O País que Está Fechando as Portas
7,2 milhões de empresas inadimplentes. Insolvências crescendo 28% em um ano. Recuperações judiciais no maior nível da história. Os números são reais — e o que eles dizem sobre o Brasil vai além das estatísticas.
Iris de Oliveira · 18 de mar. de 2026Antes de entrar nos números, uma distinção que vai aparecer ao longo desta coluna e que importa saber: falência e recuperação judicial não são a mesma coisa. Falência é o encerramento definitivo — a empresa fecha, os ativos são liquidados, acabou. Recuperação judicial é uma tentativa de sobrevivência — a empresa entra na Justiça para renegociar dívidas e reorganizar as finanças antes que seja tarde. Muita gente confunde as duas, e nas redes sociais os dados têm sido misturados de forma que infla os números e distorce o diagnóstico. Faço questão de separar porque, quando os dados são usados com precisão, o que eles revelam é grave o suficiente — não precisa de exagero.
E o que eles revelam é isto: o Brasil está fechando portas em escala que não víamos há anos.
Os números que você precisa conhecer
Começo pelo dado mais amplo e mais perturbador. Pesquisa da FecomercioSP com base no Serasa Experian mostrou que 7,2 milhões de empresas brasileiras encerraram 2025 inadimplentes — incapazes de pagar suas dívidas. Isso equivale a 31% de todos os negócios ativos no país. Três em cada dez empresas brasileiras estão no vermelho. Em 2024, eram 6,9 milhões. O crescimento foi de 300 mil empresas em um único ano.
Desse total, 6,8 milhões são micro e pequenas empresas — o padeiro da esquina, a oficina mecânica do bairro, a loja de roupas do centro. Elas carregam sozinhas R$ 141,6 bilhões em débitos em aberto. E o setor de serviços lidera o ranking: 52,8% dos negócios do setor estão inadimplentes. Mais da metade.
No campo das recuperações judiciais — os pedidos formais de proteção na Justiça para tentar reorganizar as dívidas —, 2024 registrou 2.273 solicitações, o maior volume desde o início da série histórica, em 2006. Um crescimento de 61,8% em relação ao ano anterior. Já as insolvências empresariais, segundo a Allianz Trade, cresceram 28% em 2025 — com previsão de mais 5% em 2026, antes mesmo de considerar os efeitos da guerra no Oriente Médio e do petróleo acima de US$ 100.
As falências decretadas — o encerramento definitivo — também cresceram: de 622 em 2021 para 780 em 2024, alta de 25% em quatro anos. E há um dado que resume tudo: o percentual de empresas que entram em recuperação judicial e acabam declarando falência mesmo assim saltou de 29% para 37% em apenas dois trimestres de 2025. O instrumento criado para salvar empresas está falhando em um terço dos casos — e a proporção está crescendo.
Três em cada dez empresas brasileiras estão inadimplentes. Um terço das que pedem proteção judicial acaba fechando mesmo assim. Não é uma crise pontual. É uma hemorragia lenta.
Por que isso está acontecendo — sem rodeio
Os especialistas são unânimes no diagnóstico principal: juros. Com a Selic em 15% ao ano — entre os maiores níveis das últimas duas décadas — o custo do dinheiro no Brasil está sufocando quem precisa de crédito para operar. A taxa média cobrada dos empresários chegou a 1,9% ao mês em outubro de 2025. Para pessoas físicas, o custo médio do crédito livre está em 47,8% ao ano. O spread bancário — a diferença entre o que o banco paga para captar e o que cobra para emprestar — chegou a 21,9 pontos percentuais em janeiro de 2026, o maior desde 2017.
Mas os juros não são o único motor. Há pelo menos três outros fatores que agravam o cenário. O primeiro é o diagnóstico tardio: empresários brasileiros têm resistência cultural em admitir que o negócio está em crise. Pedem socorro tarde demais, quando já não têm ativos para oferecer como garantia para conseguir crédito novo. Sem crédito novo, o plano de recuperação fracassa — e a falência vira a única saída.
