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COLUNA | SOCIEDADE & CONSUMO DIGITAL

Todo Anunciante Quer que Você Compre. O Influenciador do Cassino Quer que Você Perca.

O Brasil tem 3,8 milhões de influenciadores — mais do que médicos, engenheiros e advogados com registro ativo. A maior parte vende o que você precisa. Uma parte é paga exatamente quando você perde. E essa distinção muda tudo.

Iris de Oliveira · 5 de jun. de 2026
Todo Anunciante Quer que Você Compre. O Influenciador do Cassino Quer que Você Perca.

Minha sobrinha de oito anos sabe de cor a frase de abertura do canal que mais assiste. Repete o jingle, imita o gesto, pede o produto que o criador mostrou semana passada com uma precisão que não deixa dúvida: ela não está assistindo um entretenimento. Está sendo formado por um vendedor que ela acha que é amigo.

Minha sobrinha não é exceção. É o modelo. O Brasil tem 3,8 milhões de criadores de conteúdo — mais do que médicos, engenheiros e advogados com registro profissional ativo somados — num mercado que movimenta R$ 20 bilhões por ano. Sete em cada dez consumidores compraram algum produto por indicação de influenciador nos últimos seis meses.

A maior parte dessas transações funciona. O problema está em entender o que muda quando o produto anunciado não é o tênis nem o suplemento — é o cassino online. Porque aí, pela primeira vez na história da publicidade, a lógica inteira se inverte.

O que o modelo inteiro tem de certo

É necessário dizer isso antes de qualquer crítica: a maior parte do mercado de influência funciona, e funciona bem.

Uma produtora de farinha de mandioca, no interior de Rondônia, que nunca teria acesso a uma prateleira de supermercado em São Paulo — chega lá pelo celular de um criador de nicho com vinte mil seguidores. Um jovem professor de matemática que explica equação de graça para quem não tem dinheiro para cursinho. A resenha honesta que poupa o trabalhador de gastar o salário num produto que não entrega o que promete. Pesquisa da Opinion Box mostra que 87% de quem comprou por indicação de influenciador ficou satisfeito com a compra.

O influenciador democratizou o acesso ao mercado e ao conhecimento. Isso não é pouco. O problema não é a ferramenta. É o que acontece quando o incentivo financeiro por trás dela deixa de estar do mesmo lado que o seguidor.

O catálogo que parece amizade

O mecanismo é simples, e funciona porque reproduz algo que o cérebro reconhece como seguro: a recomendação de alguém de confiança.

A vida que aparece na tela — a casa impecável, o corpo pronto, a viagem sem contratempo — não é a vida de quem a mostra. É o catálogo. E o catálogo tem uma função precisa: fazer o seguidor sentir que falta alguma coisa. Quando a falta está instalada, o produto que a preenche já está na próxima frase.

O brasileiro passa mais de nove horas por dia conectado à internet. É tempo de exposição que nenhuma propaganda de televisão jamais alcançou — e ela opera com uma vantagem que a TV nunca teve: parece conversa, não anúncio. A publi não interrompe o conteúdo. Ela é o conteúdo. E o vendedor é o melhor amigo que o seguidor acha que tem.

A criança não tem defesa contra o amigo

Um adulto, com esforço, percebe quando está diante de uma propaganda. Aprende a desconfiar do "publi", a duvidar do antes e depois. A criança não tem essa defesa — porque para ela não existe distinção. O influenciador que abre o brinquedo, prova o doce e ri na tela não é um anunciante. É um amigo. E amigo não mente.

Pesquisa do Instituto Alana mostra que 67% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos se deparam com publicidade em sites de vídeo. O Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária proíbe a exploração da credulidade infantil. Mas a norma foi escrita para um comercial de trinta segundos — não para um universo onde o anúncio vive dentro de um rosto que a criança assiste todo dia e sente que conhece.

Por décadas, o maior risco do consumo infantil foi o doce no caixa do supermercado — aquele que a criança vê na hora de pagar e implora para levar. O doce continua lá. A diferença é que agora o caixa está dentro da mão dela, ligado nove horas por dia, e quem mostra o doce é alguém que ela ama.

O ECA Digital, em vigor desde março de 2026, e o novo guia do CONAR para influenciadores, com efeitos a partir de junho, avançaram na proteção do público infantil. São conquistas reais. Mas regra sem fiscalização é intenção — e o volume de conteúdo produzido a cada minuto supera qualquer capacidade de revisão manual.

A inversão que muda tudo

Em qualquer modelo normal de publicidade, os incentivos do anunciante e do consumidor apontam para o mesmo lugar. A marca quer que você compre, use e goste — porque cliente satisfeito volta, recomenda, repete. O influenciador ganha quando a relação dá certo para os dois lados.

O cassino online quebra essa lógica pela raiz.

