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COLUNA | SOCIEDADE & TECNOLOGIA

A Geração Mais Conectada da História Não Sabe o Que Fazer com um Livro

O Brasil perdeu 6,7 milhões de leitores em quatro anos — não por falta de acesso, mas por excesso de concorrência. O algoritmo não precisou derrotar o livro. Só precisou ser mais imediato do que ele.

Iris de Oliveira · 8 de jun. de 2026
A Geração Mais Conectada da História Não Sabe o Que Fazer com um Livro

A imagem é uma charge. Numa praça cinzenta, uma multidão de homens — todos iguais, todos se perguntando o que é aquilo. No centro, um livro largo e espesso. Um jovem aponta para ele com um graveto, como se fosse bicho peçonhento, uma anomalia. Os balões de fala ao redor mostram interrogações, pontos de exclamação, sinais de confusão. Ninguém na cena parece saber o que fazer com aquele objeto.

É uma charge. Mas não é ficção.

Em 2024, pela primeira vez desde que a pesquisa existe, a maioria dos brasileiros não leu nem parte de um livro nos últimos três meses. Em quatro anos, o país perdeu 6,7 milhões de leitores — uma queda que não poupou classe social, nível de escolaridade ou região. O livro está no chão. E a multidão ao redor não está distraída. Está genuinamente confusa sobre o que fazer com ele.

O preço que não aparece na nota fiscal

Antes de qualquer acusação, é necessário dizer o que o algoritmo faz de verdade: entrega conexão, entretenimento, informação, risada, comunidade — tudo isso de graça, na palma da mão, sem exigir esforço prévio. Não é vício sem motivo. É produto bem feito, resolvendo necessidades reais de pessoas reais.

O problema não é que as plataformas existam. É o preço que cobram — e que não aparece na nota fiscal.

O preço é a atenção. Cada hora no feed é uma hora que não foi no livro, na conversa, no silêncio necessário para que uma ideia se forme inteira. E a queda de 6,7 milhões de leitores em quatro anos, distribuída por todos os perfis, mostra que esse preço está sendo pago em escala — por ricos e pobres, escolarizados e não escolarizados, norte e sul.

O algoritmo não tem classe social. Ele compete com qualquer um — e está ganhando de todos.

Não é diagnóstico de pobreza. É diagnóstico de disputa. E numa disputa, o que importa é quem tem vantagem estrutural. O livro exige que o leitor vá até ele. O algoritmo vem até você — às 23h, na cama, com o brilho da tela calibrado para que os olhos não fechem.

9 horas por dia — e o músculo que atrofiou

O Brasil é o segundo país do mundo onde as pessoas passam mais tempo conectadas à internet: 9 horas e 13 minutos por dia, em média. A média global é de 6 horas e 38 minutos. O brasileiro passa mais 2h30 por dia conectado do que a média mundial. Desse tempo, mais de 3 horas e meia são dedicadas exclusivamente a mídias sociais — o maior índice entre todos os países do Relatório Digital 2025.

Pense assim: ler um livro é como correr. Exige preparo, esforço progressivo, tolerância ao desconforto antes da recompensa. O algoritmo é a esteira elétrica que anda sozinha — você só precisa ficar em cima. Quem passa anos na esteira e para de correr não perdeu a vontade de correr. Perdeu o músculo. E músculo atrofiado não volta com boa intenção. Volta com treino.

É isso que a neurociência está documentando. Uma revisão publicada na PLOS Mental Health em 2024, analisando 237 adolescentes por ressonância magnética, identificou redução na conectividade da rede de controle executivo do cérebro — a região responsável por manter o foco, usar a memória de trabalho e controlar impulsos. O uso excessivo de telas prejudica exatamente as habilidades necessárias para ler um livro.

Não é fraqueza de caráter. É fisiologia. O cérebro estimulado por anos com fragmentos de 15 segundos desenvolve dificuldade real em sustentar atenção por 15 minutos seguidos. A charge com o livro no chão não mostra uma escolha. Mostra um condicionamento.

A palavra que o Oxford escolheu — e o que ela revela

Em dezembro de 2024, o Dicionário de Oxford escolheu a palavra do ano. Não foi sobre política, economia ou guerra.

Brain rot. Deterioração mental causada pelo consumo excessivo de conteúdo trivial, especialmente online. O uso do termo cresceu 230% entre 2023 e 2024.

A geração que mais usa o termo é a Geração Z e a Geração Alpha — os jovens que nasceram dentro das redes sociais. Eles nomearam o efeito do que consomem sobre si mesmos antes de qualquer pesquisador. É como se o paciente tivesse chegado ao consultório com o diagnóstico já escrito — e o médico ainda estivesse estudando os exames.

Brain rot é o nome popular para o que a neurociência chama de fadiga cognitiva por fragmentação da atenção. A metáfora é precisa: não é que o cérebro para de funcionar. É que ele fica cada vez menos capaz de sustentar o esforço longo — como um músculo que foi trocado por um suporte e esqueceu como carregar peso. O livro é peso. O vídeo de 15 segundos é o suporte.

