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COLUNA | MÍDIA & SAÚDE

O Jogo É de Graça. Quem Assiste É Que Está à Venda

O patrocínio de bets nas camisas do Brasileirão saltou para R$ 1,1 bilhão e chegou a ocupar nove em cada dez peitos. Na Copa do Mundo, o intervalo virou cassino. E quem está tentando parar de apostar descobriu, ontem à noite, que não há canal para onde mudar.

Iris de Oliveira · 25 de jun. de 2026
O Jogo É de Graça. Quem Assiste É Que Está à Venda

Ontem o Brasil bateu a Escócia por 3 a 0 e fechou a fase de grupos da Copa em primeiro lugar. Assisti pela TV, num canal de YouTube com mais de 35 milhões de inscritos. Entre um lance e outro, era o próprio narrador quem lia o anúncio de uma casa de apostas. No meio do primeiro tempo, a marca voltou a aparecer na tela e nos letreiros ao redor do  gramado. No intervalo, mais um comercial — sempre a mesma promessa: rápido, fácil, ao alcance do dedo.

Troquei de canal. Fui para a maior emissora aberta do país, no sinal de televisão.

Era a mesma coisa.

Foi aí que percebi o que a maioria de quem assistia àquele jogo não percebeu: não existia, naquela noite, lugar para onde fugir do anúncio. E que assistir à partida — no YouTube ou na TV aberta — nunca foi de graça. Alguém pagou a conta. E uma parte de quem pagou nem sabia que estava pagando.

Há uma frase velha no mercado de comunicação: quando o produto é de graça, o produto é você. Vale para a rede social, para o jornal aberto, para a transmissão esportiva. O jogo chega sem custo à sua tela porque a sua atenção foi vendida antes — empacotada em milhões de pares de olhos e leiloada para quem quer falar com eles. Isso não é novidade nem é, por si só, escândalo. A novela das oito sempre vendeu sabão em pó. O futebol sempre vendeu cerveja e carro.

O que mudou não é que a audiência seja vendida. É para quem ela está sendo vendida.

O dinheiro que salvou o clube e trocou a camisa

Para medir o tamanho do que aconteceu, basta olhar para o peito dos jogadores. Em 2023, o conjunto dos patrocínios máster da Série A — aquele logo bem no centro da camisa — somava R$ 496 milhões. Em 2025, somou R$ 1,117 bilhão. Um salto de 125% em dois anos. Naquele ano, 18 dos 20 clubes da elite tinham uma casa de apostas como patrocinadora principal. Nove em cada dez camisas.

R$ 268 milhões. Foi quanto um único clube recebeu de uma única bet em 2025 — o maior contrato de patrocínio da história do futebol brasileiro.

Dizem que esse dinheiro salvou o futebol. Não foi bem assim. A camisa nunca esteve vazia: antes das bets, o centro do peito carregava banco, montadora, indústria farmacêutica, companhia aérea, alimento. O que as casas de apostas fizeram não foi ocupar um espaço abandonado — foi expulsar quem já estava lá. E expulsaram pagando o que nenhum setor produtivo consegue pagar: uma única bet chega a desembolsar quase R$ 300 milhões por um único clube, o orçamento de marketing inteiro de uma grande empresa de qualquer outro ramo. Não é que só exista bet para patrocinar futebol. É que, com um produto de custo operacional baixíssimo e lucro que cresce quanto mais o apostador perde, sobra dinheiro para cobrir qualquer concorrente.

O futebol não foi resgatado. Foi comprado.

Um levantamento que usou inteligência artificial para analisar os vídeos das transmissões mostrou que a presença das bets nos painéis de publicidade do Brasileirão quase dobrou entre 2019 e 2024: passou de seis em cada dez anúncios para sete e meio em cada dez. O estádio virou outdoor. A transmissão virou catálogo.

O anúncio que mira o cérebro de quem tentou parar

A cervejaria não precisa que você vire alcoólatra para ter lucro. A montadora não depende de que você bata o carro para vender o próximo. Quase toda indústria quer um cliente que volte satisfeito. A casa de apostas é a exceção da regra: o cliente mais valioso que ela tem é justamente o que não consegue parar.

Em algum lugar do Brasil, havia ontem um homem assistindo ao mesmo jogo que eu. Ele parou de apostar há alguns meses. Não sei o nome dele. Sei que ele existe, porque a estatística não permite que não exista: só no primeiro semestre de 2025, o país somava cerca de 17,7 milhões de apostadores. Numa multidão desse tamanho, há sempre alguém em recuperação diante do futebol — porque o futebol é a última coisa de que um torcedor abre mão.

Para esse homem, o comercial não é ruído de fundo. É gatilho.

