Os Nomes Mudam. A Fraude Não Muda de Método
A Polícia Federal deflagrou a Operação Miragem contra o Digimais, banco de Edir Macedo, e bloqueou até R$ 670 milhões. A suspeita é a de sempre — um balanço maquiado para parecer sólido. O Brasil já assistiu a esse filme antes. Só troca o cartaz.
Iris de Oliveira · 23 de jun. de 2026
A operação se chama Miragem. O nome é mais preciso do que a Polícia Federal talvez pretendesse.
Na manhã desta terça-feira, mais de 50 agentes cumpriram nove mandados de busca e apreensão em São Paulo — contra dez empresas e oito pessoas físicas, entre elas o bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal e controlador do Banco Digimais, o antigo Banco Renner, hoje instituição digital. A Justiça Federal autorizou a quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados e o bloqueio de até R$ 670,3 milhões em bens. A apuração nasceu de relatórios do Banco Central que apontaram, segundo a PF, manipulação de balanços para esconder a real situação financeira do banco e simular solvência diante dos órgãos de controle.
Convém dizer com todas as letras, antes de qualquer linha de análise: trata-se de investigação, não de condenação. Ninguém foi julgado. Macedo e o banco foram procurados pela imprensa e, até o fechamento desta coluna, não se manifestaram. A presunção de inocência não é tecnicalidade jurídica — é o que separa jornalismo de linchamento.
Dito isso, o que importa aqui não é o nome do investigado. É o mecanismo. Porque o mecanismo é velho, é conhecido, e o Brasil insiste em tratar cada caso como se fosse o primeiro.
O que a PF diz ter encontrado
Segundo a investigação, o Digimais teria deixado de declarar pelo menos R$ 480 milhões em créditos vencidos — empréstimos que não voltaram e que, pelas regras contábeis, deveriam ter reduzido o resultado do banco. Não reduziram. O efeito prático é que a instituição mostrou lucro onde havia deterioração. A PF fala ainda em supervalorização de ativos, criação artificial de receitas na casa das centenas de milhões e operações financeiras supostamente realizadas em benefício da empresa que controla o banco. Os investigados podem responder, na medida de suas responsabilidades, por gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis e operações de crédito vedadas pela lei que rege o Sistema Financeiro Nacional.
Traduzindo para fora do dialeto contábil: é como um comerciante que registra como “venda paga” a mercadoria que entregou fiado a clientes que ele já sabe que não vão honrar a conta. No papel, o caixa está cheio. Na prateleira e na gaveta, está vazio.
R$ 480 milhões.
É o tamanho do buraco que, segundo a apuração, foi varrido para debaixo do tapete contábil — um tapete que o resto do mercado enxergava como chão firme.
O que funcionou — e por que isso importa
É preciso reconhecer o que deu certo, sob pena de contar metade da história.
O sistema funcionou num ponto decisivo: o Banco Central viu. Foram os relatórios da própria autoridade monetária — acompanhando carteiras de crédito, qualidade de ativos e divergências entre o que o banco declarava e o que de fato tinha — que destravaram a investigação. A fiscalização existe, e neste caso ela mordeu antes de o estrago virar irreversível.
Há ainda um detalhe que complica qualquer narrativa fácil de “saque”. Em fevereiro, antes da operação, Macedo injetou R$ 250 milhões do próprio bolso para tentar segurar o banco, e chegou a ser apontado como disposto a aportar até R$ 1,5 bilhão. Um controlador que coloca o próprio dinheiro numa instituição em crise não é o retrato óbvio de quem a esvazia. Pode ser tentativa legítima de salvar o negócio; pode ser manobra para ganhar tempo. Qual das duas, não é a coluna que decide — é o processo. E é exatamente para isso que ele existe.
A miragem tem CNPJ
Feito o reconhecimento, vem o diagnóstico — e ele incomoda mais do que o caso individual.
Um balanço é o documento que o sistema financeiro inteiro é obrigado a tratar como verdade. O investidor confia nele. O regulador parte dele. A agência de rating o carimba. O fundo de pensão decide com base nele. É a única peça que, em tese, não pode mentir — porque é auditada, regulada e entregue ao Banco Central.
E é precisamente essa peça que a fraude falsifica primeiro.
Aí está o ponto cego estrutural da supervisão brasileira: o Banco Central, na maior parte dos casos, fiscaliza de forma reativa. Precisa esperar o balanço publicado para agir formalmente. Mas o balanço publicado é justamente o que foi maquiado. É como pedir que o professor descubra a cola corrigindo a prova que o próprio aluno escreveu o gabarito. O instrumento da fiscalização e o instrumento da fraude são o mesmo papel.
Um balanço maquiado é uma miragem com CNPJ: parece solidez até a hora em que alguém tenta sacar a água.