A maior parte dos influenciadores que promovem apostas é remunerada por afiliação: recebem uma comissão calculada sobre o lucro que a plataforma obtém com os jogadores que entraram pelo link deles. Como a casa só lucra quando o apostador perde, o cálculo é direto. Quanto mais o seguidor perde, mais o influenciador ganha.

É a primeira forma de publicidade em que o sucesso do anunciante exige o fracasso do consumidor. Nos outros anúncios, o influenciador torce para você gostar. Neste, é pago para que você não consiga parar.

No cassino online, o produto não é você. É a sua esperança — a crença de que desta vez vai ser diferente, que o método funciona, que o link do influenciador traz sorte diferente do link de qualquer outro. Os brasileiros destinaram cerca de R$ 240 bilhões a apostas em 2024, segundo o Banco Central. O público mais atingido é o mais jovem e o de menor renda — o mesmo que mais segue influenciador, o mesmo que menos tem para perder.

Quando a confiança do seguidor vira ativo do crime

E há o degrau que os jornais começaram a mostrar agora.

Em outubro de 2025, a Polícia Federal deflagrou a Operação Narco Bet, que investiga o uso de plataformas de apostas pela maior facção criminosa do país para lavar dinheiro do tráfico internacional. Entre os investigados, um influenciador dono de casas de aposta teria recebido R$ 19,7 milhões de um empresário apontado por enviar três toneladas de cocaína para a Europa. Outras operações seguiram, com nomes conhecidos das redes. Nenhuma investigação está encerrada — a Justiça dirá quem é culpado de quê. O que interessa aqui é o padrão que elas descrevem.

Uma desembargadora que acompanha esses casos resumiu a escolha da facção: o crime organizado procura influenciadores porque eles entregam o que é mais difícil de fabricar — legitimidade. A audiência que o seguidor construiu ao longo de anos de confiança vira, sem que ele saiba, a fachada que lava o que é ilícito.

A facção não precisou arrombar a porta. Comprou a confiança de quem você já tinha deixado entrar.

Estrutura, não vilão

É preciso dizer o que isso não é: não é a história de um mercado inteiro corrompido. A maioria dos 3,8 milhões de criadores não promove cassino, não lava dinheiro, não engana criança. E a maioria de quem promove cassino não sabe — ou não quer saber — de onde vem o dinheiro que recebe.

O problema não cabe num culpado único e não tem endereço partidário. Está repartido: a plataforma que monetiza atenção sem perguntar o que está sendo vendido; a marca que compra audiência sem verificar o que ela sustenta; o influenciador que aceita o contrato sem ler o que comissiona; o Estado que regulamentou apostas com sete anos de atraso e ainda fiscaliza pouco; e a família que, exausta, entrega o celular porque é o que acalma.

O ECA Digital e o guia do CONAR chegaram. São avanços reais e tardios. Mas a velocidade com que o conteúdo é produzido, a ausência de fronteira das plataformas e o volume de criadores tornam qualquer fiscalização uma corrida que o Estado, por enquanto, corre atrás.

Minha sobrinha de oito anos vai assistir o vídeo de hoje. O jingle que repete de cor não é de uma música — é de um catálogo. Quando ela tiver dezoito anos, o catálogo vai ter um link de cassino na descrição, postado por alguém em quem ela vai confiar porque sempre foi honesto sobre o tênis, sobre o suplemento, sobre tudo. A confiança não vai ser traída — vai ser vendida. E essa é a parte mais cara da conta.


Fontes: Reglab / Exame — Brasil tem 3,8 milhões de influenciadores e mercado de R$ 20 bilhões/ano; país com mais influenciadores do mundo (nov/2025); Influency.me e Opinion Box — Consumo e Influência Digital 2026: 69% compraram por indicação nos últimos seis meses (mai/2026); 7 em cada 10 internautas seguem influenciador, 91% entre jovens de 16 a 29 anos; Youpix / Nielsen — 80% dos consumidores já compraram por indicação (fev/2025); Opinion Box — 87% de satisfação entre quem comprou por indicação; Instituto Alana / Criança e Consumo — 67% dos usuários de 9 a 17 anos se deparam com publicidade em sites de vídeo (2023); CBAP, art. 37 — vedação à exploração da credulidade infantil; Lei nº 15.211/2025 (ECA Digital), em vigor desde 17/03/2026; CONAR — Guia de Marketing e Publicidade por Influenciadores Digitais, efeitos a partir de 1º/06/2026; Banco Central — R$ 240 bilhões destinados a apostas em 2024; We Are Social 2025 — brasileiro passa 9h13/dia na internet; Polícia Federal — Operação Narco Bet (out/2025); influenciador teria recebido R$ 19,7 milhões de investigado por tráfico, conforme apuração em curso.