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COLUNA | POLÍTICA & DEMOCRACIA

A Luz no Fim do Túnel Não Era a Saída. Era o Trem

Eleito para enterrar a “velha política”, ele entregou a Casa Civil ao centrão, escolheu o procurador-geral fora da lista, indicou ao STF um nome apadrinhado pelo Progressistas, criou o orçamento secreto e terminou filiado ao partido de um condenado no mensalão. O eleitor pediu uma saída. Recebeu o mesmo trilho.

Iris de Oliveira · 31 de mai. de 2026
A Luz no Fim do Túnel Não Era a Saída. Era o Trem

Em 2018, eu votei nele. E não só votei: convenci. Liguei para parentes, discuti em mesa de jantar, defendi para vizinhos a ideia de que aquele candidato era diferente — que vinha de fora para desmontar a máquina que governava o Brasil havia décadas. Eu disse, com todas as letras, que tinha enxergado uma luz no fim do túnel.

Levei o mandato inteiro para entender que aquela luz não era a saída. Era um trem. E o maquinista era exatamente o mesmo de sempre.

O Brasil tem o costume de eleger salvadores contra o sistema e descobrir, tarde demais, que o sistema não se rende nas urnas. Ele não é derrotado: é assinado em ficha de filiação, distribuído em cargo de confiança, escondido dentro de uma emenda de relator. Foi assim antes. Foi assim, de novo, com o governo que se vendeu como ruptura.

Antes da conta, o que de fato funcionou

Seria desonesto fingir que nada se entregou. O governo Bolsonaro aprovou a reforma da Previdência em 2019, mudança que administrações anteriores tentaram e não conseguiram. Sancionou a autonomia formal do Banco Central, aprovou o novo marco do saneamento e concluiu a privatização da Eletrobras — pautas que destravaram depois de anos paradas. E, na pandemia, pagou um auxílio emergencial que chegou a dezenas de milhões de brasileiros e que, em valor total, foi um dos maiores do mundo — ainda que a própria equipe econômica quisesse cortá-lo pela metade.

Reconhecer isso não enfraquece o argumento. Fortalece. Porque a questão deste texto não é o que o governo fez na economia. É o que ele prometeu ser — e deixou de ser — diante do poder.

O fim do “toma lá, dá cá” que durou até o primeiro aperto

Na campanha, a régua era clara. Bolsonaro afirmava que qualquer presidente que distribuísse ministérios, estatais ou diretorias de banco em troca de apoio no Congresso estaria infringindo o artigo 85 da Constituição. “Não haverá negociação partidária”, disse ao votar, em outubro de 2018. Seu general de maior confiança, Augusto Heleno, chegou a cantar em ato público: “se gritar pega centrão, não fica um, meu irmão”.

Dois anos depois, o centrão não só sobreviveu — virou governo. Em julho de 2021, Ciro Nogueira, presidente do Progressistas e investigado na Lava Jato, assumiu a Casa Civil, o ministério que coordena toda a Esplanada. PP, PL e Republicanos passaram a gerir a distribuição de cargos federais. Na prática, isso significa o seguinte: o partido indica quem ocupa diretoria de estatal, superintendência, cargo regional — e, em troca, entrega votos no Congresso. É o motor que ele havia jurado desligar, ligado de novo, com a mão dele na chave.

67%.

Foi a fatia de brasileiros que, em pesquisa Datafolha de 2020, disse que o presidente agia mal ao negociar cargos e verbas — e que descumpria a promessa de campanha. A maioria do país percebeu a troca antes mesmo de o mandato terminar.

A Polícia Federal que ele jurou não tocar

A primeira fenda apareceu aqui. Sergio Moro — o nome que dava ao governo o verniz anticorrupção — pediu demissão em abril de 2020 acusando o presidente de tentar interferir politicamente na Polícia Federal para proteger aliados e familiares. Segundo Moro, Bolsonaro queria o comando de uma superintendência específica: a do Rio de Janeiro, onde o filho do presidente, o senador Flávio, era investigado no caso das “rachadinhas”. “Você tem 27 superintendências, eu quero só uma, a do Rio”, teria dito o presidente, segundo o relato do então ministro.

Quatro diretores-gerais da Polícia Federal em pouco mais de três anos.

Esse é o número que fica — independentemente de quem tenha razão sobre as intenções. E é justo registrar o outro lado: a própria Polícia Federal arquivou o inquérito, concluindo que não houve crime, porque cabe ao presidente escolher os chefes vinculados aos ministérios. A lei pode ter ficado do lado dele. A promessa, não. Quem fez campanha jurando blindar a PF de qualquer mão política não tinha como explicar a troca em sequência do comando do órgão que investigava a própria família.

O guardião escolhido a dedo

A Procuradoria-Geral da República é quem fiscaliza o poder por dentro. Desde 2003, Lula, Dilma e Temer respeitaram a tradição de escolher o procurador-geral entre os mais votados da lista tríplice do Ministério Público. Em 2019, Bolsonaro rompeu a tradição e indicou Augusto Aras, que sequer havia se candidatado na lista. Nos quatro anos seguintes, Aras dissolveu as forças-tarefa da Lava Jato e arquivou investigações contra o presidente, integrantes do governo e aliados do centrão — inclusive uma apuração contra o próprio Ciro Nogueira, contrariando a Polícia Federal.

