Os EUA Taxaram o Brasil em 25%. O Recado Está no Que Ficou de Fora
Café, carne, fertilizante, terras raras, aviões — tudo que a maior economia do mundo precisa do Brasil escapou da nova tarifa. Sobrou o que não dói no consumidor americano. Não é uma medida econômica. É um recado político com um número grande na frente.
Iris de Oliveira · 3 de jun. de 2026
Na madrugada de terça-feira, o governo dos Estados Unidos anunciou uma tarifa de 25% sobre os produtos brasileiros. Algumas horas depois, divulgou a lista do que ficou de fora. E a lista diz mais do que a tarifa.
Café, carne bovina, suco de frutas, fertilizantes, terras raras, celulose, combustíveis, produtos farmacêuticos, componentes eletrônicos e praticamente toda a cadeia aeronáutica: tudo isento. Ou seja, tudo aquilo que os Estados Unidos compram do Brasil porque precisam — e não acham com a mesma facilidade em outro lugar — passou intacto. O que sobrou para ser taxado foi o que a América consegue substituir sem que o preço suba na prateleira dela: manufaturados, máquinas, equipamentos industriais.
Quando uma tarifa exclui justamente aquilo de que a outra economia mais depende, ela deixa de ser instrumento comercial. Vira mensagem. O número de 25% é o título da notícia. A lista de exceções é o documento — e o documento foi calibrado para pressionar o Brasil exatamente na dose que não custa nada ao americano.
O número de 25% é o título da notícia. A lista de exceções é o documento — e o documento foi escrito para pressionar o Brasil na dose precisa em que isso não custa nada ao consumidor dos Estados Unidos.
O número grande e a lista pequena
A medida saiu da investigação que o Escritório de Representação Comercial dos EUA, o USTR, abriu contra o Brasil em julho de 2025, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 — o mesmo dispositivo já usado contra o país em 1988, quando os americanos taxaram em 100% produtos brasileiros de informática. O embaixador Jamieson Greer concluiu agora que certas políticas brasileiras seriam 'irrazoáveis' e proporiam à Casa Branca a sobretaxa de 25%.
Vale o que está nas letras miúdas: a tarifa ainda não está em vigor. Há consulta pública e audiência marcadas para julho, e o prazo legal para Trump decidir é 15 de julho. Até lá, as negociações continuam — o próprio Greer admitiu que segue conversando com o governo Lula. Em outras palavras, o anúncio é, antes de tudo, uma ferramenta de pressão deixada em cima da mesa.
É como uma multa impressa em letras garrafais com as condições reais escondidas no rodapé. A manchete grita 25% sobre tudo. O rodapé, onde mora a lista de isenções, governa o que de fato acontece. E o rodapé diz que o comércio essencial entre os dois países não será interrompido.
Os números ajudam a medir o tamanho do estrago possível. Os Estados Unidos são o segundo maior destino das exportações brasileiras, mas compraram US$ 37,7 bilhões em 2025 — uma queda de 6,6% no ano e pouco mais de um décimo dos US$ 348,7 bilhões que o Brasil exportou ao mundo. Sob tarifa, o Brasil bateu recorde histórico de exportações. O peso dos EUA na conta brasileira é grande, mas não é determinante. E Washington sabe disso.
Seis queixas — e a mais alta não é sobre comércio
O relatório do USTR lista seis frentes de conflito: barreiras ao etanol americano, pirataria e propriedade intelectual, falhas no combate à corrupção, desmatamento ilegal, tarifas preferenciais que o Brasil concede a outros parceiros e, no centro do barulho, o Pix.
É preciso honestidade aqui. Algumas dessas queixas não são invenção. O acesso ao mercado de etanol é uma disputa comercial antiga e legítima. Pirataria e desmatamento ilegal são problemas que o próprio Brasil reconhece e tenta combater há anos — não viraram graves porque um americano apontou. Um texto que finge que o Brasil não tem nada a corrigir é tão frágil quanto um texto que finge que a tarifa é só comércio.
Mas a queixa mais alta entrega o jogo. O USTR chama o Pix de 'campeão nacional' e reclama que o Banco Central acumula dois papéis — regulador e dono do sistema —, o que colocaria os concorrentes estrangeiros em desvantagem. Traduzindo: os Estados Unidos estão incomodados porque o Brasil construiu um sistema de pagamento instantâneo, público e gratuito que funciona melhor, e mais barato, do que as bandeiras de cartão americanas que dominavam o terreno.
O Pix não é uma prática desleal. É um serviço público que cometeu o pecado de funcionar bem demais para a concorrência estrangeira.
É como reclamar que alguém construiu uma ponte pública e gratuita onde antes só havia a ponte com pedágio. A ponte do pedágio não foi proibida — ela só deixou de ser o único caminho. Cobrar 25% de tarifa por causa disso não é defender o livre mercado. É defender quem cobrava o pedágio.
A soberania que virou moeda numa briga doméstica
Aqui o argumento precisa incomodar os dois lados, porque os dois cabem na conta.