O problema não é que a geração atual seja menos inteligente. É que ela foi treinada, sistematicamente, para um tipo de atenção que o livro não consegue satisfazer.

Cacoal, Tabatinga, qualquer cidade

Pense no filho mais velho da Dona Márcia, professora de Cacoal. Ele tem 14 anos, celular desde os 10, acessa o TikTok em média 1h27 por dia — e essa é a média nacional do aplicativo. A escola passou a proibir celular em sala de aula com a Lei nº 15.100/2025. Boa notícia: pela primeira vez o Brasil reconheceu institucionalmente que o problema existe dentro da sala de aula.

Mas o filho da Dona Márcia sai da escola às 17h e tem o celular de volta às 17h01. A lei protege a sala. Não protege o quarto, o ônibus, o jantar, as 22h de uma quarta-feira quando ele deveria estar dormindo mas está rolando o feed. O livro que a escola mandou ler ficou na mochila.

Isso não é culpa dele. É a arquitetura do ambiente em que ele cresceu — construída por empresas cujo modelo de negócio depende de tempo de uso, não de desenvolvimento humano. O aplicativo não quer que ele cresça. Quer que ele volte amanhã.

Escrevo isso como quem lê e como quem escreve — e por isso sabe o que está em jogo. Não é apego ao papel. É a consciência de que há um tipo de pensamento que só acontece quando a mente aguenta ficar com uma ideia tempo suficiente para que ela se aprofunde. Esse pensamento está ficando mais raro. E quando olho para os números, não sinto superioridade — sinto a perda de algo que não volta sozinho.

O que está em jogo não é o livro

Seria fácil transformar essa discussão em nostalgia do livro impresso contra o digital. Não é isso. O problema não é a tela. É o que a tela está entregando — e para que está treinando o cérebro.

Ler um texto longo exige atenção sustentada, tolerância à ambiguidade e capacidade de construir argumento ao longo do tempo. São habilidades que a leitura treina e que o consumo de vídeos curtos não treina. O que está sendo perdido não é o prazer do papel — é a capacidade de pensar com profundidade.

E profundidade tem consequência pública. Uma população que perde progressivamente a capacidade de atenção sustentada é uma população mais vulnerável a desinformação, a slogan, a simplificação. Democracia funciona com cidadãos capazes de ler um argumento longo, tolerar contradição, construir julgamento ao longo do tempo. Não é coincidência que o colapso da atenção e o avanço do conteúdo raso marchem juntos.

A atenção não é só recurso individual. É infraestrutura coletiva. Quando ela se fragmenta em escala, toda a sociedade perde algo que não tem nome fácil — mas que faz falta em cada decisão, em cada voto, em cada conversa que importa.

O que muda — e o que depende de escolha

A proibição do celular na escola é um começo, mas a queda de leitores aconteceu em todos os perfis — ensino superior, classe A e B, todas as regiões. Não existe solução que atinja só um grupo porque o problema não está num grupo. Está no ambiente que todos compartilham.

O que pode funcionar não é proibição ampla — é construção intencional de outro ambiente. Bibliotecas públicas que funcionem. Escola que ensine a ler com prazer, não só a decodificar símbolo. Regulação que obrigue as plataformas a revelar como o algoritmo opera e a que resultado ele está levando seus usuários. E, individualmente, a consciência de que a atenção é o bem mais escasso que existe — e que ela não se protege sozinha, porque foi projetada para não se proteger.

O livro está no chão da charge porque alguém o deixou lá. Não por acidente. Porque havia algo na mão de cada pessoa que parecia mais urgente, mais rápido, mais recompensador a cada segundo. O algoritmo não precisou ser melhor que o livro. Só precisou ser mais imediato.

O jovem na charge aponta para o livro com um graveto, como quem examina algo que não reconhece — e talvez não reconheça mesmo. Não porque seja ignorante. Porque foi treinado, segundo a segundo, para um tipo de atenção que o livro não sabe imitar. Reverter isso não é questão de incentivo ou campanha de leitura. É questão de decidir, conscientemente, que tipo de cérebro uma sociedade quer formar — e construir o ambiente que forme esse cérebro. Enquanto essa decisão não for tomada em política pública, continuará sendo tomada em algoritmo. E o algoritmo já escolheu.

Fontes: Instituto Pró-Livro / Fundação Itaú — Retratos da Leitura no Brasil, 6ª edição, 2024: 53% dos brasileiros não-leitores; queda de 6,7 milhões de leitores em 4 anos (nov/2024); We Are Social / Meltwater — Relatório Digital 2025: Brasil lidera tempo em mídias sociais com 3h32/dia; 9h13 de tempo online diário; CNN Brasil / Bain & Company Consumer Pulse (2025); Dicionário de Oxford — Brain Rot: Palavra do Ano 2024, crescimento de 230% no uso (dez/2024); PLOS Mental Health — Revisão de 12 estudos de ressonância magnética, 237 adolescentes com dependência de internet, redução na rede de controle executivo (2024); Karolinska Institutet / Oregon Health & Science University — uso de redes sociais e desatenção em crianças e adolescentes (2025); Lei nº 15.100/2025 — proibição de celular nas escolas brasileiras.