Quem prometeu acabar com a impunidade entregou a chave da fiscalização a quem combinava com o investigado.

O ministro “terrivelmente evangélico” que virou o ministro do centrão

Para o Supremo, a promessa de Bolsonaro tinha até adjetivo: indicaria alguém “terrivelmente evangélico”. Em outubro de 2020, indicou Kassio Nunes Marques — nome sugerido pelo senador Ciro Nogueira, do mesmo Piauí, e celebrado abertamente pela imprensa como “vitória do centrão e derrota da ala ideológica” do governo. Não era o evangélico prometido. Era o indicado do bloco que o presidente havia jurado combater, sentado por décadas na mais alta corte do país.

O orçamento que ninguém podia ver

Talvez nenhum mecanismo resuma melhor o abandono da bandeira anticorrupção do que o orçamento secreto. Por meio das chamadas emendas de relator — o código RP-9 —, bilhões de reais passaram a ser distribuídos a parlamentares aliados sem que se soubesse quem pedia, para onde ia e o que financiava. Traduzindo: dinheiro público virou senha de apoio, liberado a quem votava com o governo e invisível para o resto do país. Em dezembro de 2022, o STF declarou o esquema inconstitucional, por 6 votos a 5. A relatora, ministra Rosa Weber, descreveu o orçamento da União transformado em “balcão de negócios”, coberto por um “manto de névoas”.

O candidato que subiu prometendo transparência criou o mais opaco instrumento de compra de apoio da história recente do Congresso.

A ficha que ele assinou

E então veio o gesto mais simbólico de todos. Em 30 de novembro de 2021, depois de dois anos sem partido, Bolsonaro se filiou ao PL — comandado por Valdemar Costa Neto, condenado pelo STF a sete anos e dez meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no escândalo do mensalão.

Sete anos e dez meses.

Foi a pena de quem personificava a “velha política” — e que recebeu, das mãos do candidato antissistema, a ficha de filiação assinada em cerimônia.

E aqui está o detalhe que deveria incomodar todos os lados: o mesmo Valdemar Costa Neto foi um dos arquitetos da chapa que elegeu Lula em 2002. O centrão não tem dono ideológico. Ele aluga governabilidade para quem chegar — esquerda, direita, antissistema. Cobra em cargo, em emenda e em silêncio. E permanece, mandato após mandato, enquanto os presidentes passam.

A “velha política” não foi derrotada em 2018. Foi contratada.

É por isso que a imagem do trem é mais exata do que parece. O eleitor fica parado na plataforma esperando a saída. A cada quatro anos chega um trem novo — pintura diferente, maquinista diferente, discurso diferente. Ele embarca achando que finalmente vai sair do túnel. Mas o trilho é o mesmo. Foi assentado há trinta anos e pertence sempre à mesma companhia: a que negocia cargo por voto, emenda por apoio, cadeira de tribunal por governabilidade. Trocar de maquinista nunca tirou ninguém do túnel. Só muda quem dirige enquanto o trem segue no mesmo trilho.

Não escrevo isto para me redimir do voto — voto é aposta que a gente faz com a informação que tem na hora. Escrevo porque convenci pessoas, e elas merecem o diagnóstico honesto que eu não tinha em 2018: o problema nunca foi só o nome no topo. É a engrenagem que qualquer nome, ao chegar lá, descobre que precisa alimentar para governar. Bolsonaro prometeu quebrar essa engrenagem. Em vez disso, assinou a ficha dela.

Eu vi a luz no fim do túnel e convenci outros a olhar para ela. Era mesmo uma luz — só não era a saída. Era o trem, no trilho de sempre, com maquinista novo e destino velho. A pergunta que sobra não é se votei errado. É por que o Brasil insiste em confundir o farol do trem com a porta de saída.


Fontes: Estado de Minas / Correio Braziliense — vídeo de campanha de Bolsonaro sobre o art. 85 da Constituição e o “toma lá, dá cá” (2018, resgatado em 2021–2022); Diário de Cuyo — “Não haverá negociação partidária” (out/2018); Datafolha — 67% reprovam a aproximação com o centrão (2020); Câmara dos Deputados e Público (PT) — demissão de Sergio Moro e acusação de interferência na PF (abr/2020); WSJ/The Intercept — “quero só uma, a do Rio”; relatório da PF que arquivou o inquérito por ausência de crime (2022); CNN Brasil, Folha e ConJur — indicação de Augusto Aras à PGR fora da lista tríplice (set/2019) e arquivamentos de investigações; Gazeta do Povo e CNTS — indicação de Kassio Nunes Marques ao STF, articulada por Ciro Nogueira (out/2020); STF, CartaCapital e InfoMoney — orçamento secreto (emendas RP-9) declarado inconstitucional por 6 a 5 (dez/2022); Metrópoles e Estado de Minas — filiação de Bolsonaro ao PL de Valdemar Costa Neto (nov/2021); STF — condenação de Valdemar no mensalão a 7 anos e 10 meses por corrupção passiva e lavagem de dinheiro (2012–2013); Gazeta do Povo, Poder360 e Aos Fatos — reforma da Previdência, autonomia do Banco Central, marco do saneamento e privatização da Eletrobras como legado econômico.