Especialistas em dependência chamam o fenômeno de reatividade a pistas. Os estímulos do anúncio — a cor, o jingle, a contagem da odd subindo na tela — acendem no cérebro os mesmos circuitos de dopamina que o ato de apostar acende. Para quem está em recuperação, isso vira fissura: uma vontade súbita e intensa que, por alguns segundos, desliga a parte do cérebro encarregada de dizer “não”. Uma psiquiatra resume o mecanismo numa imagem que qualquer um entende: é como o ex-alcoólatra numa roda em que alguém insiste “ah, mas é só um gole”.

A diferença é que o amigo que oferece o gole aparece uma vez. O anúncio aparece no letreiro, na voz do narrador, no intervalo. Durante noventa minutos, o gole é oferecido sem parar.

A transmissão nunca foi de graça. Você sempre pagou com a sua atenção. O que mudou é que agora ela é revendida para o único produto que lucra mais quanto mais o cliente perde — e, em alguns casos, a conta não se paga com dinheiro, mas com a vida de quem não devia estar olhando para aquela tela.

O que o Estado já admite — e ainda não faz

O mais revelador é que o próprio Estado brasileiro já sabe disso. O projeto que tramita no Congresso para apertar a publicidade das apostas define a frase de advertência que os anúncios teriam de exibir, escolhida em audiência pública: “Apostas causam dependência e prejuízos a você e à sua família”. Leia de novo. É o legislador, não o crítico, afirmando que o produto causa dependência. Falta apenas agir como quem acredita na própria frase.

A Europa agiu. A Itália proibiu qualquer propaganda de aposta desde 2019. A Espanha tirou as bets das camisas e dos estádios em 2021. A Inglaterra deu prazo aos clubes da Premier League para retirar o patrocínio máster do peito até o fim desta temporada. O Brasil observa tudo de longe — e hesita.

E hesita porque o vício, aqui, também é institucional: o futebol ficou financeiramente dependente da mesma indústria que precisaria regular. Clubes que se acostumaram a R$ 100, R$ 200 milhões por ano viraram fiadores do próprio patrocinador — quando o Senado avançou com a restrição, foram eles que assinaram a carta de preocupação. O lobby é forte porque a dependência é real. Mas chamar dependência de argumento é confundir a doença com o remédio. O setor que financia o gramado é o mesmo que enche o CAPS, o consultório e, no limite, o velório. A conta já está sendo paga. Só não por quem arrecada.

Em 2026, o número de clubes da Série A com bet no peito caiu de 18 para 12. A euforia esfriou um pouco. Mas a marca que saiu da camisa de alguns times continuou inteira onde mais importa: na voz do narrador, no intervalo e no letreiro sobre o gramado da Copa do Mundo.

No apito final, o Brasil estava classificado e eu desliguei a televisão. Aquele homem também desligou. A diferença é que eu fechei a tela e fui dormir. Ele fechou a tela depois de noventa minutos sendo convidado, sem pausa, a fazer exatamente aquilo que vinha tentando não fazer.

Dá para trocar de canal. Não dá para trocar de jogo, nem de país, nem de cérebro. E enquanto o mesmo intervalo vender a mesma coisa para a mesma pessoa — a que não devia estar olhando —, a transmissão só vai ser de graça para quem nunca apostou.

Se você ou alguém próximo enfrenta problemas com apostas, endividamento ou pensamentos de se machucar, ligue para o CVV — Centro de Valorização da Vida: 188 (24 horas, gratuito). Para apoio em dependência de jogo, procure o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) da sua cidade ou o número 136 do Ministério da Saúde.


Fontes: ESPN / CNN Brasil — Escócia 0 x 3 Brasil, 3ª rodada do Grupo C da Copa do Mundo de 2026, Hard Rock Stadium, Miami (24/06/2026); Jambo Sport Business / g1 — patrocínios máster da Série A passaram de R$ 496 milhões (2023) para R$ 1,117 bilhão (2025), alta de 125%; 18 de 20 clubes com bet em 2025; maior contrato R$ 268,5 milhões (dez/2025); IstoÉ Dinheiro — clubes da Série A com bet no peito caíram de 18 para 12 em 2026 (jan/2026); LCA Consultores / IBJR-ANJL — cerca de 17,7 milhões de apostadores no 1º semestre de 2025; Revista Questão de Ciência / Deutsche Welle — presença de bets nos painéis do Brasileirão passou de 6 para 7,4 em cada 10 anúncios entre 2019 e 2024; Terra — “A Copa do Mundo das bets como gatilho para o vício”: reatividade a pistas e circuitos dopaminérgicos (jun/2026); Senado Federal / Migalhas — PL de restrição à publicidade de apostas; frase de advertência “Apostas causam dependência e prejuízos a você e à sua família”; carta de clubes contra a restrição; comparação com Itália (2019), Espanha (2021) e Inglaterra; Lei 13.756/2018 e Lei 14.790/2023 — marco legal das apostas de quota fixa no Brasil.