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COLUNA | SEGURANÇA & GESTÃO DO ESTADO

Meio Milhão por Preso. E a Facção Continua do Lado de Fora

Cada detento federal custou R$ 489,6 mil ao ano em 2024 — num sistema criado em 2006 com a missão de isolar as lideranças do crime organizado. No mesmo período, o PCC chegou a 24 estados e o Comando Vermelho, a 22. O problema nunca foi o preço. Foi a crença de que prender o chefe desorganiza a facção.

Iris de Oliveira · 31 de mai. de 2026
Meio Milhão por Preso. E a Facção Continua do Lado de Fora

Em maio de 2006, o Primeiro Comando da Capital parou São Paulo. Ônibus incendiados, ataques coordenados a dezenas de bases policiais, agentes de segurança mortos, uma metrópole de vinte milhões de pessoas obedecendo a ordens dadas de dentro de uma cela. Foi a demonstração mais clara, até então, de que o crime organizado brasileiro já não cabia nos muros de um presídio comum.

A resposta do Estado veio rápido. Em 23 de junho daquele ano, abriu as portas a primeira penitenciária federal de segurança máxima do país, em Catanduvas, no Paraná. A missão estava escrita na lei e repetida em cada documento oficial desde então: combater o crime organizado, isolando suas lideranças e os presos de alta periculosidade.

Dezenove anos depois, o PCC opera em 24 dos 27 estados brasileiros. O Comando Vermelho, em 22.

O preço de uma cela que funciona

R$ 489,6 mil.

Foi quanto custou manter cada preso federal em 2024 — quase meio milhão de reais por ano, por detento, segundo o painel Custo do Preso da Senappen, o próprio órgão que administra o sistema. Por mês, R$ 40,8 mil: quinze vezes o que custa, em média, um preso estadual, e um valor próximo ao que os Estados Unidos gastam para manter um detento na ADX Florence, sua prisão de segurança máxima no Colorado.

Para dimensionar: com o que o Estado gasta em um ano para manter um único preso federal, pagaria quase oito anos do salário de uma professora como Dona Márcia, que ensina português há quase três décadas na rede pública. O sistema federal inteiro consumiu R$ 211 milhões em 2024 para abrigar, nas suas cinco unidades, no máximo pouco mais de mil detentos — os mais perigosos do país.

E aqui é preciso ser honesto, antes de qualquer crítica: esse dinheiro compra algo real. As penitenciárias federais funcionam. O sistema federal passou dezoito anos sem uma única fuga, até 2024. Não há rebeliões, não há celulares, não há motins. O corpo do preso de alta periculosidade está, de fato, isolado — com uma eficiência que o sistema estadual, superlotado e dominado por facções, nunca alcançou. Some-se a isso que o Brasil registrou em 2024 a menor taxa de homicídios da sua série histórica, a mais baixa desde 1998. Alguma coisa, em algum lugar, deu certo.

O problema é que nada disso atingiu aquilo que o presídio federal foi batizado para combater.

A facção que nasceu na cela que deveria impedi-la

Aqui está o dado que deveria encerrar o debate sobre eficiência.

A Família do Norte, uma das facções que mais cresceram na Amazônia, não nasceu numa favela nem numa boca de fumo. Nasceu dentro da Penitenciária Federal de Catanduvas, em 2006, de uma reunião entre presos — no exato lugar construído para impedir que organizações assim existissem. Anos depois, foi também dentro de uma unidade federal, a de Campo Grande, que lideranças dessa facção selaram aliança com o Comando Vermelho.

Pesquisadores de segurança pública e ex-gestores do próprio sistema penitenciário federal chegaram à mesma conclusão incômoda: ao reunir num só lugar os chefes de organizações de estados diferentes, o sistema desenhado para isolá-los acabou servindo de ponto de encontro nacional. O preso chega, e amplia o seu leque de contatos.

Trancar o general não dissolve o exército. Só muda o endereço de onde ele assina as ordens.

Meio milhão de reais por ano compra um muro em volta do homem. Nunca em volta da facção.

Onde o crime foi enquanto o chefe ficava preso

Enquanto o Estado aperfeiçoava a arte de conter corpos, a facção fazia o que organização nenhuma precisa do corpo do chefe para fazer: crescer.

