Saí do TX. Mas o TX nunca saiu de mim
Alguns meninos da mesma rua viraram engenheiros e administradores. Outros, da mesma escola e da mesma esquina, não chegaram aos vinte. O bairro foi o mesmo para todos. O que separou os dois grupos não foi a sorte, nem a cor da pele — foi a porta que cada um decidiu abrir num lugar onde a porta errada era a mais barata de todas.
Iris de Oliveira · 16 de jun. de 2026
Eu devia ter uns dez anos quando entendi que um corpo caído na rua não interrompe a brincadeira de bicicleta da molecada. A gente desviava e continuava pedalando. Alguém dizia de quem era, outro completava como tinha sido, e o jogo seguia. Não sei dizer quantas dessas cenas eu vi. Parei de contar antes mesmo de aprender a contar direito.
A boca de fumo ficava na esquina de cima. Tinha outra duas ruas abaixo, e mais algumas que eu sabia de cor. Eu morava no Teixeirão — o TX, em Cacoal, Rondônia — e nos anos 90 e no começo dos anos 2000 nada daquilo era exceção. Era paisagem.
Quando eu dizia onde morava, as pessoas faziam uma cara que levei anos para decifrar. Metade era susto, metade era pena. O TX era o bairro mais perigoso da cidade, e carregar o nome dele na boca já era carregar uma suspeita.
Cresci ali com o Helinho, o Aldo, o Dudu, o Zinho e o Jackson. Na mesma redondeza, mesma escola pública, mesma vontade engolida de ter um tênis novo que os pais não tinham como comprar. Mas cresci também com o Pittbull, o Rafinha — que morava na esquina da minha casa —, o Jonathan e o André. O André eu estudei junto por vários anos. Era simpático daquele jeito que faz todo mundo gostar sem esforço.
Os cinco primeiros viraram adultos. Os quatro últimos, não.
E eu preciso ser honesta sobre a única coisa que aprendi vendo isso de perto, porque ela contraria as duas explicações fáceis. O Pittbull, o Rafinha, o Jonathan e o André não morreram porque nasceram pobres. Não morreram pela cor da pele. Morreram por escolhas — escolhas que o bairro tornou mais baratas, mais à mão e mais compreensíveis, mas que continuaram sendo escolhas. Crescemos no mesmo bairro, comemos da mesma falta, ouvimos a mesma oferta na mesma esquina. A diferença entre nós não foi o ponto de partida. Foi a porta que cada um decidiu cruzar.
Insisto nisso por respeito, não por dureza. Quando alguém diz que eles “não tiveram escolha”, parece bondade — mas é o contrário. É dizer que eles não decidiram nada, que só foram levados, como se não fossem donos da própria vida. Eles decidiram. Eu também. O que muda é que a gente não decidia nas mesmas condições. No TX, a porta errada ficava na esquina, na frente das escolas: perto, conhecida, com dinheiro na mão no mesmo dia. A porta certa ficava do outro lado da cidade — exigia esforço, anos de estudo e alguém por perto repetindo que valia a pena. As duas estavam ali. Mas abrir uma custava muito mais do que abrir a outra.
Cresci ouvindo Racionais como quem ouve a própria rua falar de volta. Demorei a perceber que aquilo nunca foi só o retrato da violência da periferia — era um aviso sobre escolha. No meio do caos, a mensagem que ficava não era “você está condenado”. Era “você decide”. Levei anos para entender que as duas coisas não se contradizem: o lugar empurra, e você ainda escolhe.
A estatística que confirma o que a minha rua já sabia
O que eu via da bicicleta tem nome técnico e tem número. Segundo o Atlas da Violência mais recente, do Ipea e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o homicídio é a principal causa de morte de jovens de 15 a 29 anos no Brasil. Em 2024, dos 54 jovens mortos a cada dia no país, 51 eram homens. E entre 2014 e 2024 foram mais de 301 mil — uma geração inteira de meninos que não chegou aos trinta.
