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COLUNA | POLÍTICA & RELIGIÃO

Pelos Frutos os Conhecereis — e Versículo Não É Fruto

O PT lançou uma carta aos evangélicos com passagens de Isaías, Mateus e Tiago. A direita faz o mesmo há mais de uma década, com mais prática. Em ano eleitoral, todo político se descobre cristão diante de 47 milhões de eleitores — e a Bíblia que ele cita propõe um teste que ele preferia não fazer.

Iris de Oliveira · 9 de jun. de 2026
Pelos Frutos os Conhecereis — e Versículo Não É Fruto

Na semana passada, na Marcha para Jesus em São Paulo, quem subiu ao palco diante de uma multidão de evangélicos foi Flávio Bolsonaro. Lula não foi. Disse que preferia não participar para não passar a impressão de querer “tirar proveito político de algo sagrado”. Mandou um ministro no lugar.

Três dias depois, o partido de Lula publicou uma carta aberta aos evangélicos. Abre com Isaías. Passa por Tiago, Mateus, Efésios e Pedro. E termina defendendo a reeleição em 2026.

O sagrado, ao que parece, só era intocável no palco.

Não é a primeira carta do gênero, nem será a última — e o PT não inventou o método. Apenas chegou atrasado a ele. Há mais de uma década a direita brasileira transformou a fé no seu ativo eleitoral mais valioso: “Deus acima de todos” virou slogan de campanha, o púlpito virou palanque, e o pastor Silas Malafaia aparecia de Bíblia na mão ao lado do então presidente. O que mudou em 2026 não é que a política descobriu a religião. É que agora os dois lados disputam a mesma fé.

E aqui está a tese deste texto: o eleitor evangélico deixou de ser base de um lado para virar disputa dos dois. Parece progresso — afinal, ninguém mais o trata como voto garantido. Mas quem vira disputa raramente vira prioridade. Vira público-alvo.

A fé virou cabo eleitoral.

A aritmética por trás da fé

São 47,4 milhões de pessoas.

Um em cada quatro brasileiros. O Censo de 2022 mostrou os evangélicos em 26,9% da população, contra 21,6% uma década antes — o grupo religioso que mais cresceu no país, ainda que num ritmo já desacelerado. No Norte são 36,8%. Aqui em Rondônia, onde escrevo, e no vizinho Acre, eles já superam os católicos: fato inédito na história desses dois estados. Nenhuma campanha séria pode ignorar um bloco desse tamanho. E nenhuma ignora.

23%.

É o tamanho de Lula entre os evangélicos, segundo o Datafolha de março de 2026. Três em cada quatro escolhem outro nome — e o nome que lidera nesse grupo é o de um Bolsonaro. A carta do PT não nasceu de uma revelação espiritual. Nasceu dessa conta.

O que há de legítimo dos dois lados

Antes de qualquer crítica, é preciso reconhecer o óbvio: falar a evangélicos não é crime, é representação. Um quarto do país professa essa fé — seria estranho que a política não a procurasse. E há sinceridade real nos dois lados do tabuleiro.

A carta do PT acerta quando lembra que cuidar do faminto, do oprimido e do vulnerável é, sim, mensagem cristã. Isaías e Mateus estão lá, e não foi o marketing que os escreveu; programas como o Bolsa Família e a Farmácia Popular dialogam de fato com essa tradição. Do outro lado, a direita não mente quando afirma que valores de família, vida e liberdade religiosa importam profundamente a milhões de fiéis — e representá-los é tão legítimo quanto representar qualquer outra convicção.

O problema não é nenhum dos dois conteúdos. É o calendário.

Olhe a distância entre o que se diz e quando se diz. No começo do ano, o PT colhia uma crise com parte das igrejas: uma ala de desfile de Carnaval que satirizava grupos religiosos, uma troca de farpas pública entre a primeira-dama e o pastor Silas Malafaia, encontros que azedaram. A própria Janja admitiu, no evento desta semana, que o partido se isolou das igrejas ao longo dos anos. A carta chega depois disso — não como conversão, mas como reparo. É legítimo querer reatar uma conversa interrompida. Só não se deve confundir reaproximação de campanha com sintonia de valores: a primeira tem prazo de validade, e ele coincide com a data da eleição.

Ninguém mudou de ideia. Mudou de vocabulário.

