forma de organizar poder não é vício de um grupo — é um traço antigo da política brasileira, à direita e à esquerda. Sobrenomes que viram máquinas, máquinas que viram heranças, heranças que racham quando o fundador sai. Quem governa por linhagem sempre descobre, mais cedo ou mais tarde, que linhagem não se governa.

Por que agora

O estopim concreto foi o Ceará: a aliança do PL local com Ciro Gomes, adversário histórico de Bolsonaro, contra a vontade de Michelle, que apoia outro nome. Flávio defendeu a articulação. Os irmãos vieram juntos — “de forma coordenada”, no relato dela. Um lado da família contra o outro, sobre quem decide os rumos do partido que carrega o nome.

Mas o estopim não explica o incêndio. O incêndio só foi possível porque o material já estava seco. Jair Bolsonaro está inelegível e foi condenado pelo Supremo. A figura que mantinha tudo orbitando em torno de si saiu do centro do tabuleiro. E foi exatamente nesse vácuo que a disputa explodiu — não por acaso, mas por estrutura.

Não é a primeira fissura. Em agosto de 2025, mensagens recuperadas pela Polícia Federal no celular do ex-presidente mostraram o filho Eduardo tratando o pai com aspereza, chamando-o de “ingrato”. Eram conversas privadas, expostas por uma investigação. Mas o padrão é o mesmo: tensão de sucessão vazando pelas frestas. O vídeo de Michelle não inaugurou o racha. Apenas o levou para o horário nobre.

Enquanto Bolsonaro esteve no centro, a família parecia um projeto. Sem ele no centro, virou um inventário. E inventário, no Brasil, é sinônimo de processo entre herdeiros.

A objeção honesta — e o que ela não resolve

É preciso encarar a objeção mais forte, porque ela é legítima. Vida privada e capacidade de governar são coisas diferentes. Famílias brigam — todas. Cobrar harmonia doméstica de um político pode descambar para o moralismo barato que esta coluna recusa. Ninguém deveria ser julgado nas urnas pelo que diz à mesa de jantar. E há mais: Michelle não saiu fraca do episódio — recuperou em quatro horas parte dos seguidores que vinha perdendo no mês. Para ela, expor o conflito foi afirmar existência política própria. Pode-se ler como fragilidade do grupo ou como nascimento de uma candidatura autônoma. As duas leituras cabem.

Mas a objeção protege a pessoa, não o projeto. Porque o ponto nunca foi a briga em si. Foi o que a briga revela sobre a engenharia do poder. Quem oferece ao eleitor uma família como prova de aptidão para governar está dizendo, implicitamente, que sabe ordenar pessoas em torno de um objetivo comum. Quando essa mesma família não consegue ordenar a si própria diante da primeira vacância de comando, o que se desmorona não é a reputação de ninguém. É a premissa da oferta.

E essa é a pergunta que o eleitor têm o direito de fazer — porque é com o voto deles que se governa:

Como confiar que uma família vai organizar o Brasil, se ela não consegue se organizar a si mesma?

O bolsonarismo vendeu a família como instituição. Descobriu, no dia do jogo, que era apenas uma dinastia — e que dinastia sem lei de sucessão não transmite poder, só o reparte entre quem sobra. Em 2026, o eleitor decide se compra uma instituição ou um inventário em curso.


Fontes: CNN Brasil — É dia do Brasil, ninguém me aborrece, diz Flávio após vídeo de Michelle (junho de 2026); Diário do Nordeste / PontoPoder — Michelle expõe crise no PL por articulações pró-Ciro no Ceará (24 de junho de 2026); Revista Fórum / Data Fórum — repercussão do vídeo: 1.109 conteúdos e 2,3 milhões de interações; recuperação de seguidores (25 de junho de 2026); Diário do Grande ABC — disputa no Ceará entre Michelle e Flávio (25 de junho de 2026); Agência Brasil e CNN Brasil — mensagens da PF entre Eduardo e Jair Bolsonaro (agosto de 2025); Nexo Políticas Públicas — A centralidade da família no debate político brasileiro (março de 2025).