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COLUNA | ESPORTE & IDENTIDADE NACIONAL

A Derrota Que Terminou Um a Um

O Brasil somou um ponto, ficou invicto e saiu de campo com gosto de fracasso. A escalação de Ancelotti merece as perguntas que recebeu — mas a sensação de derrota tem uma causa mais antiga do que qualquer time titular.

Iris de Oliveira · 15 de jun. de 2026
A Derrota Que Terminou Um a Um

O bar do Bigode, em Ji-Paraná, encheu antes das 19h. Camisa amarela, cerveja na mesa, criança no colo, o telão ligado num estádio a oito mil quilômetros dali. Quando a bola rolou, havia certeza no ar — o tipo de certeza que o brasileiro carrega para dentro de toda estreia de Copa como quem carrega documento.

Noventa minutos depois, o mesmo bar esvaziou em silêncio. Ninguém xingou o juiz. Ninguém comemorou o ponto somado. As pessoas pagaram a conta e foram embora com a cara de quem perdeu — embora o placar dissesse, em números frios, que o Brasil não tinha perdido. Empate: 1 a 1. Um ponto. Invicto.

E ali estava a contradição que define a estreia da Seleção na Copa de 2026: o Brasil não perdeu, mas o país inteiro sentiu derrota.

A explicação fácil já circulou em todos os grupos de WhatsApp do país: a culpa é de Ancelotti. Escalou errado, insistiu num zagueiro improvisado na lateral, deixou no banco o garoto que vinha decidindo. Parte dessa cobrança é justa — e este texto vai chegar nela. Mas a explicação fácil resolve o jogo e ignora o sintoma. A sensação de derrota num empate não nasceu no gramado de Nova Jersey. Nasceu muito antes — e tem menos a ver com o time que entrou em campo do que com o time que mora na cabeça de quem assiste.

O jogo, sem a emoção

Vale separar o que os olhos viram do que o coração sentiu.

Aos 20 minutos, Lucas Paquetá errou um passe na saída, Brahim Díaz lançou nas costas da zaga e Saibari, na cara de Alisson, deu uma cavadinha para abrir o placar. Foi gol de quem jogava melhor. O Marrocos — que terminou a Copa de 2022 em quarto lugar, a melhor campanha de uma seleção africana na história — não estava ali para fazer número. Empurrou o Brasil para trás, trocou 123 passes no último terço contra 69 da Seleção, finalizou 14 vezes contra 12 e criou o dobro de chances claras. Depois do apito, o lateral Danilo foi honesto: o Brasil tinha que agradecer por sair com o empate.

Então veio o que o Brasil ainda tem e quase ninguém tem igual: a individualidade. Bruno Guimarães achou Vini Jr., que partiu da linha de fundo, cortou o marcador e mandou um golaço. Um lance que esquema nenhum ensina e adversário nenhum treina para impedir. Foi o suficiente para o empate. Não foi o suficiente para a sensação.

Que fique claro, antes de qualquer cobrança: empatar a estreia não é fracasso. O Brasil somou um ponto, segue invicto, segue vivo no Grupo C. Em 2002, ano do último título, a Seleção também tropeçou no caminho e levantou a taça. Estreia de Copa é exame de entrada, não sentença.

As perguntas que o técnico merece

Dito isso, quem está defendendo o treinador com um “calma, é só um jogo” precisa responder a perguntas que o “calma” não responde.

Wesley, titular da lateral direita, foi cortado por lesão. Para o lugar dele, Ancelotti não escalou um lateral — escalou Ibañez, zagueiro de origem, pedindo que ele fizesse a função ofensiva de um ala. Não funcionou. Casemiro, aos 33 anos, sofreu no primeiro tempo; quando Fabinho entrou no intervalo, o meio-campo brasileiro passou a existir. E Endrick — que vinha entrando e marcando, inclusive no último amistoso antes da estreia — assistiu aos 90 minutos do banco, enquanto o time não conseguia criar.