Repare no que cada lado escolhe citar. O PT abre a carta com Isaías — repartir o pão com o faminto — e segue para os programas sociais que já eram a sua plataforma. A direita prefere os versículos sobre família, ordem e autoridade, que também já eram a plataforma dela. Cada um foi à Bíblia buscar exatamente o trecho que confirmava o que já ia dizer de qualquer jeito.

Nenhum dos dois mudou de posição por causa do Evangelho. Os dois traduziram a plataforma que já tinham para a língua que o eleitor entende. A Bíblia não convenceu o político — o político escolheu, na Bíblia, o versículo que cabia no programa.

É como o selo de “aprovado” que se cola na embalagem depois que o produto já saiu da linha de produção. O versículo não orienta a proposta: carimba a proposta. Vem por último, não por primeiro.

O versículo não escolheu o partido. O partido escolheu o versículo.

Há uma ironia que nenhum dos lados parece notar. O próprio livro que todos agora citam oferece um critério para julgar quem o cita. “Pelos seus frutos os conhecereis”, diz Mateus 7. Não pelos versículos que a pessoa decora — pelos frutos que ela produz.

É o teste mais inconveniente que existe num ano eleitoral. Porque versículo se entrega em quatro meses de campanha; fruto leva quatro anos de governo, e mais quatro, e mais quatro. O eleitor evangélico recebe, a cada dois anos, uma enxurrada de versículos. Frutos, ele só consegue avaliar olhando para trás — para o que cada um desses políticos de fato fez pela vida de quem mora longe do palco.

Versículo é promessa. Fruto é prestação de contas. Por isso a campanha prefere o primeiro: ele não cobra de volta.

A fila que não aparece na carta

Conheço o cenário de perto. Numa igreja em Cacoal, no interior de Rondônia, o culto de domingo reúne gente que trabalha a semana inteira e separa o dízimo do pouco que sobra. A cada dois anos, a mesma cena se repete: aparece um candidato, pede a palavra, cita um versículo, tira foto com o pastor e some até a eleição seguinte. Os fiéis sabem o roteiro de cor. Aplaudem por educação. E voltam para casa, para uma realidade que nenhuma carta escrita em Brasília mencionou: o posto de saúde sem médico, o salário que não fecha o mês, o filho que não achou emprego.

Eles não são um “segmento”. São pessoas que levam a fé a sério o ano inteiro — inclusive nos vinte e dois meses em que a política não lembra que eles existem.

Para ser justo, a carta do PT faz uma ressalva honesta: afirma que os evangélicos não formam um bloco único e critica “a tentativa de transformar a religião em instrumento de manipulação política”. É uma frase correta — escrita, ironicamente, dentro de um instrumento de aproximação política em ano eleitoral. A direita, por sua vez, há anos trata o voto evangélico como propriedade, como se a fé tivesse dono e o dono fosse um lado só.

Os dois erram no mesmo ponto, de direções opostas. Um age como se a fé fosse território a conquistar. O outro, como se fosse território já conquistado. Nenhum a trata como o que ela é: a convicção de 47 milhões de pessoas que merecem ser ouvidas durante os quatro anos, e não cortejadas nos quatro meses.

Daqui a alguns meses, outro candidato vai entrar naquela igreja de Cacoal, pedir a palavra e citar um versículo. Os fiéis vão aplaudir por educação, como sempre. A pergunta não é qual versículo ele vai escolher. É se, quando ele for embora, vai sobrar algum fruto — ou só a página marcada numa Bíblia que ele não vai abrir de novo até a próxima eleição.


Fontes: Terra, InfoMoney, Jornal de Brasília, Diário de Pernambuco e Gazeta do Povo — PT lança carta aos evangélicos com versículos e pauta eleitoral, assinada pelo IV Encontro Nacional de Evangélicos do partido (jun/2026); IBGE, Censo 2022 — evangélicos somam 47,4 milhões, 26,9% da população (eram 21,6% em 2010); Norte com 36,8%; Acre e Rondônia com evangélicos superando católicos (jun/2025); Datafolha — Lula com 23% das intenções entre evangélicos no cenário estimulado (mar/2026); Marcha para Jesus 2026, em São Paulo — presença de Flávio Bolsonaro e ausência de Lula, representado pelo ministro Jorge Messias; atrito entre a primeira-dama e o pastor Silas Malafaia e a polêmica do desfile de Carnaval que satirizou grupos religiosos (2026).