Um balanço maquiado é uma miragem com CNPJ: parece solidez até a hora em que alguém tenta sacar a água.
O Brasil já viu esse filme
Quem acompanha o sistema financeiro reconhece o roteiro. Ele se repete há trinta anos, com a mesma engenharia e nomes diferentes na marquise.
Em 1995, Econômico e Nacional ruíram com rombos que levaram anos para serem desenrolados — o Nacional sustentou lucros fictícios por uma década com contas fantasmas. Em 2010, o Panamericano exibiu uma “criatividade contábil” que driblou auditorias: vendia carteiras de crédito mas as mantinha registradas no próprio balanço, inflando o patrimônio em R$ 4,3 bilhões. Em 2025, o Master deixou o maior rombo da história do setor — estimado acima de R$ 47 bilhões — sustentado por ativos sem lastro e balanços inflados, até o Banco Central decretar a liquidação.
Econômico. Nacional. Panamericano. Master. Digimais.
Os nomes mudam. O método não: inflar o que se tem, esconder o que se perdeu, parecer sólido até o dia em que alguém bate à porta para sacar.
Quem paga a miragem
Toda miragem, quando desmorona, deixa uma conta. E a conta raramente fica com quem a criou.
Quando um banco fraudado quebra, quem cobre o prejuízo dos pequenos correntistas é o Fundo Garantidor de Créditos — o FGC, formado com dinheiro de todos os bancos, que por sua vez sai do que cada cliente paga em tarifa e spread. No caso Master, o FGC estima desembolsar cerca de R$ 41 bilhões para ressarcir 1,6 milhão de clientes: um terço de todo o patrimônio do fundo drenado por uma única instituição. Em outras palavras, quando a miragem de um evapora, é o correntista honesto de todos os outros que repõe a água.
E há quem o FGC não cobre. No rombo do Master, ao menos 18 fundos de previdência de servidores estaduais e municipais aplicaram R$ 1,87 bilhão sem garantia nenhuma. É dinheiro de aposentadoria de servidor — o guarda municipal, a professora da rede, o agente de saúde de alguma prefeitura do interior que nunca ouviu o nome do banqueiro nem leu um balanço na vida, mas cuja aposentadoria foi parar, sem que ele soubesse, dentro da miragem.
No Digimais são cerca de 199 mil clientes, e uma venda ao BTG Pactual ainda pendente de aval do Banco Central e do Cade. Se a apuração se confirmar, sobra a pergunta de sempre: o lucro da maquiagem foi privado; o prejuízo, quando aparece, tende a ser dividido com quem nunca entrou no jogo.
O que o caso testa
Mais do que o destino de um bispo bilionário, a Operação Miragem testa o sistema que deveria ter visto antes.
O Banco Central viu o Digimais e agiu. Mas viu o Master tarde, e ainda hoje presta contas ao Tribunal de Contas da União sobre quando soube e o que fez. A diferença entre uma supervisão que detecta a tempo e uma que chega depois do dinheiro evaporado não é só técnica: é a diferença entre R$ 480 milhões e R$ 47 bilhões. Entre um banco bloqueado a tempo e 1,6 milhão de famílias ressarcidas pelo bolso alheio. O Senado abriu, em fevereiro, um grupo de trabalho para impedir “outro caso Master”. A realidade respondeu antes: o outro caso não esperou o grupo terminar de se reunir.
Uma miragem só engana quem caminha confiando que a água está adiante. O sistema financeiro brasileiro segue caminhando — e segue descobrindo, sempre tarde, que parte do chão que pisava era balanço.
Fontes: Polícia Federal / G1 / O Globo / UOL — Operação Miragem: 9 mandados de busca e apreensão em SP, mais de 50 agentes, bloqueio de até R$ 670,3 milhões, 10 empresas e 8 pessoas físicas investigadas, incluindo Edir Macedo; base em relatórios do Banco Central (jun/2026). Revista Fórum — suspeita de R$ 480 milhões em créditos vencidos não declarados; aporte de R$ 250 milhões por Macedo em fev/2026; paralelo com o caso Master (fev–jun/2026). Brasil 247 / IF.Data (BC) — Digimais: antigo Banco Renner, controle integral de Macedo em 2020; ~199 mil clientes; prejuízo de ~R$ 740 milhões em 2022; rebaixamento Fitch para CCC(bra); acordo de venda ao BTG Pactual em abr/2026, pendente de BC e Cade. Agência Brasil / CNN Brasil — liquidação do Banco Master (nov/2025), rombo acima de R$ 47 bilhões, FGC estima R$ 41 bilhões para 1,6 milhão de clientes; 18 RPPS com R$ 1,87 bilhão sem cobertura do FGC. Senado Federal — grupo de trabalho “Como impedir outro caso Master” (fev/2026); histórico de Econômico, Nacional e Panamericano (R$ 4,3 bilhões, 2010).