Pela nota oficial do próprio governo brasileiro, a investigação nasceu 'por provocação da família Bolsonaro'. Traduzindo sem adjetivo: parte da classe política brasileira passou a tratar Washington como tribunal de recurso para uma disputa interna — e pediu, lá fora, uma pressão econômica sobre o próprio país. Não é preciso atribuir má intenção a ninguém para reconhecer o que isso significa estruturalmente: a soberania virou ficha de aposta numa guerra doméstica.
Do outro lado da mesma mesa, o governo Lula administra bem a crise política e não tem resposta para a estrutural. A viagem aos EUA não evitou o anúncio. A proposta foi um vago prazo de 30 dias para 'bater o martelo'. Diante de queixas sobre Pix, dados e plataformas digitais — que são, no fundo, perguntas sobre quem controla a infraestrutura do país —, o Brasil ainda não tem política de soberania digital aprovada para colocar na resposta.
De um lado, quem convidou a pressão. Do outro, quem não construiu defesa contra ela. No meio, um país sendo negociado por gente que, em nenhum dos dois lados, está propriamente defendendo o país.
O tarifaço que empurrou o Brasil para a China
Há uma ironia que o relatório americano prefere não enxergar. Em 2025, Trump aplicou ao Brasil uma tarifa de 50% — 10% de base mais 40% adicionais, justificados explicitamente pelo tratamento dado a Jair Bolsonaro. O adicional acabou retirado em novembro. Mesmo assim, o Brasil reagiu pelo lado que estava aberto: redirecionou exportações. As vendas para a China chegaram a US$ 100 bilhões, alta de 6%, puxando o recorde histórico.
Agora, entre as seis queixas do novo relatório, está justamente o fato de o Brasil conceder 'tarifas preferenciais' a outros parceiros — leia-se, a aproximação com a China. Ou seja: os Estados Unidos estão cobrando do Brasil exatamente o movimento que o tarifaço de 2025 ajudou a acelerar.
O Brasil foi empurrado para a China por um tarifaço. Agora é cobrado, por outro, pelo destino para onde foi empurrado.
E é aqui que a notícia, vista de Rondônia, muda de tamanho. Meu sogro cria gado e planta café em Costa Marques. Toda semana ele acompanha o dólar, a arroba e a cotação do café antes de decidir qualquer coisa. A pauta que sustenta boa parte do Norte — soja, carne, café — ficou de fora da nova tarifa. O tarifaço que domina o noticiário mal encosta no que paga as contas em Costa Marques.
A calma, porém, é emprestada. Em 2025, o café chegou a ser apanhado pela sobretaxa antes de ser poupado. O que protege a arroba e a saca hoje não é um direito assegurado pelo Brasil — é a conveniência da economia americana. E o que foi isento por decisão de Washington pode, com a mesma facilidade, ser taxado por decisão de Washington.
O que está de fato em jogo
Por isso o estrago real não está nos produtos. O comércio essencial segue, as isenções preservam o que importa, e o Brasil tem para onde vender. O que está em jogo é outra coisa, menos visível e mais grave: pela primeira vez, decisões internas brasileiras — como o país regula pagamentos, como sua Justiça funciona, o que faz com seus dados — entraram formalmente na pauta comercial da maior economia do mundo, como itens negociáveis.
Não é a tarifa que cria precedente. É a ideia, agora oficializada em documento, de que essas escolhas são negociáveis de fora para dentro. Um país que aceita discutir o próprio sistema de pagamento numa mesa de tarifas já cedeu algo que nenhuma alíquota mede.
O café do meu sogro, em Costa Marques, vai chegar ao porto sem pagar a tarifa nova. Não porque o Brasil garantiu — porque os Estados Unidos preferiram assim. E essa diferença é o nome de tudo o que está em jogo. Uma tarifa que poupa aquilo de que o outro precisa não foi feita para mudar o comércio. Foi feita para lembrar de quem é a decisão.
Fontes: Agência Brasil / USTR — proposta de tarifa adicional de 25% sobre bens brasileiros, Seção 301 da Lei de Comércio de 1974; investigação aberta em jul/2025 e concluída em jun/2026; prazo legal de 15 de julho de 2026 (jun/2026); USTR — seis frentes de queixa: Pix e meios de pagamento, plataformas digitais e Judiciário, propriedade intelectual, corrupção, desmatamento ilegal, tarifas preferenciais e etanol; Pix como 'campeão nacional' e duplo papel do Banco Central; ND Mais — lista de isenções (café, carne, suco de frutas, fertilizantes, terras raras, celulose, combustíveis, farmacêuticos, componentes eletrônicos e cadeia aeronáutica); Agência Pública — Seção 301 usada contra o Brasil em 1988, 2025 e 2026; MDIC/Secex — exportações brasileiras de US$ 348,7 bi em 2025 (recorde) e US$ 100 bi para a China (+6%); ABFA/Estadão — EUA como 2º destino, US$ 37,7 bi e queda de 6,6% em 2025; tarifa de 50% (10% + 40%) em 2025, adicional retirado em nov/2025.