301 mil.
É o equivalente a mais de três vezes a população inteira de Cacoal desaparecendo de moto, de tiro, de esquina, em pouco mais de uma década. O Pittbull, o Rafinha, o Jonathan e o André entre outros não são metáfora dentro desse número. São pessoas entre os 301 mil. Eu sei o rosto de quatro deles — e sei também que cada um teve, em algum momento, uma esquina onde ainda dava para virar para o outro lado.
A corrida que começou gerações antes de eu nascer
Há outro número que explica por que sair dali é tão raro — e por que a porta errada é tão tentadora. A OCDE calculou que, no Brasil, uma criança nascida entre os 10% mais pobres precisaria, em média, de nove gerações para que algum descendente seu alcançasse a renda média do país. Nove gerações são cerca de trezentos anos.
Nove gerações.
Imagine uma corrida de revezamento que dura trezentos anos: a sua família passa o bastão de geração em geração, e esse bastão é o peso da pobreza. Você é o primeiro a talvez encostar numa linha de chegada que outros cruzaram leves, sem bastão nenhum para carregar. Não é que ninguém saia da pobreza no Brasil. É que sair exige atravessar um campo minado — e ainda ouvir, do outro lado, que quem pisou na mina foi descuidado.
E é exatamente aqui que mora a armadilha. Quando a conta parece impossível, é fácil concluir que não adianta tentar — que, já que o jogo está perdido, tanto faz a porta que se abre. Esse é o raciocínio que a esquina oferece de graça para o menino de quinze anos: “você não tem escolha mesmo”. É mentira. É a mentira mais perigosa do bairro, porque desarma a pessoa antes de a vida começar.
Nascer num lugar pobre fecha muitas portas. Não fecha a última — a de escolher qual delas abrir. E dizer ao menino da periferia que ele não tem escolha é roubar dele a única coisa que a pobreza nunca conseguiu confiscar.
Nascer num lugar pobre fecha muitas portas. Não fecha a última — a de escolher qual delas abrir. E dizer ao menino da periferia que ele não tem escolha é roubar dele a única coisa que a pobreza nunca conseguiu confiscar.
O diploma que quase ninguém da minha rua pegou
Comecei a trabalhar aos 14 anos como menor aprendiz. Fazia Senac de manhã, trabalhava à tarde e cursava o ensino médio à noite. O Helinho fazia o aprendiz comigo. O Aldo e o Dudu trabalhavam desde crianças no bar do pai. O Zinho, num supermercado. O Jackson, no bar do padrasto. Não era escolha de quem queria amadurecer cedo. Era a conta da casa pedindo ajuda.
Aos 15, meus pais se separaram. Eu e minhas duas irmãs ficamos com a minha mãe, que precisou trabalhar para segurar tudo sozinha. Foram anos apertados. Mais de uma vez ela tirou da própria boca para botar no prato dos filhos. Minha mãe é uma rainha — e foi ela, mais do que qualquer estatística, que me mostrou que cansaço não é desculpa para entregar os pontos.
No fim, eu me formei em engenharia. O Helinho, em administração. O Aldo, em engenharia também. E aqui entra um dado que mede o tamanho do que parece banal: segundo o Censo de 2022 do IBGE, só 18,4% dos brasileiros com 25 anos ou mais concluíram o ensino superior. Quatro em cada cinco não têm diploma. E em 3.008 municípios — mais da metade do país — a maioria da população adulta não terminou nem o ensino fundamental. Três meninos de uma rua de periferia chegando à faculdade não era o resultado que a conta previa. Era a exceção.