O segundo fator é o calendário eleitoral. Em ano de eleição presidencial, bancos ficam mais cautelosos. A incerteza sobre quem vai governar, quais serão as políticas fiscais e tributárias, o que vai acontecer com o câmbio — tudo isso faz as instituições financeiras preferirem segurar o dinheiro. Crédito mais escasso significa empresas sem fôlego para atravessar o período.
O terceiro fator é a reforma tributária. A transição para o novo sistema fiscal exige custos de adaptação que as empresas precisam absorver agora — num momento em que o caixa já está apertado. E a proibição do uso de créditos fiscais acumulados para quitar débitos retirou uma ferramenta que muitas empresas usavam como válvula de escape nas reestruturações.
Quem está pagando o preço
O agronegócio — que por décadas foi a âncora da economia brasileira, respondendo por quase 30% do PIB — hoje lidera os pedidos de recuperação judicial. É uma inversão que merece atenção. Empresas do campo que sobreviveram à pandemia, às secas, às oscilações do dólar, chegam a 2026 com dívidas roladas há anos e sem reservas patrimoniais para dar como garantia.
Mas a crise não poupa o pequeno. Quase 100 mil empresas fecharam as portas só no primeiro quadrimestre de 2025. O Rio Grande do Sul registrou alta de 65% nas falências decretadas em 2025 em relação ao ano anterior. E o dado do IBGE que ninguém gosta de repetir segue válido: 20% das empresas brasileiras não sobrevivem ao primeiro ano. Sessenta por cento fecham antes de completar cinco anos.
São empregos que somem. São famílias que perdem renda. São bairros que ficam com vitrines fechadas e placas de 'aluga-se'. A inadimplência corporativa não é estatística — é o som de uma porta sendo trancada pela última vez.
O que vem pela frente
A projeção para 2026 não é animadora. Mesmo com a expectativa de queda gradual da Selic ao longo do ano — com previsão de encerrar em torno de 12,25% segundo o Boletim Focus —, os especialistas da Tendências Consultoria são diretos: 'Teremos novos recordes de inadimplência corporativa, recuperações judiciais e falências devido à taxa de juros restritiva.' A Selic vai cair, mas o alívio será insuficiente para reverter o aperto acumulado. Empresas que chegam a 2026 sem reservas não têm tempo de esperar a taxa cair devagar.
E há uma variável nova que os modelos ainda não conseguiram precificar direito: o conflito no Oriente Médio. Com o petróleo acima de US$ 100 e a ameaça ao Estreito de Ormuz, os custos de frete e energia — que já pesavam no balanço das empresas — tendem a pressionar ainda mais as margens. A Allianz Trade admitiu que sua projeção de crescimento de 5% nas insolvências em 2026 não considera os riscos geopolíticos recentes.
Para terminar — com uma pergunta que fica
Tem algo estrutural nessa história que me incomoda mais do que os números em si. O Brasil tem um dos maiores custos de crédito do mundo. Tem uma das maiores cargas tributárias entre países emergentes. Tem uma burocracia que penaliza o pequeno empresário com obrigações que empresas maiores conseguem absorver com equipes dedicadas e os pequenos não. E ainda assim, são os pequenos que empregam mais, que estão em mais cidades, que sustentam mais famílias.
Quando 31% deles estão inadimplentes e 37% dos que pedem proteção judicial acabam fechando mesmo assim, não é porque os empresários brasileiros são incompetentes. É porque o ambiente em que operam é sistematicamente mais hostil do que precisa ser.
Fechar uma empresa no Brasil leva em média quatro anos e consome boa parte do patrimônio do dono. Abrir uma nova leva semanas e custa caro. O país que dificulta tanto fechar quanto abrir não está com problema de empreendedor. Está com problema de sistema.
Fontes: FecomercioSP/Serasa Experian (2025); Allianz Trade — Insolvency Report (2025/2026); Monitor RGF — 3º trimestre de 2025; Boletim Focus — Banco Central do Brasil (mar/2026); Tendências Consultoria; Coface — América Latina (2025); Observatório Brasileiro da Recuperação Extrajudicial (mar/2026); Ministério do Empreendedorismo (2025); IBGE; Revista Oeste (ago/2025); Gazeta do Povo (dez/2025 e mar/2026); CNN Brasil (mai/2025); Aos Fatos — checagem sobre dados de falências (fev/2026).