Um estudo da Universidade de Cambridge, publicado em 2025, estima que entre 50 e 61 milhões de brasileiros vivem hoje em territórios onde vigoram, também ou apenas, as regras das facções. É algo entre um quarto e um terço da população do país. Se formassem uma nação, seriam mais numerosos que toda a Espanha. Outra pesquisa, do Datafolha para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostrou que a parcela de brasileiros que convive com o crime organizado no próprio bairro saltou de 14% para 19% em um único ano — de 23 para 28,5 milhões de pessoas.

A violência, é verdade, caiu nas capitais. Mas não desapareceu: mudou de endereço. Migrou para o interior, para as cidades médias e pequenas do Norte e do Nordeste, para os municípios portuários nas rotas do tráfico. Em Rondônia — o estado que abriga uma das cinco penitenciárias federais, em Porto Velho — a dona de um pequeno comércio no interior sabe, sem precisar ler nenhum atlas, qual facção manda na sua rua e a quem se deve pedir licença. O chefe pode estar trancado a quilômetros dali, numa cela de meio milhão por ano. A ordem dele chega na esquina dela todo dia.

É como prender o dono de uma empresa e imaginar que a empresa fecha. Mas a empresa tem gerentes, tem caixa, tem filial. O dono preso continua sócio — agora com endereço fixo e telefone vigiado, o que raramente impediu que as ordens saíssem.

No fim de maio de 2026, o governo dos Estados Unidos classificou o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Não se faz isso com quadrilha de bairro. Faz-se com estrutura transnacional — que move drogas, lava dinheiro e disputa fronteiras.

O erro não foi o presídio. Foi a ideia.

Daí a pergunta que dá título a este texto, e que poucos governos quiseram encarar: se o sistema custa tanto e contém tão bem, por que o crime organizado só fez crescer?

A resposta não é que o dinheiro foi mal gasto numa cela. É que o Brasil — por quase vinte anos e sob governos de todos os matizes, de Lula em 2006, passando por Temer e Bolsonaro, até o mesmo Lula de novo — administrou o crime organizado como um problema de logística, não de estratégia. A pergunta que orientou a política foi sempre onde colocar os homens mais perigosos, quase nunca como desmontar a organização que sobrevive sem eles.

A facção não se sustenta no carisma do líder. Sustenta-se em três coisas que o muro não toca: o dinheiro que circula, o território que controla e os jovens que recruta. O presídio federal, caríssimo e eficiente, ataca justamente a única coisa que a facção pode perder sem sentir — a liberdade física de um chefe que já delegou tudo.

O Brasil não administrou mal o presídio. Administrou mal a crença de que prender o chefe desorganiza o crime.

Isso não significa fechar as penitenciárias federais. Elas são necessárias — tirar uma liderança como a cúpula do PCC do convívio nos presídios estaduais evita males maiores, e ninguém de bom senso defende o contrário. O ponto é outro: enquanto o gasto com inteligência financeira, asfixia do caixa das facções e prevenção ao recrutamento for uma fração do que se gasta para trancar corpos, o país vai continuar pagando meio milhão por preso para vencer uma guerra que não se trava na cela.

Em 2006, o Estado trancou os chefes em Catanduvas e anunciou que combatia o crime organizado. Dezenove anos e quase meio milhão de reais por preso depois, os chefes seguem trancados — e o crime, mais organizado do que nunca, nunca esteve dentro da cela.


Fontes: Senappen / painel Custo do Preso (Ministério da Justiça e Segurança Pública) — custo médio do preso federal de R$ 40,8 mil/mês e R$ 489,6 mil/ano em 2024; gasto total de R$ 211 milhões; cinco unidades, capacidade de 208 por unidade; missão institucional de combate ao crime organizado (2024–2025); Metrópoles — comparativo com presos estaduais (15x) e com a ADX Florence/EUA (mar/2025); Agência Brasil — penitenciárias federais: origem em 2006 e finalidade (fev/2024); Gazeta do Povo — origem da Família do Norte em Catanduvas (2006) e aliança com o CV em Campo Grande; análise de pesquisadores e do ex-diretor do Depen Augusto Rossini (dez/2020); Ipea / FBSP — Atlas da Violência 2025 e 2026: interiorização das facções, presença em todas as UFs e menor taxa de homicídios desde 1998; Universidade de Cambridge / Perspectives on Politics — 50,6 a 61,6 milhões sob governança criminal (ago/2025); Datafolha / FBSP — convivência com o crime organizado subiu de 14% (23 mi) para 19% (28,5 mi) entre 2024 e 2025; presença do PCC em 24 estados e do CV em 22; Departamento de Estado dos EUA — designação de PCC e CV como organizações terroristas (mai/2026).