Seria desonesto não dizer o que funcionou. Funcionou a rigidez dos meus pais, que não deixavam folga para o erro. Funcionou a escola pública, que com todos os seus buracos ainda foi a única escada que existia. Funcionou o programa de menor aprendiz, que me deu carteira assinada aos 14 e a primeira prova de que estudar levava a algum lugar. Nenhuma dessas coisas decidiu por mim — mas todas tornaram a porta certa um pouco menos pesada de empurrar. É isso que uma política pública faz quando funciona: não carrega ninguém, só diminui o peso da porta. A escada existe. O problema nunca foi a ausência de escada. Foi a quantidade de gente que escorrega antes do segundo degrau — e os que largam a escada porque alguém convenceu que ela não levava a lugar nenhum.
O que o salário não apaga
Hoje quase todos nós já saímos do TX. Casamos, alguns como eu, temos a nossa própria família, o nosso salário, o nosso nome no crédito. Nossos pais continuam morando lá, então a gente sempre está por lá. E mesmo assim há uma coisa que nenhum de nós conseguiu deixar para trás: a correria. Não a do trânsito, nem a do trabalho. A de dentro. A sensação, que não passa, de que se a gente parar de remar um mês, afunda.
É isso que ninguém conta sobre quem saiu do TX e “venceu”. A gente alcança a renda média do país, mas não alcança a paz média. O diploma muda o contracheque. Não muda o reflexo de quem cresceu vendo o chão sumir.
Sair do Teixeirão não foi vencer o jogo. Foi atravessá-lo escolhendo, todos os dias, a porta que custava o dobro.
Sair do Teixeirão não foi vencer o jogo. Foi atravessá-lo escolhendo, todos os dias, a porta que custava o dobro.
Por isso eu desconfio das duas histórias que costumam contar sobre gente como eu. A primeira diz que quem não chegou simplesmente não quis — e essa esquece que, ali, a porta errada era mais barata, mais perto e mais bem vendida que a certa. A segunda diz que ninguém escapa, que é tudo determinado, que o pobre nasce sem escolha — e essa apaga o Helinho, o Aldo, a minha mãe acordando no escuro e cada decisão que tomaram contra a corrente. As duas são confortáveis, porque as duas tiram a responsabilidade de cima de alguém. A verdade incômoda fica no meio: havia escolha, sim — e ela nunca deveria ter custado tão caro.
O TX de hoje é outro. Virou quase um segundo centro de Cacoal, cheio de comércio, com um policiamento que a minha infância não conheceu. É uma boa notícia, e eu fico feliz com ela. Mas não é dela que este texto trata. Bairro a gente reforma. O que fica marcado em quem cresceu na versão antiga dele é mais difícil de reformar.
Eu ainda desvio. Trinta anos depois, longe da bicicleta e do corpo na rua, ainda atravesso a vida desviando de um perigo que já não está ali. Os meninos da minha rua que chegaram carregam todos o mesmo reflexo — e os que não chegaram seguem morando na gente, lembrando o tempo todo que entre uma esquina e outra sempre existiu uma escolha. Minha mãe continua sendo rainha de um reino onde se acorda às quatro da manhã. E eu continuo correndo. Não mais do bairro, mas da ideia que quase me venderam de graça: a de que eu nunca tive para onde ir.
Fontes: Atlas da Violência 2026 — Ipea e Fórum Brasileiro de Segurança Pública: o homicídio é a principal causa de morte de jovens de 15 a 29 anos; 301.825 jovens mortos entre 2014 e 2024 (cerca de 75 por dia); em 2024, dos 54 jovens mortos por dia, 51 eram homens. OCDE — “A Broken Social Elevator? How to Promote Social Mobility” (2018): no Brasil, seriam necessárias nove gerações — cerca de 300 anos — para um descendente dos 10% mais pobres alcançar a renda média. IBGE — Censo 2022 (Educação): 18,4% dos brasileiros com 25 anos ou mais concluíram o ensino superior; em 3.008 municípios, mais da metade da população com 25 anos ou mais não concluiu o ensino fundamental. Racionais MC’s — referência à obra do grupo.