Nenhuma dessas escolhas é crime. Ancelotti é um dos maiores treinadores da história do futebol e tem o direito de ler o jogo como ninguém na arquibancada lê. Mas “ele é um gênio” não responde “por que um zagueiro na lateral?” — do mesmo modo que “calma, é um jogo só” não responde “por que o artilheiro da reserva ficou sentado?”. Quem faz essas perguntas não está sendo histérico. Está sendo torcedor.

A régua que parou em 2002

E aqui chegamos ao que o placar não explica.

O brasileiro não assistiu a Brasil 1 a 1 Marrocos. Assistiu a Brasil contra a própria lembrança. E a lembrança é impiedosa: tetra em 1994, vice em 1998, penta em 2002 com Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho. Foi a última vez que a taça veio para casa. Cinco Copas inteiras se passaram desde então — 2006, 2010, 2014, 2018, 2022 — e em todas o Brasil entrou como favorito do imaginário e saiu sem o título. Esta, a sexta, mal começou.

Vinte e quatro anos.

É a idade de um adulto que nunca viu, em vida consciente, o Brasil ser campeão do mundo.

A última vez que essas duas seleções se enfrentaram numa Copa foi em 1998: Brasil 3 a 0, gols de Ronaldo, Rivaldo e Bebeto. Vinte e oito anos depois, deu 1 a 1. Os dois placares contam a mesma história — só que de lados opostos da mesma régua.

Porque o problema é que a expectativa nunca foi recalibrada. O torcedor envelheceu, o mundo do futebol mudou, o Marrocos chegou a uma semifinal de Copa — e a régua continua marcada em 2002. É como medir todo filho pela altura do irmão mais alto da família: por mais que o caçula cresça, ele entra na sala e alguém comenta que o outro era maior.

A sensação de derrota é exatamente essa distância — entre o time real, que empatou com um adversário forte numa estreia difícil, e o time imaginário, que goleava todo mundo num passado que cada ano fica mais distante e mais dourado na memória.

Os dois enganos no mesmo bar

Há, portanto, dois erros convivendo na mesma mesa.

O primeiro é o de quem já pede a cabeça de Ancelotti depois de noventa minutos. Um empate com o quarto colocado da última Copa não é vexame — é o mundo informando, com educação, onde o Brasil de hoje realmente está. Quem chama isso de catástrofe está usando uma régua quebrada.

O segundo é o de quem manda “é só o começo” e encerra o assunto. Porque uma coisa é a régua estar errada; outra é fingir que as escolhas do técnico não merecem escrutínio. Merecem. O time pode ter sido vítima de uma expectativa irreal e, ao mesmo tempo, ter sido mal escalado. As duas coisas cabem dentro do mesmo jogo — e quem só enxerga uma delas está vendo meio campo.

A régua que mede a Seleção ainda marca 2002. E nem o time de 2002 passaria nesse teste todo santo dia.

No bar do Bigode, a conta foi paga em silêncio. Não pelo que o Brasil fez em campo — mas pelo que o torcedor esperava que ele fosse. Na sexta tem Haiti, e o bar vai encher de novo, com a mesma camisa e a mesma certeza de sempre.

Enquanto o Brasil medir cada time pela taça de 2002, todo empate vai ter gosto de derrota. E aí o problema deixa de ser o que acontece dentro das quatro linhas.


Fontes: CNN Brasil — “Vini Jr. marca golaço, mas Brasil só empata com Marrocos na estreia da Copa” (jun/2026); 365Scores — Raio-X de Brasil 1 a 1 Marrocos: posse 51% a 49%, xG 1.26 a 1.37, finalizações 12 a 14, passes no último terço 69 a 123 (jun/2026); Reuters / Brasil 247 — pressão sobre Ancelotti após empate; críticas a Ibañez, Paquetá, Igor Thiago e Casemiro (jun/2026); Lance! — análise da estreia e escolhas de Ancelotti; entrada de Fabinho e ausência de Endrick (jun/2026); Soccerway — retrospecto Brasil x Marrocos (1998: 3 a 0) e Marrocos 4º lugar na Copa de 2022.